RSS Amplifier

Daniel Lucrédio · Jun 10, 2026

A arte do caçador - parte 2

0
Sign in to vote or save

Daniel Lucrédio · Daniel Lucrédio

São Miguel do Vale, 27 de maio de 1861

A noite não foi tranquila. A certa hora da madrugada, o cheiro voltou a incomodar. Certamente os caçadores tinham reabastecido a fogueira diversas vezes, a ponto de fazer a nuvem fétida se espalhar até a casa de Diana. Também havia gritos e guinchos. Risadas dos caçadores se misturavam ao lamento dos demônios que protestavam contra seu destino. Quando a luz do dia entrou pelas frestas da janela, Lionel tinha descansado muito pouco. Mas não quis ficar na cama por muito tempo. Assim que ouviu a movimentação de Diana na sala, ele se lavou na bacia de água limpa que tinha sido preparada por sua anfitriã e se juntou a ela.

— Bom dia. Noite difícil? — ela disse ao vê-lo entrando na sala.

— É, não consegui dormir direito. E você?

— Eu dormi sim, estou acostumada. Além disso, tenho acordado muito cedo nesta temporada de caça, então ando sempre exausta. O vinho também ajudou. — Deu uma piscadela.

— Acho que eu bebi pouco, então.

— Me lembre de dobrar sua dose esta noite.

— Achei que eu iria me juntar aos outros na caçada.

— Oh! — ela exclamou — Na verdade…

— O quê?

— Bem, eu esperava que pudéssemos trabalhar na teoria primeiro, sabe? Capturar a mente do monstro?

— Podemos fazer isso durante o dia, não?

— Suponho que sim. Tem certeza que quer ir à caçada? Como lhe expliquei ontem à noite, nosso problema não é a falta de braços, e sim a falta de cérebros.

— Eu faço questão. Antes de ser um acadêmico, eu sou um caçador. Meu juramento me obriga.

Ela titubeou um pouco, antes de falar:

— Está certo. Tenho que avisar aos outros, então.

— Por que eu tenho a impressão que eles não querem a minha ajuda?

— Se você perguntar, eles dirão que não, definitivamente.

— E se não perguntarmos?

Ela sorriu ao responder:

— É mais ou menos isso que eu pretendo fazer. Acho que se simplesmente aparecermos com armas na mão, eles não poderão negar nossa companhia.

— Por mim está ótimo. Não estou aqui para fazer amigos.

— Nem ao menos uma amiga? — ela sorria do mesmo jeito que na noite anterior.

— Está bem, talvez uma amiga, o que já seria uma grande coisa.

— Fechado, então. O grupo se reúne na praça antes do pôr-do-sol, para acender a fogueira.

— Espero que a carruagem traga minha bagagem até lá.

— Ah, sim, mais tarde eu vou averiguar isso, pode ficar tranquilo. Por ora, vamos nos preocupar com o tempo, que é curto. Quer me ajudar a preparar o café? Assim já começamos logo nosso trabalho.

— Sim, é claro.

Lionel e Diana se dirigiram à cozinha, onde prepararam e fizeram seu desjejum. Depois que estavam satisfeitos, foram até o escritório onde ela conduzia seus estudos. Ela o acomodou em uma cadeira em frente a uma grande e lustrosa mesa de madeira, e começou a colocar uma enorme quantidade de papéis e livros à sua frente.

— Por onde quer começar? — ela perguntou.

— Me mostre tudo o que sabe sobre as mortes.

— Ah, sim, eu tenho as notícias dos jornais, deixe-me encontrá-las — vasculhou entre a papelada e foi selecionando pedaços recortados e colocando-os à frente de Lionel.

— Certo, vamos ver… — ele começou a ler, e logo disse — não tem fotos das vítimas? Por que você cortou fora essa parte?

— É que eu… achei que não era importante…

Ele a olhou com desconfiança, o que fez com que ela confessasse:

— E eu não gostava de ficar olhando para os rostos delas. — Parecia envergonhada. — São histórias tristes, e vê-las ali, sorrindo para mim, tornava tudo pior.

— Sei como se sente.

— Mas eu ainda tenho os recortes, se acha que é importante…

— Sim, por favor.

Ela percorreu a papelada mais uma vez com os dedos e retirou algumas fotografias recortadas, entregando-as para Lionel.

— Obrigado. Tem um bloco de notas para me emprestar? O meu ficou na bagagem.

Ela atendeu ao seu pedido, entregando-lhe uma caderneta pequena com uma capa de couro. Abrindo-a na primeira folha, começou a tomar notas.

— Todas as vítimas são mulheres, e jovens… as mortes aconteceram exatamente durante um eclipse lunar… hum…

— O que foi?

— Eclipses lunares duram uma ou duas horas apenas… quais são as chances de um demônio, em sua forma bestial, sair por aí durante a noite e simplesmente encontrar uma garota que lhe agrade em um período de tempo tão curto?

— Se for um transmorfo, ele tem forma humana, poderia fazer isso durante o dia, não?

— Sim, mas isso implica que há premeditação.

— E daí?

— Um demônio não ataca de maneira premeditada. Já sabemos disso, o princípio da origem astronômica diz que a ação demoníaca é regida pelos astros, exclusivamente. Enquanto humano, a criatura é e permanece essencialmente humana. Apenas quando está sob efeito da magia é que se torna um demônio. Portanto, a premeditação teria que acontecer de uma fase para outra, o que é impossível. Para todos os efeitos, é como se fossem dois seres distintos que se alternam controlando aquele corpo.

