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Daniel Lucrédio · Jun 3, 2026

A arte do caçador - parte 1

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Daniel Lucrédio · Daniel Lucrédio

São Miguel do Vale, 26 de maio de 1861

— Vá embora! — O grito se fez ouvir por trás da grossa folha de madeira.

Olhou para a porta fechada por alguns instantes. Uma tênue luz amarelada escapava por baixo. Devia ser uma lamparina, ou uma lareira aquecida, o que seria ainda melhor. Apertou o casaco de couro junto ao corpo e puxou a lapela para cima, tentando proteger o pescoço e as orelhas. A chuva era fraca e não chegava a molhar sua pele, pois o casaco era grosso e o chapéu cobria toda sua cabeça. Mas o vento castigava. Cada pequena fresta por onde entrava rapidamente produzia arrepios que traziam e irradiavam o frio até os ossos.

Batendo mais duas vezes na madeira, disse:

— Está frio aqui fora, não pode ao menos permitir que eu me aqueça um pouco junto ao fogo? — Sua voz soou lamuriosa, irritantemente aguda.

— Tem uma fogueira na praça! Por que não se joga lá?

— Ora, vá para o inferno, então! Eu já disse que vim aqui para ajudar. Bando de ingratos! — Deu um chute na madeira. — Eu devia era ir embora daqui.

— Já devia ter ido!

Deu mais um chute antes de se virar de costas e descer os dois degraus que levavam à rua. Acabou usando mais força do que deveria, o que deixou seu pé dolorido, tornando ainda mais difícil a tarefa de não escorregar nos paralelepípedos molhados que cobriam a rua pequena e íngreme por onde caminhava.

Já tinha perdido a conta de quantas portas fechadas teve que encarar desde que chegou ali, duas horas atrás. A carruagem quebrou no meio do caminho, então precisou fazer o restante da viagem a pé, debaixo de chuva e em cima de muita lama. Devido ao atraso, chegou muito mais tarde do que queria. Em parte, era isso o que fazia as pessoas serem tão hostis com ele. Nessa época do ano quase ninguém saía de casa depois que anoitecia, então era esperado que encontrasse alguma dificuldade. Mas dessa vez havia algo a mais. A carta que tinha recebido falava de rumores mais assustadores do que de costume, e a já enfraquecida hospitalidade noturna dava lugar ao medo exacerbado.

Desanimado, resolveu escutar o conselho mal-educado que tinha acabado de ouvir. Não se jogaria na fogueira, é claro, mas pelo menos poderia tentar se aquecer um pouco e combater o castigo do vento. O difícil seria suportar o mau cheiro. Mas não tinha mais opções. Já tinha percorrido quase todas as casas que encontrou, e as que faltavam estavam tão cheias de correntes e cadeados quanto as outras. Seria perda de tempo.

Sentiu o odor assim que avistou as labaredas subindo aos céus. Eram tão altas e brilhantes que pareciam iluminar as nuvens que cobriam o pequeno vilarejo. As fracas luzes das lamparinas a óleo no entorno da pequena praça sequer eram visíveis perto da luz produzida pela enorme fogueira. O fogo não era natural, pois tinha sido aceso com magia, e estava consumindo restos de criaturas fantásticas que habitavam as profundezas da terra. Era por isso que ardia tão forte e por um tempo tão longo. E era isso que produzia o cheiro insuportável que lhe enchia as narinas. Mas pelo menos era quente.

Caminhou entre as cercas de ferro retorcidas e os bancos de pedra quebrados e chegou o mais perto do fogo que conseguia aguentar. Cobriu o nariz e a boca com um lenço e permaneceu em pé, apreciando o calor e admirando, hipnotizado, os tons de amarelo e vermelho que crepitavam à sua frente. Ainda era possível ver os restos de algumas das criaturas. Havia uma cabeça vermelha, com um nariz bovino alongado e com um chifre quebrado. As órbitas estavam vazias. Um longo bico de corvo de quase um metro de comprimento pendia de um amontoado de penas queimadas. E metade de um corpo nu, já quase todo carbonizado, lembrava a silhueta de uma mulher, exceto pela mandíbula larga e pelos quatro caninos enormes que saíam da boca.