Diana pensou por alguns instantes, e disse:

— A não ser que…

— Sim?

— A não ser que o humano em questão, além de um demônio transmorfo, seja um psicopata.

— Está querendo dizer que existe um assassino em série que sabe que se transforma em um demônio nas noites de eclipse, e que planeja sistematicamente a captura de suas vítimas para alimentar a sede de sangue do seu demônio?

— É uma hipótese.

— É absurda! Nunca ouvi falar de algo assim. Além de ser uma combinação bem improvável de doença psíquica e magia, a pessoa teria que ser conhecedora dos fenômenos mágicos e astronômicos, e planejar muito bem suas ações para manter seu demônio sob controle durante os momentos de bestialidade irracional.

— Psicopatas são conhecidamente inteligentes, sedutores, frios e calculistas. Tudo isso que falou é bastante plausível.

— Bem, não gosto dessa hipótese, mas não vamos descartá-la ainda, mas apenas para não ferir o método científico.

— E tem outra hipótese, professor?

— Sim, já que estamos falando de absurdos… outra explicação igualmente absurda e da qual não se tem registro seria se o monstro estivesse ativo e espreitando de dentro da pessoa o tempo todo. Ou seja, mesmo com aparência humana, e capaz de se misturar à sociedade, é em sua essência um demônio o tempo todo, capaz de premeditar suas ações.

— Hum… interessante, e esse demônio, por algum motivo, consegue se controlar durante a maior parte do tempo, aparentando e agindo como um humano? Exceto nas noites de eclipse, quando precisa de alguma forma manifestar sua maldade interior?

— Exato. Como eu disse, é igualmente absurda, mas é uma hipótese alternativa.

Diana pensou por alguns instantes e disse:

— Não sei… para mim…

— O quê?

— Para mim as duas hipóteses são basicamente a mesma coisa. Não são?

— Claro que não, o princípio é completamente diferente. Um demônio é um monstro de magia, enquanto um psicopata…

— É um monstro sem magia? A diferença é apenas semântica, não?

Lionel a olhou, pensativo, e não conseguiu discordar. Enfim disse, sacudindo a cabeça:

— Bom, vamos deixar a filosofia de lado por enquanto, precisamos de mais informações. O que mais temos aqui? Investigou o perfil das vítimas?

— Na verdade, não.

— Como não? Seja um psicopata ou um demônio em forma humana, precisamos encontrar um padrão de comportamento.

— Eu sei, sinto muito. — Ela abaixou a cabeça — Agora vejo como fui burra. Seu artigo menciona padrões muito mais simples, como o dos vampiros, que sempre preferem vítimas do sexo oposto, mas nada além disso. Não fui além da aparência física das vítimas.

Lionel a olhou desconfiado. Ela parecia ser mais inteligente do que estava demonstrando.

— Me desculpe se o decepciono — ela disse, parecendo sinceramente desanimada — Mas é como eu disse, nos faltam cérebros, e é por isso que você está aqui.

— Não se preocupe, podemos fazer essa investigação agora e ver se descobrimos algo.

— Sim, capturar a mente do monstro. Vamos! — Ela se animou.

Ficaram a manhã toda lendo os recortes de jornais que Diana tinha selecionado, mas conseguiram poucas informações sobre as vítimas, exceto que eram estudantes universitárias ou recém-formadas na universidade. Também descobriram que as vítimas eram todas da capital, e que tinham sido mortas em descampados, em parques ou áreas mais afastadas do centro da cidade.

— Hum, isso é realmente estranho — ele disse, após anotar suas últimas descobertas.

— O quê?

— Hã? — ele tinha se distraído com seus pensamentos. Não quis revelá-los em sua totalidade para Diana, então disfarçou:

— Não sei… descampados? Sob a Lua avermelhada por um eclipse? Me parece…

— Deliberado demais?

— É.

— Nossas hipóteses, ou hipótese única, se aceitar minha interpretação, explicariam isso também.

— Sim, sim… — ele continuava pensativo.

— Bem, já está na hora do almoço. Me ajuda a preparar? — ela tocou de leve em seu braço ao se levantar, chamando-o para que a seguisse até a cozinha.

— Acho que eu preferiria ficar aqui sozinho mais um pouco.

Ela parou e se virou devagar, encarando-o com o olhar sério:

— Sozinho, por quê? Não quer mais minha ajuda?

— Não me entenda mal, você é muito boa nisso. Mas eu às vezes sinto que consigo pensar melhor sem ninguém por perto. Você não sente o mesmo de vez em quando?

— Sim, mas eu achei que estávamos em uma sintonia tão boa.

— Por favor, Diana! — ele suplicou — É só por alguns instantes, para eu organizar meus pensamentos. Eu prometo que não descubro nada enquanto estiver longe.

— Está bem. Mas se descobrir algo, mesmo sem querer, grite que eu venho correndo, hein?

— Pode deixar. — Ele sorriu para ela, tentando ser o mais amigável que podia.

Ainda relutante, Diana deu uma última olhada para ele, e para todos os papéis jogados por ali. Olhou para as estantes, parecendo preocupada, e enfim saiu do escritório.

Assim que a perdeu de vista, Lionel desfez seu sorriso falso e levantou-se. Foi até o outro lado da mesa e logo encontrou o que procurava: as quatro fotos das garotas assassinadas. Retornando à sua cadeira, pegou os recortes com as notícias originais e começou a comparar, um a um, o formato dos pedaços de papel. Como já tinha desconfiado ao examiná-los pela primeira vez, nenhuma das fotos parecia se encaixar no recorte da notícia correspondente. As fotos não eram daquelas reportagens. Diana — ou outra pessoa — as havia substituído.

Anotou em sua caderneta: “quem de fato são as vítimas?”.

Em seguida, encontrou uma anotação que tinha feito antes, onde se lia: “demônio atacou exclusivamente na capital”. Acrescentou ao lado uma pergunta: “Então por que eu vim para São Miguel do Vale?”.

“Diabos, são quatrocentos quilômetros de distância!” — pensou — “O que a faz pensar que o demônio vai atacar aqui desta vez?”

As reais intenções de Diana cada vez mais pareciam divergir de sua narrativa oficial. Ela realmente entendia do assunto, isso era um fato. Também tinha praticamente decorado seus tratados e artigos publicados, principalmente “A arte do caçador”. Mas ela cometia alguns erros simples de lógica. E também não tinha explicado a origem dos tais rumores que em tese a levaram a convidar Lionel para passar um tempo ali, com ela.

“Será que isso tudo é um pretexto para me trazer aqui? Para, de alguma forma, saciar sua vontade de conversar com um colega acadêmico, ou melhor, segundo ela mesma, conversar com alguém diferente de todos que moram nesse fim de mundo? Ela está tentando me atrair, disso não restam dúvidas. Suas roupas apertadas, a camisa desabotoada demais, os toques e olhares… o jantar na primeira noite…”

Isso criava outra hipótese. A de que não havia demônio algum, apenas um assassino em série. Por mais terríveis que tenham sido, ainda assim os assassinatos seriam obra de humanos normais. Talvez com uma psique monstruosa, sim. Mas humanos, desprovidos de magia. Era uma hipótese muito mais plausível.

— Ei, Lionel? — Diana colocou metade do rosto para dentro do escritório — Você vai demorar? Não quero apressá-lo, é só para eu calcular o tempo de cozimento…

— Não, já acabei. Não descobri nada, viu? Só fiz umas notas aqui, espera aí…

Escreveu a última anotação: “Perguntar sobre os rumores. Para OUTRA pessoa.”

— Pronto. — Fechou a caderneta e a colocou no bolso, ao mesmo tempo em que se levantava e sorria para ela.

Ela abriu um largo sorriso que se irradiou para os olhos. Lionel começava a apreciar como seu rosto se iluminava sempre que sorria. Ela aguardou até que ele estivesse bem perto para se virar de costas e voltar à cozinha, balançando os quadris à sua frente.

A tarde foi pouco produtiva. Não tinham descoberto muita coisa além do que já sabiam, e Lionel não quis tocar nos assuntos pendentes que estavam em sua mente. Tentaria conversar com outra pessoa depois.

No meio da tarde, eles foram até a entrada da cidade para resgatar a bagagem. Lionel quis ficar mais uma vez sozinho para tentar bisbilhotar um pouco, mas ela insistiu que ele fosse junto, alegando que não poderia trazer sua bagagem em seu nome, e ele concordou. Ao retornar, Diana sugeriu que tentassem descansar um pouco, pois a caçada durava a noite toda. Lionel concordou e surpreendeu-se com a facilidade com que adormeceu.

Ele acordou com o barulho de vozes do lado de fora. Uma grande algazarra parecia estar em curso nas ruas e calçadas. Espiando pela janela, ele viu do que se tratava. Os caçadores estavam se dirigindo à praça, e eram saudados pelos moradores em suas casas. Eles batiam palmas e berravam gritos de apoio, enquanto os homens de casaco e chapéu desfilavam e acenavam para todos. Um deles, que tinha o olho de vidro, acariciava a cabeça de uma criança, sorrindo, quando passou bem em frente à janela de onde Lionel espiava. Era Nestor, o caçador hostil que tinha confrontado-o na noite anterior. Ao ver que era observado, imediatamente amarrou a cara e continuou seu caminho em direção à praça.

Lionel abriu sua bagagem e procurou por sua pistola e munição. Maldizendo seu atraso, e juntando toda a pressa que conseguia, encontrou seu cinto de couro e o amarrou na cintura, onde pendurou a arma em seu coldre e sua faca de caça. Também pegou sua sacola, que encheu com munição. Colocou o chapéu na cabeça, jogou o casaco nas costas e colocou as botas, antes de sair do quarto.

A sala estava vazia, mas sobre a lareira encontrou um bilhete, que dizia, em uma caligrafia caprichada:

“Querido Lionel, você estava dormindo profundamente, então não quis acordá-lo antes da hora. Aproveitei e saí para conversar com os caçadores para prepará-los para sua chegada. Se tiver acordado e eu não estiver em casa, venha até a praça. Não esqueça de trancar bem as portas e janelas. D.”

Ao lado do bilhete havia um molho de chaves, que Lionel pegou e utilizou para trancar tudo. Havia vários cadeados e traves de madeira, então a tarefa demorou um certo tempo. Ao travar o último cadeado, o Sol já estava quase desaparecendo no horizonte, e a maioria das pessoas já tinha se recolhido para dentro de suas casas. As ruas estavam vazias e a atmosfera festiva de minutos atrás dava lugar a um silêncio fúnebre.

Enquanto caminhava, não ouvia nada além do barulho de suas botas contra o pavimento. Ao avistar a praça e ver que havia pessoas lá, esperou ouvir conversas. Mas as cerca de quinze pessoas que esperavam ao redor da grande pilha de madeira estavam todas quietas. Ao ouvir os passos de Lionel, viraram suas cabeças para encará-lo, mas não disseram nada. Diana estava ali também.