Já havia visto muitas dessas criaturas antes, é claro. Afinal era um caçador, e seu trabalho era matá-las para proteger as pessoas. Mas vê-las assim, sem vida, sempre lhe trazia um profundo mal-estar. Uma náusea inexplicável e um sentimento de repulsa preenchiam todo o seu corpo, e não era apenas por causa do cheiro. Tinha mais a ver com o fato de que estavam sendo roubadas de sua existência de forma sistemática. As caçadas eram uma questão de sobrevivência, é claro. Ou nós ou eles, como lhe diziam sempre. Mas não caía bem no estômago, mesmo assim.

Enquanto pensava sobre o que faria a seguir, ouviu vozes. Vinham do norte, da direção da floresta.

“Caçadores!” — pensou.

Não demorou até que os primeiros aparecessem. A princípio, não perceberam que havia alguém ali. Riam e conversavam animadamente enquanto se aproximavam da fogueira. Eles não pareciam se incomodar com o cheiro, pois não estavam protegendo seus narizes ou fazendo caras feias. Mas assim que um deles o avistou, o clima mudou.

— Cuidado! Ali, ao lado da fogueira!

Imediatamente, os homens correram até ele e fizeram um semicírculo, apontando suas armas. A maioria estava empunhando uma pistola, mas havia alguns bacamartes de bocas largas.

Ergueu uma das mãos, pois não queria tirar o lenço do nariz.

— Atire! Vamos! — Era uma voz jovem. “Jovem demais” — pensou.

— Não, calma! — Ele ergueu a outra mão, levando o lenço para cima e deixando o nariz livre para inalar o odor fétido. — Eu sou um caçador também, não atirem!

— Fique com as duas mãos para cima!

— Está bem. Me desculpem, é só que… o mau cheiro…

— Vamos matá-lo!

— Calma, Ignácio! — disse uma voz mais calma. — Ninguém atira… ainda.

Olhou para os rostos assustados à sua frente. Havia cerca de quinze homens, todos usando casacos pretos ou marrons e chapéus pontudos cobrindo as cabeças. A maioria aparentava ter cinquenta ou sessenta anos, a julgar pelas rugas e fios grisalhos em suas barbas e bigodes. Mas havia alguns jovens entre eles. O jovem chamado Ignácio parecia ser o mais assustado de todos.

— Qual é o seu nome, forasteiro? — perguntou um homem, que parecia estar mais calmo do que os demais. Um de seus olhos não tinha íris ou pupila. Era uma esfera branca de vidro que refletia as chamas da fogueira. Seu outro olho, que tinha um tom verde-escuro, o desafiava a responder a pergunta.

— Meu nome é Lionel. Eu recebi essa carta…

Começou a abaixar uma das mãos em direção ao bolso interno do casaco, mas foi interrompido pelo estampido da bala que passou zunindo perto de seu ouvido.

— Não se mexa! — gritou o homem, e sua voz não dava margem para questionamentos.

Tremendo, Lionel levou a mão de volta ao lugar onde estava. Nesse momento, ele ouviu um grunhido. Uma criatura se mexia atrás dos homens. Era um humanóide, pequeno e franzino, com orelhas grandes e nariz comprido. Sua pele verde estava coberta por sangue escuro e pegajoso, e suas mãos e pés estavam amarrados firmemente à sua frente. Apesar da aparência frágil, sabia que era um demônio sorrateiro e traiçoeiro, que rasgaria o pescoço de qualquer pessoa que passasse por perto, fincando seus dentes afiados e garras pontudas sem demonstrar piedade.

— Perdoe minha desconfiança, forasteiro — ele continuou, enquanto recarregava a pistola. — Que tipo de caçador não consegue aguentar o cheiro da sua caça ardendo no fogo? Até onde sabemos você pode ser um dos muitos bandidos que aproveitam as noites de caçada para assaltar os moradores que ficam escondidos em suas casas.

Olhou para os homens enquanto pensava no que responder. Alguns estavam tremendo. Um deles apoiava o dedo no gatilho de seu bacamarte com tanta força que era um milagre a arma não ter disparado acidentalmente.