Quando ele estava mais perto, ela deu alguns passos em sua direção e colocou a mão em seu ombro. Aproximou o rosto de seu ouvido e sussurrou:

— Está tudo bem. Eles aceitaram.

Lionel assentiu com a cabeça e olhou para os demais. Todos pareciam apreensivos, mas não estavam com as mesmas caras assustadas da noite anterior. Até o jovem Ignácio parecia mais calmo.

— Pois bem, forasteiro. Diana nos disse que é o inventor do fogo-fátuo. Por que não acende a fogueira e nos mostra como é que se faz?

Lionel olhou para Nestor e respondeu:

— Gostaria que eu o chamasse de camponês o tempo todo? Por que não me chama pelo meu nome?

Nestor sorriu e disse:

— Me desculpe, é que eu chamo todo mundo pelo apelido, é meu cacoete. E se eu o chamasse de professor? Diana o chama assim, não é?

— Qual é o apelido dela?

Ele sorriu ainda mais ao responder:

— Chamo todo mundo pelo apelido, menos ela.

Lionel olhou para Diana. Ela claramente continha um sorriso. Parecia divertir-se com a situação.

Suspirando, caminhou até a base da fogueira. Havia apenas grandes toras de madeiras e galhos grossos. Precisava de um pouco de combustível para iniciar o fogo, um pouco de mato seco ou galhos menores. Um dos homens se aproximou, trazendo um galão cheio de gasolina. Ele olhou para Diana e disse:

— Vocês usam gasolina para acender o fogo?

Ela pareceu sem graça ao responder:

— Sim, por quê?

— A magia fica enfraquecida. Pode dificultar a eliminação de alguma criatura. Não acontece de alguns demônios ficarem queimando mais do que o normal antes de morrerem?

— Sim — respondeu Nestor, dando um sorriso — Mas nada que não possamos resolver separando alguns membros e queimando um pedaço de cada vez.

Lionel sentiu-se nauseado. Ele ordenou:

— Tragam-me palha e galhos secos, vou lhes mostrar como acender um fogo eficiente.

Por alguns instantes, ninguém se mexeu. Até que Diana começou a recolher pedaços de galhos que encontrou ao redor. Olhando para os demais de maneira insistente, convenceu-os a colaborar. Em pouco tempo havia um monte razoável de combustível ao pé da fogueira. Lionel organizou tudo, formando uma pequena pirâmide de madeira seca e fina.

— Ótimo, obrigado. Agora precisamos do cadáver. Onde guardam as carcaças?

— Estão ali. — Ignácio apontou para uma caixa de madeira que ficava do outro lado da fogueira.

Lionel deu a volta e abriu a caixa. Precisou tapar o nariz com o lenço, pois havia um grande amontoado de ratos mortos dentro. Pegou um deles pelo rabo, mas ao puxar não conseguiu remover a carcaça inteira, pois a cauda em decomposição se desprendeu. Teve que enfiar a mão por baixo para retirar completamente o corpo do animal morto. Fechou a tampa com o pé e voltou ao local inicial.

— Você já vai colocar a carcaça aí? Antes de acender o fogo? — perguntou Diana.

— Se iniciarmos o fogo já com o cadáver por cima, a chama demora mais para acender, mas depois ela permanece forte por muito mais tempo.

— Não temos a noite toda, professor — disse Nestor.

— Querem minha ajuda ou não? — respondeu, irritado.

Ninguém retrucou, mas ele já sabia a resposta.

Ao colocar o rato morto sobre os galhos, o material orgânico começou a escorrer, como esperado. Bastava esperar que um pouco de gás se acumulasse nos espaços vazios e ele poderia dar início ao acendimento da chama. Colocou as mãos nos bolsos e virou-se para encarar os caçadores.

— Vai demorar muito? — perguntou Nestor.

— Uns trinta minutos, precisamos esperar o gás se acumular, para que o potencial…

Nestor não estava mais ouvindo. Pegou o galão de gasolina da mão do outro homem e passou por Lionel sem olhar para ele. Começou a derramar o líquido sobre o trabalho cuidadoso de madeira que tinha feito.

— Ei, o que está fazendo?

— Me desculpe, professor, mas temos demônios para caçar. Isso aqui não é uma sala de aula.

Em seguida, ele retirou uma pederneira do bolso e produziu uma faísca sobre a pilha de madeira. Houve um pequeno estampido seco, e as chamas começaram imediatamente a queimar a madeira e a gasolina, junto com o rato morto.

— Vai demorar do mesmo jeito para começar a fazer efeito, talvez até um pouco mais.

— Precisamos ficar aqui esperando? — disse Nestor.

— Bem, não, mas seria prudente…

— Então já podemos sair?

— Se o fogo ficar fraco, pode ser que não seja tão eficaz…

— Como eu disse, a gente dá um jeito depois. Mas fique aqui, se quiser, e tome conta do fogo para nós, sim?

Olhando para os demais, Nestor começou a caminhar para fora da praça, no que foi seguido por todos, exceto por Diana. Ela se aproximou de Lionel e colocou a mão em seu ombro. Disse:

— Eu te avisei. Eles não ligam para as sutilezas da ciência.

— Disse bem.

— Mas eu quero entender melhor esse processo, depois. Para o transmorfo, suspeito que vamos precisar de toda a potência que conseguirmos produzir na fogueira. Você pode me mostrar amanhã como se faz?

Ela o encarava com a mesma admiração de antes. Sem poder evitar de apreciar seu esforço em agradá-lo, ele sorriu e assentiu com a cabeça. Disse:

— É melhor irmos atrás dos outros.

— Sim.

Deixe um comentário

— Cuidado. Tem algo ali.

— Onde?

— Atrás daquela árvore.

— Tem certeza, Nestor?

— Sim. Esperem aqui.

Agachando-se, o velho caçador se esgueirou com agilidade entre os arbustos até desaparecer, fazendo tanto barulho quanto um gato. Depois de alguns segundos ouviu-se um suspiro rápido, seguido pelo barulho de metal cortando carne. O gemido gorgolejante que se seguiu penetrou nos ouvidos de Lionel e despertou uma sensação antiga. Fazia muito tempo desde que tinha presenciado a carnificina de uma caçada.

Nestor voltou arrastando uma espécie de pássaro. O bico longo e serrilhado estava aberto, e as asas estavam encharcadas de sangue escuro. Parecia um corvo, exceto pelo fato de que tinha quatro garras ao invés de duas. Jogando-o em frente aos demais, disse:

— Já está morto. Este não precisamos queimar imediatamente. Coloquem o corpo num dos sacos e vamos prosseguir.

Lionel começou a entender melhor a hierarquia do grupo. Nestor era o líder, indubitavelmente. Além de ditar ordens aos demais, ele tomava a frente o tempo todo. Outros dois homens, que se chamavam Manoel e Santiago, agiam como seus subordinados diretos, distribuindo as ordens para suas respectivas divisões do grupo. Foi este último quem pegou o demônio morto do chão e o entregou a outro homem, que carregava uma grande mochila nas costas. Depois de colocarem o corpo dentro do saco, foram atrás de seu líder.

Ninguém conversava. Caminhavam em silêncio e trocavam olhares e gestos o tempo todo. A coordenação era impressionante de se ver. Apenas quando havia algo estranho é que alguém usava sua voz, mas era sempre em um tom baixo e direcionado. Este era um grupo acostumado a sair junto, e Lionel se sentia um pouco mal por isso. Talvez fosse melhor ficar na retaguarda, mergulhando o nariz nos escritos e nas teorias, como tinha sugerido Diana. Desde o acendimento da fogueira, sentia que estava mais atrapalhando do que ajudando.

A única que não parecia ter uma posição bem definida era Diana. Talvez por estar responsável por cuidar do forasteiro ela estivesse temporariamente deslocada de sua função habitual. E ela levava essa função à risca. Ficava constantemente olhando para Lionel, certificando-se de que ele estava bem e acompanhando o grupo de perto. Era irritante. Mas mesmo sem essa peculiaridade, ela parecia fora de lugar. Os homens também ajudavam a protegê-la, de certa forma. Ajudavam-na a subir algum pedaço mais íngreme de solo ou a transpor um obstáculo mais alto, pois ela parecia ter dificuldade em se locomover. Neste sentido, ela também estava mais atrapalhando do que ajudando, e Lionel imaginou se ela era de fato uma veterana nas caçadas, como tinha alegado. Resolveu arriscar a pergunta:

— Você vem sempre caçar com eles? — disse, sussurrando para ela.

— Sim.

— Há dez anos, é verdade, você me disse. E você consegue acompanhar o grupo?

Parecendo desconfiada, ela respondeu:

— Eu sou muito ágil.

— É claro que sim.

Ficaram mais um tempo em silêncio. Lionel insistiu:

— É que não me parece comum uma mulher participar de caçadas. Geralmente elas ficam em casa.

— Acha que eu não estou à altura dos outros caçadores?

— Não é isso. É que…

Neste momento, uma sombra escura caiu sobre a cabeça de Diana. Entrelaçando suas garras nos cabelos brancos dela, a criatura começou a guinchar e a fazer barulho. Assustado, Lionel deu alguns passos para trás, enquanto ela gritava e tentava soltar o demônio de sua cabeça.

— Tira! Alguém, tira, por favor!

Parecia com um morcego, mas não era possível ver direito, pois o bicho se mexia o tempo todo. Nestor se aproximou e acendeu uma tocha, iluminando o corpo da criatura. Seus olhos eram vermelhos e sua boca, cheia de dentes amarelados. Sua pele negra era coberta de escamas que cintilavam à luz do fogo. As garras nas pontas das asas estavam começando a arranhar a testa e bochechas de Diana, que ainda gritava:

— Ai, tira, pelo amor de Deus!

— Calma, não se mexa — disse Nestor.

Ele aproximou a chama até quase tocar na criatura, o que fez com que ela ficasse paralisada. Puxando uma das garras com a mão, ele conseguiu soltá-la dos cabelos dela. Lionel se aproximou e fez o mesmo com a outra garra, enquanto observava o rosto aterrorizado da moça. Em pouco tempo ela se viu livre, e se afastou rapidamente, passando as mãos nos cabelos para ter certeza de que não havia mais um demônio preso ali. Nestor e Lionel ficaram segurando a criatura, ainda entorpecida pelo fogo, com as asas abertas. Nestor disse:

— Forasteiro, estou com as duas mãos ocupadas.

Entendendo o recado, Lionel retirou sua faca do cinto e a enfiou no peito da criatura, que saiu momentaneamente de seu torpor e guinchou alto por alguns segundos, até ficar completamente imóvel. Nestor a puxou e a jogou para um dos homens com mochila. Este, por sua vez, colocou o bicho nas costas, junto com o outro.