Lionel abaixou a cabeça e deu um sorriso irônico. O homem à sua frente perguntou:

— Qual é a graça?

— É que eu estava me perguntando mais ou menos a mesma coisa. Como vocês conseguem ficar perto desse cheiro sem se incomodar?

— Depois de anos lidando com essas criaturas a gente se acostuma. Qualquer caçador de verdade saberia disso.

— Eu nunca me acostumei, isso faz de mim um monstro?

— Talvez.

— Ou talvez os monstros sejam vocês.

— Como ousa, forasteiro? Quer se juntar aos demônios na fogueira?

— O pior monstro é aquele que não acha que é um monstro.

As armas já apontadas para ele se aprumaram ainda mais, mirando sua testa com maior precisão. O demônio atrás deles continuava gemendo e grunhindo. O homem disse:

— Cuidado, forasteiro, suas próximas palavras podem ser as últimas a sair de sua boca desdenhosa.

Suspirando, Lionel disse, quase cuspindo as palavras:

— Eu fui convidado a vir para cá, para ajudá-los na caçada, mas desde que cheguei nesta maldita vila só encontrei hostilidade e xingamentos. Se me deixassem pegar a maldita carta, veriam que não estou mentindo.

— Mexa essa mão novamente e eu a arranco de você com uma bala.

— Atirem logo nele! — Era Ignácio, dessa vez com uma voz que mais parecia um choro.

— Silêncio, garoto! — disse o homem, antes de se dirigir a Lionel. — Quem o convidou?

— Foi uma tal de Diana — ele respondeu. — Querem ou não ver a carta?

Parecia impossível, mas a expressão assustada dos homens ficou ainda pior após a menção àquele nome. Alguns abriram suas bocas, e outros abaixaram suas armas um pouco, parecendo desconcertados com algo que Lionel era incapaz de apontar. O homem à frente retomou a palavra, com a voz visivelmente trêmula:

— Você disse… Diana?

— Sim, fui eu.

Todos viraram suas cabeças para encarar a dona da voz. A recém-chegada se aproximou vagarosamente e apoiou a mão no braço do homem que estava discutindo com Lionel. Ela disse:

— Calma, Nestor, abaixe a arma.

O homem a olhou sem dizer nada, mas seu único olho parecia tentar perfurar o crânio da mulher. Ela sustentou o olhar por alguns segundos, e depois disse:

— Atirar nele agora só vai piorar as coisas.

— Está certa disso, Diana? Como sabe que podemos confiar nele?

Ela apertou ainda mais seu braço e abaixou um pouco a cabeça, ainda mantendo o contato visual. Ela disse:

— Não precisam confiar nele… Podem apenas confiar em mim.

Resignado, Nestor olhou para Lionel uma última vez antes de abaixar a pistola. Os outros repetiram o gesto, vagarosamente, e ele pôde finalmente respirar aliviado.

— Posso abaixar as mãos então? Está tudo esclarecido?

— Sim, mas não tente nada engraçado, forasteiro — esbravejou Nestor.

— Obrigado — disse, enquanto recolocava o lenço sobre o nariz.

Depois de mais alguns segundos de silêncio, Nestor disse, dirigindo-se aos outros:

— Venham, vamos queimar logo esse aqui!

Dois homens se voltaram para a pequena criatura que ainda emitia grunhidos e a pegaram pelos bracinhos. Outros quatro guardaram suas armas no bolso e pegaram longos bastões e forcados que estavam jogados no chão. Enquanto os dois primeiros arrastavam o ser até a fogueira, tomando cuidado para não serem mordidos pelas perigosas mandíbulas, os demais se posicionaram ao seu lado, formando uma espécie de corredor.

Os grandes olhos vermelhos da criatura não exibiram qualquer expressão enquanto era arremessada para o fogo. Rapidamente a sua pele se incandesceu, transformando-se do verde-escuro para uma luz violeta intensa. Em sua agonia, o demônio abria a boca mas não emitia som algum, o que de certa forma era ainda mais aterrorizante, surreal. Parecia uma sombra etérea sendo apagada da realidade, deixando dúvidas de que tinha de fato existido. Assim que as cordas se queimaram, a criatura se viu livre e imediatamente ameaçou pular para fora do fogo, mas os homens a impediram, cutucando-a com os bastões e forcados. Ficaram nessa luta por alguns instantes, até que a luz violeta se extinguiu, deixando para trás o que agora parecia ser um amontoado de carvão em brasa.

O cheiro ficou ainda mais insuportável do que antes. Lionel apertou o lenço contra seu nariz, tornando muito difícil sua respiração. Nesse momento, Diana se aproximou. Seu rosto era jovem e bonito. Seus olhos eram grandes e arredondados, bem desenhados no rosto, e tinham um leve tom violeta. Mas o mais estranho era a cor de seus longos cabelos lisos. Por baixo do chapéu pontudo, Lionel reparou que eram praticamente brancos, tais como a neve. Por um instante, reparou que sua boca estava retorcida em repulsa. Mas ela logo cobriu o rosto, do nariz ao queixo, com um cachecol branco que estava enrolado em seu pescoço.

— Cá entre nós… — ela disse. — Eu não suporto esse cheiro.

Mesmo com o rosto quase todo coberto, ele percebeu em seus olhos que ela sorria para ele. Ele retribuiu o sorriso, sem dizer nada. Ela continuou:

— Dizem que um bom caçador se acostuma com o cheiro depois de algum tempo, mas eu nunca me acostumei, e essa já é a minha décima temporada.

Lionel teve uma sensação estranha. Teria ela ouvido a sua conversa com Nestor antes de se anunciar ao grupo?

— Sim, já ouvi isso antes — ele disse, desconfiado.

— Deixe que eu me apresente, meu nome é Diana, muito obrigada por aceitar meu convite. — Ela estendeu a mão.

Apertando-a, ele disse:

— Muito prazer, eu sou Lionel.

— Oh, eu sei quem você é. — Ela sorriu novamente com os olhos. — Todos o conhecem, na verdade. Por favor, não se deixe impressionar pela falta de hospitalidade. É noite de caçada e estão todos tensos. Mas acredite, apesar de não parecer, estamos muito gratos por você ter vindo.

Lionel sorriu também, satisfeito com o reconhecimento. Ele disse:

— Bom, eu espero sinceramente poder ajudá-los.

— Tenho certeza que vai.

Um silêncio momentâneo se fez, enquanto se olhavam. Lionel tentava decifrar a expressão da moça, mas era difícil, pois estava escuro e seu rosto estava todo coberto. Apenas os olhos violeta davam a impressão de uma admiração profunda ou outro sentimento que ele não soube identificar.

— Ei, Diana! Você vem com a gente? — Uma voz soou atrás dela.

— Não, vão sem mim. Eu preciso cuidar do nosso convidado.

— Ei, eu vim para ajudar — disse Lionel. — Estão indo para a caçada?

— É claro que sim — disse Nestor, emburrado. — A noite está apenas começando.

— Contem comigo, então.

Os homens se entreolharam com uma expressão preocupada.

— Nada disso — interrompeu Diana. — Você deve estar cansado da viagem, e precisa descansar. Já jantou? — ela perguntou, dirigindo-se a Lionel.

— Bem, na verdade não. A carruagem quebrou e não tive tempo de encontrar uma estalagem…

— Nada de estalagem, você vai ficar comigo, na minha casa.

— Diana… — reclamou Nestor.

— Nestor! — Ela parecia irritada agora. — Ele veio aqui por sua própria vontade, decidido a nos ajudar, já esqueceu? Já está na hora de sermos um pouco mais amigáveis com Lionel.

— Não precisa, de verdade, eu… — disse Lionel.

— Deixe isso comigo. — Ela pousou a mão suavemente em seu braço ao dizer isso, calando-o imediatamente.

Ela olhou para os homens ao mesmo tempo em que colocava as duas mãos nos quadris. Eles se entreolharam mais uma vez. Nestor parecia preocupado ao dizer:

— Vamos, homens! Para a floresta!

Lentamente eles se viraram e desapareceram entre os troncos ressecados das árvores da praça. O jovem Ignácio deu uma última olhada para Lionel antes que um colega o puxasse pelo braço e ele também fosse embora.