Fazendo um sinal positivo com a cabeça para Lionel, Nestor se dirigiu ao local onde Diana estava sentada. Ela ainda parecia um pouco descontrolada, passando as mãos insistentemente nos cabelos. Ele ofereceu a mão e ajudou-a a se levantar. Disse:

— O que deu em você?

— Me desculpe, Nestor, eu me distraí…

— Quieta! Quer atrair mais monstros?

Ela abaixou a cabeça, sem dizer mais nada. Nestor apagou a tocha batendo com a outra mão e retomou seu lugar à frente do grupo. Ao passar perto dele, Lionel pôde ouvi-lo murmurando:

— Essa daí, sempre dando trabalho…

Diana veio logo atrás, ainda de cabeça baixa. Sentindo pena dela, ele esticou seu braço e apoiou a mão em seu ombro, como ela já tinha feito várias vezes com ele. Ela levantou o rosto e olhou para ele, parecendo ao mesmo tempo assustada e reconfortada pela interação com Lionel. Ele disse, bem baixinho, para que ninguém mais o ouvisse:

— A culpa foi minha, devia ter ficado quieto.

Ela esboçou um sorriso e negou com a cabeça, ao mesmo tempo que colocava sua mão sobre a dele. Depois levou o dedo aos lábios e retomou sua caminhada, chamando-o para fazer o mesmo com um movimento de cabeça.

A noite avançava.

Lionel tinha perdido todo o seu senso de direção. Depois de horas caminhando em zigue-zague pela floresta, ele não sabia mais onde estava, ou para que lado ficava a cidade. Mesmo quando a Lua cheia surgiu no céu, transformando o verde-escuro da floresta em um azul profundo, parecia tudo igual. Troncos e folhas, pedras e cascalho, moitas e espinhos. E demônios. Havia muitos deles.

Após cerca de três horas de caçada, o grupo tinha capturado uma dúzia de criaturas. A maioria eram seres pequenos, como os primeiros abatidos da noite. Um deles tinha o tamanho de um cachorro, e se parecia com um sapo de olhos enormes e que cuspia um veneno mortal. E o último que tinham caçado era tão grande quanto uma pessoa. Caminhava nas quatro patas, mas de vez em quando ficava em pé para atacar com suas garras. Era lento, mas forte, e foi difícil imobilizá-lo. Tentaram eliminá-lo ali mesmo, mas não conseguiram. Decidiram se separar. Oito caçadores levaram o monstro de volta à praça, para queimá-lo junto com as carcaças dos menores que estavam nos sacos. Os oito restantes, entre eles Lionel e Diana, estavam agora em uma clareira, descansando sentados ao redor de uma fogueira.

— Esse último deu trabalho, hein? — um dos caçadores disse.

— Pois é, você viu? Não consegui nem cortar a cabeça dele com o machado.

— A pele é muito dura. Vamos torcer para a fogueira funcionar.

Todos olharam para Lionel nesse momento. Ele disse:

— Vai funcionar. Era um Coboldo. Eles têm a pele grossa, mas é uma proteção física, não mágica.

Parecendo impressionados, os homens continuaram a conversar entre si. Lionel olhou para Diana. Ela esteve quieta a noite toda depois do incidente com o morcego, e continuava assim. Não participou de nenhum momento importante da caçada, preferindo ficar afastada. Até Lionel tinha ajudado a matar algumas criaturas, sendo certeiro com a pistola, mas ela não ajudou em nada.

Estava ocupada limpando seus ferimentos. As garras do morcego não tinham penetrado fundo, mas deixaram marcas. Sua pele era bastante clara, e o luar a deixava ainda mais pálida, de modo que os riscos vermelhos eram bastante visíveis, principalmente dois maiores, um na testa e um na bochecha. Lionel levantou e se sentou ao lado dela. Ela passava um pequeno pano branco embebido em algum líquido na face, mas não parecia acertar exatamente a localização dos ferimentos.

— Quer ajuda? — ele perguntou.

Ela se virou para ele e entregou o pequeno pedaço de pano, dizendo:

— Sim, obrigada.

Ele pegou o tecido e começou a limpar sua pele gentilmente. Ela o olhava profundamente, diretamente em seus olhos. Parecia querer dizer algo.

— Está doendo? — ele perguntou.

— Deve estar me achando uma idiota.

— Por quê?

Ela levantou os ombros e abaixou os olhos, ao responder:

— Disse que mulheres não deveriam participar de caçadas, e eu estou provando que você tem razão.

— Não foi isso que eu disse, eu…

De repente, algo caiu na cabeça dela, fazendo-a se levantar e começar a gritar desesperadamente. Imediatamente, os homens caíram na risada. Atrás dela, Ignácio se curvava enquanto dava gargalhadas:

— Cuidado, Diana! Tem um morcego no seu cabelo!

Lionel olhou para o chão e viu uma enorme folha caída, que tinha sido usada pelo garoto para pregar a peça.

— Droga, Ignácio! — ela disse, parecendo muito irritada — Não tem graça! Vê se cresce!

— Urururururururu! — ele respondeu em uma voz fina e batendo os braços, imitando um demônio imaginário, enquanto voltava a se sentar do outro lado da fogueira, ainda rindo.

Ela voltou ao seu lugar e pegou rispidamente o tecido da mão de Lionel, retomando o trabalho de limpeza sozinha. Ela disse, mais para si mesma do que para Lionel:

— Idiotas.

Pensando se deveria continuar conversando ou não, Lionel a admirou por alguns instantes. Estava muito chateada e pouco a fim de conversar. Mas foi ela mesma quem quebrou o silêncio:

— Às vezes eu penso se eu não deveria…

— Eu disse que não é comum ter mulheres em caçadas — Lionel interrompeu.