Esfregando as mãos, ela se virou e disse:

— Está esfriando, melhor irmos. Tem alguma bagagem?

— Sim, mas ficou na carruagem, disseram que iriam trazer mais tarde.

— Não tem problema, eu dou um jeito. Venha, minha casa não é longe daqui.

Começaram a caminhar lado a lado, devagar e em um silêncio desconfortável. Diana o olhava a todo momento, e ele começou a ficar incomodado. Depois de alguns minutos, ele começou a falar, para quebrar o gelo:

— Er… eu…

— Oh, me desculpe. Estou encarando você, né? É que… eu realmente não acredito que você está aqui.

— Hã? Bem, eu…

— Ninguém acreditava que você viria, sabia? Mas você veio, aceitou o meu convite.

— É, eu sempre tento ajudar quando posso. Além do mais, fazia tempo que eu não participava de uma caçada, estou meio enferrujado, acho que estava sentindo falta de um pouco de ação. Eu nem sei se vou poder contribuir.

— Está brincando? Alguém como você, enferrujado?

Lionel sorriu, encabulado. Fazia tempo que não recebia elogios dessa natureza.

— Me desculpe, deixei você sem graça de novo. Devo estar parecendo uma tola, toda excitada por causa de um forasteiro. — Nesse momento, ela baixou o cachecol, revelando novamente seu belo rosto jovial.

— Imagine, eu fico muito feliz e grato com o reconhecimento. Mas já adianto que não é merecido. A fama é sempre maior do que o sujeito, isso eu posso garantir.

Ela sorriu novamente, e dessa vez ele pode ver sua boca se esticando no rosto. Ela disse:

— Deixe de ser modesto, professor.

— Professor? Está aí um título que há muito tempo não ouço.

— E quais títulos você ouve?

— Ultimamente, nenhum, para falar a verdade. O ostracismo tem esse efeito nas pessoas. Mas quando eu estava na ativa, era “caçador” mesmo. Eu gostava.

— Sei. E tem esperança de ser chamado assim novamente?

Ele ficou sério ao responder:

— Se acha que eu estou aqui somente para recuperar minha fama, está enganada. Eu fiz um juramento, e meu desejo de ajudar é genuíno.

— Não, não, me perdoe, não foi isso que eu quis dizer. — Ela pareceu chateada. — Eu me referia ao termo “professor”.

Duvidando um pouco da sinceridade da moça, ele respondeu:

— Bom, não sei dizer. Eu nunca me considerei um professor.

— Sua opinião não importa, se o chamam assim é porque ensinou muita coisa.

— Suponho que tenha razão… por que me chamou assim, então? O que aprendeu comigo?

Ela sorriu mas não respondeu. Parou de caminhar e virou-se de costas. Foi até a porta da casa mais próxima e começou a destrancar uma série de fechaduras e cadeados, produzindo um tilintar metálico que ecoava no silêncio da noite. Ao terminar, encarou-o e disse:

— Pode entrar, é aqui.

Lionel entrou na casa acompanhado pelo olhar da moça. Estava escuro. Apenas a fraca luz das lamparinas da rua iluminavam a região próxima à porta. Diana foi até uma mesa que havia ao lado da entrada e acendeu um lampião, antes de fechar a porta.

— Quer acender o fogo? — ela perguntou, apontando com a cabeça em direção à lareira de pedra que ficava do outro lado da sala.

Ele assentiu com a cabeça e foi até a lareira. Enquanto empilhava alguns pedaços de madeira dentro do cubículo cheio de fuligem, ela desapareceu por uma porta. Uma luz se acendeu no quarto onde ela estava, e sua voz chegou até ele:

— Devo ter algumas roupas aqui para você usar enquanto sua bagagem não chega. Tem alguma preferência?

— Qualquer coisa que esteja seca, por favor. Estou com as pernas todas enlameadas e os pés encharcados.

— Se é assim, então tenho alguns vestidos que ficariam ótimos em você.

Ele sorriu enquanto terminava de atiçar as chamas recém acendidas. Ela tinha senso de humor. Ele respondeu:

— Se não tem outra opção, eu aceito de bom grado.