— O quê?

— Isso faz de você incomum, e não incapaz.

— Ora, eu não disse que era incapaz, eu apenas me distraí, só isso.

— Fui eu quem a distraiu, me desculpe.

— Não, eu… — ela parou de se limpar e colocou a mão nos olhos, apertando-os com o indicador e polegar. Depois virou o corpo para ele. Ficou olhando para suas próprias mãos por alguns instantes. Depois levantou os olhos, encarando-o de frente, e disse:

— Na verdade eu ando bem distraída nas últimas horas. Desde que você chegou.

Lionel ficou sem saber o que responder, imaginando onde ela queria chegar. Ela continuou:

— Detesto admitir, mas eu posso estar tentando parecer alguém que não sou. Eu sempre admirei sua ciência, seu conhecimento, seus escritos… e além de tudo era um caçador também. Eu pensei…

— Que poderia fazer de conta que era uma caçadora também, para me impressionar?

Ela prendeu a respiração e arregalou os olhos. Ele continuou:

— E que poderia comprar uma roupa nova? Calças justas e uma camisa apertada, para parecer mais atraente, talvez? Não dão muita mobilidade, não é? Difícil imaginar uma caçadora de verdade usando roupas assim. Acho que é por isso que você não queria vir na caçada esta noite, não é?

Ele esticou a mão até as costas dela e puxou a ponta da etiqueta que estava presa no colarinho, indicando que tinha reparado que a roupa era nova.

— E preparou meu jantar favorito? Comprou queijo Roquefort… que eu odeio, aliás.

Ela deu um sorriso sem graça, inclinando a cabeça um pouco para o lado e abaixando os ombros. Disse:

— Bem… a fonte parecia confiável. Você mentiu naquela entrevista.

— Nada disso funcionou, sabia?

— Não? — Ela parecia decepcionada.

— Já suas anotações em meu artigo… Está na cara que você é uma estudiosa, uma acadêmica, e não uma caçadora. Seus conhecimentos e sua dedicação aos estudos… seu corolário… tudo isso me atraiu muito.

Ela ficou séria. Seus olhos saltavam de um olho para o outro dele, e de vez em quando desciam até sua boca. A dela estava entreaberta, e sua respiração ficou mais pesada.

— Diaaanaaaa, me ajuuuudeeeee! — Uma voz lamuriosa soou atrás deles.

— Droga, Ignácio, seu moleque! Cale a boca de uma vez! — ela disse.

— Diaaaan…

— Diana! — Era Nestor agora, em uma voz assustadoramente grave.

Lionel se virou de costas. Assim que viu o que estava acontecendo, levantou-se em um pulo. Diana fez o mesmo.

Um longo tentáculo tinha envolvido o pescoço de Ignácio. Ele estava em pé, e parecia um zumbi, com os braços para frente, caminhando lentamente. Nestor se aproximou, levantando sua faca para cortar o tentáculo, mas teve seu próprio pescoço também envolvido por outro membro do monstro. Deixando cair sua faca, em poucos segundos ele assumiu a mesma pose que o garoto. Levantou os braços e passou a caminhar em direção ao casal.

A criatura surgiu da escuridão logo em seguida. Parecia um enorme polvo feito de gelatina apodrecida. Estava coberta de galhos, musgo, folhas e mofo, e emitia um brilho amarelo nauseante. Os caçadores formaram um semicírculo ao redor do demônio. Apontaram suas armas e dispararam, mas as balas não surtiam efeito.

— Precisamos cortar os tentáculos! — gritou Lionel.

— É para já! — gritou Santiago, avançando em direção a Nestor.

— Não, cuidado! Ele tem quatro tentácul…

Não deu tempo de avisar. O caçador foi surpreendido por um terceiro tentáculo que surgiu em meio aos outros dois. Derrubou sua faca como se fosse um chicote e em seguida envolveu seu tornozelo, puxando-o para longe da fogueira com violência. Em poucos segundos Santiago se juntava aos outros dois zumbis, emitindo um lamento e caminhando vagarosamente.

— Cuidado agora… — disse Lionel — Precisamos…

Diana já tinha começado a se mexer. Correndo em direção à fogueira, ela chutou a brasa em direção ao monstro. Ele emitiu um chiado estranho e os zumbis pararam de andar imediatamente. Pegando um pedaço de lenha, ela correu para um lado da fogueira e disse:

— Corram para lá, rápido! — Apontou para o lado oposto de onde estava. — Preparem-se para cortar os tentáculos na hora certa!

Os caçadores pareceram entender o plano imediatamente e ficaram aguardando. Mas um deles estava paralisado pelo medo. Havia três tentáculos a serem cortados, e somente dois caçadores a postos, além de Diana. Lionel se mexeu. Posicionando-se a poucos passos do zumbi Nestor, levantou sua faca e ficou aguardando pelo movimento dela.

Diana balançou a tocha improvisada à sua frente, o que atraiu o quarto e último tentáculo do monstro em sua direção. Apesar de não haver mais perigo imediato, Lionel julgou que ainda não era hora de atacar os tentáculos nos pescoços dos homens, pois o monstro que os comandava fazia seus braços se agitarem violentamente à sua frente. Se tentassem algum movimento com a faca, poderiam ferir seus companheiros.

Diana continuou balançando a tocha por mais alguns instantes, e depois jogou-a no chão à sua frente. Tirou sua faca da cintura e começou a balançar o corpo de um lado para o outro. A criatura ergueu seu tentáculo como se fosse uma cobra prestes a dar o bote. A ponta chicoteava de um lado para o outro, em movimentos imprevisíveis. A qualquer momento lançaria-se à frente e surpreenderia a moça. Lionel e os demais prenderam a respiração.

Aconteceu em poucos instantes. Diana se jogou no chão e rolou no exato momento que o tentáculo desceu em um movimento brusco. Desviando-se por um triz, ela levantou a perna e pisou no tentáculo firmemente com a bota. Olhando para os demais, fez um sinal com a cabeça. Eles se prepararam, levantando suas facas. Assim que percebeu que estavam prontos, ela enfiou sua faca no tentáculo e começou a fazer movimentos circulares. Ao mesmo tempo que um líquido vermelho escuro espirrava por todo lado, a criatura emitiu um guincho alto. Era uma mistura de grito e bolhas sendo estouradas embaixo d’água. Nesse momento os zumbis pararam seus movimentos e os caçadores atacaram com suas facas.

Sabendo o que aconteceria a seguir, Lionel fechou os olhos no momento em que fazia um movimento cortante perto do pescoço de Nestor. Sangue. Sangue humano. Mais precisamente, sangue dos humanos que estava sendo sugado aos poucos pela criatura. Assim que os tentáculos foram cortados, a criatura os recolheu rapidamente para baixo da massa disforme que constituía seu corpo. Os homens caíram desfalecidos, com o sangue escorrendo pelos pescoços.

— Lionel! — Diana gritou. — Na minha bolsa, ali, façam os primeiros socorros! Preciso matá-lo, ou ele voltará! — Após dizer isso, ela saiu correndo em disparada atrás do monstro.

Imediatamente ele foi até o local apontado por ela e abriu a bolsa. Encontrou gaze e medicamentos necessários para estancar o sangue e desinfectar as feridas. Distribuindo um pouco para cada homem ao seu redor, ele voltou até o local onde Nestor estava deitado. Pressionou a gaze contra os buracos profundos com uma mão enquanto derramava um líquido gelado com a outra, o que fazia surgirem bolhas brancas no local. Colocando os dedos sobre sua jugular, Lionel aliviou-se quando sentiu a artéria pulsando. O sangue parou de escorrer e ele terminou de fechar o ferimento com esparadrapo. Olhou para seus companheiros e viu que eles tinham sido igualmente bem sucedidos, até mesmo com Ignácio, que havia sofrido por mais tempo.

Nesse momento, Nestor abriu os olhos e disse, respirando com dificuldade:

— Obrigado, forasteiro.

— De nada, camponês.

— Me desculpe… obrigado, professor. — E sorriu ironicamente.

— Por que não tenta… caçador?

— Não force a barra. Ajude-me a levantar.

— Fique deitado um pouco.

— Bobagem, me ajude logo, ande.

Fazendo força com os braços, o homem se sentou. Olhou para os lados e acenou para seus companheiros que também estavam despertando de seu pesadelo forçado. Em seguida apoiou-se em Lionel e ficou em pé, cambaleante. Deu um sorriso amigável que até então Lionel não tinha visto em seu rosto.

Nesse momento, ouviram um grunhido. Era Diana, que gemia enquanto arrastava o pesado corpo gosmento puxando um dos tentáculos cortados.

— Aaargh! Ufa, me ajudem aqui.

Lionel se juntou aos demais para ajudar a puxar o pesado demônio para o centro da clareira. Nestor disse:

— O que faremos com ele? Não conseguimos levá-lo inteiro até a cidade. É muito grande.

— Podemos cortá-lo em pedaços? — perguntou Santiago.

— Não! — gritou Lionel. — Ele vai se multiplicar, cada pedaço pode gerar uma criatura nova. Precisamos queimá-lo aqui.

— Vamos fazer fogo-fátuo, então — disse Diana — Vou tentar caçar um pequeno roedor.

— Mas não temos gasolina. — disse Ignácio.

Sorrindo para Lionel, Nestor disse:

— Não tem problema, peguem galhos e folhas secas. Certo, professor?

Lionel assentiu com a cabeça. Nesse momento, Diana passou ao seu lado. Segurando-a firmemente pelo braço, Lionel disse:

— Eles chamaram por você.

— O quê? — Seu rosto estava banhado em sangue. O branco dos cabelos iluminados pela Lua cheia produzia um contraste surreal com o vermelho de sua face.

— Na hora do perigo, os homens chamaram por você, até mesmo Nestor. Achei que tinha dito que estava apenas fingindo ser caçadora.

Olhando para a mão que a segurava, ela sorriu, mostrando os dentes brancos que brilharam em meio ao sangue escuro. Respondeu:

— Eu nunca disse isso. Eu disse que, graças ao seu artigo, tinha me tornado a melhor caçadora da região, não se lembra?

Ela sorria desafiadoramente para ele. Ele a soltou e acompanhou com os olhos enquanto ela desaparecia na mata. Nesse momento, Nestor surgiu ao seu lado e disse:

— E ela não está brincando. É de longe a melhor caçadora que já vi.

— Mas… ainda há pouco… você reclamou…

Virando-se para ele e colocando a mão em seu ombro, Nestor sorriu amigavelmente e disse:

— Só porque está caidinha por você não quer dizer que ela esqueceu como fazer seu trabalho.

Deu uma piscadela e um tapa forte no braço de Lionel antes de se virar de costas e continuar a pegar lenha para a fogueira.

Nenhuma publicação

Read the original on daniellucredio.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.