— De um cavalo dado não se olham os dentes? — Ela surgiu às suas costas.

— Mais ou menos isso.

Ela sorriu enquanto se aproximava dele.

— Fique à vontade, Lionel, aquele quarto ali é o seu. Eu já acendi a chama para a banheira, imagino que queira se banhar antes do jantar. E eu deixei três vestidos em cima da cama, pode escolher o que achar mais bonito.

— Muito obrigado. Tenho certeza que vou gostar.

— Eu é que tenho que agradecer, professor.

— E surge o título de novo. Ainda não respondeu à minha pergunta. O que aprendeu comigo?

— Eu te conto durante o jantar.

— Falando nisso, precisa de ajuda?

— Não.

— Certo, e teremos companhia para o jantar?

— Não.

Diana tinha um sorriso enigmático. Ela desapareceu em um outro cômodo, deixando-o sozinho na sala.

Ele foi até o seu quarto e fechou a porta. Como prometido, uma chama aquecia a água em uma banheira. E sobre a cama havia um par de calças marrons, camisas e meias brancas, que pareciam ter seu tamanho exato. Na verdade se pareciam muito com o tipo de roupa que ele costumava usar. Diana parecia conhecê-lo muito bem, bem até demais.

Após se banhar e se trocar, Lionel retornou até a sala, onde encontrou sua anfitriã sentada em um sofá em frente à lareira. Ela também tinha trocado de roupa, ou ao menos tinha tirado o casaco e o chapéu. Usava calças pretas justas, e uma camisa branca apertada, que estava desabotoada até a metade, deixando uma grande porção da pele de seu colo à mostra. Seus cabelos brancos estavam soltos, e caíam livres pelo rosto e sobre os ombros, contornando os belos olhos violetas que brilhavam com a luz da lareira. Em suas mãos, segurava duas taças de vidro. Ofereceu uma ao seu hóspede, dizendo:

— Vinho?

— Sim, obrigado — ele disse, enquanto se sentava e pegava seu cálice da mão dela.

— Sinto informar que não tive tempo de preparar um jantar completo. É só isso o que temos. — Ela apontou para uma pequena mesa à sua frente, onde estavam dispostas diferentes variedades de pães, queijos e frios.

Bebendo de sua taça, Lionel sentiu-se agraciado. O vinho tinha um corpo médio, com um aroma delicioso, misturando notas de frutas vermelhas, café, cacau e tâmaras. No paladar, taninos elegantes e macios complementavam a sensação que já era familiar. Era um de seus vinhos preferidos.

— Impressionante — ele disse — Setúbal?

— Sim.

— E presunto cru? Queijo Roquefort? Parece que você acertou na mosca em meus gostos — ele disse, servindo-se de uma fatia do presunto.

— Fico feliz que tenha gostado, eu…

— Vamos parar com a conversa mole?

— Perdão? — ela pareceu desconcertada.

— Como você sabe tudo isso sobre mim? Meu vinho preferido, meu jantar preferido, até o tamanho da minha roupa você parece saber perfeitamente. — Ele puxou o tecido das calças para mostrar que o caimento era de fato preciso.

— Bem, eu… — ela ruborizou — as calças eram do meu pai, ele tinha a mesma estatura que você…

— Na verdade, pode começar explicando por que me chamou aqui.

Lionel terminou de mastigar sua fatia de presunto e se serviu de um pedaço de pão enquanto se encostava no sofá, aguardando que sua companhia falasse.

Ela ficou olhando para as próprias mãos por alguns instantes. Depois disse, levantando-se de repente:

— Espere um pouco.

Ela foi até um outro cômodo e retornou depois de alguns minutos, trazendo alguns papéis. Na frente deles havia uma conhecida revista. Já sabendo do que se tratava, ele sorriu e disse:

— Ah, sim, página trinta e sete, eu me lembro dessa entrevista.

— Me desculpe. — Ela voltou a se sentar, parecendo muito envergonhada — Eu só tentei agradá-lo.

— Eu menti.

— Hã?

— Nessa entrevista, eu menti. Disse que gostava de queijo Roquefort, mas era só para parecer mais refinado para o público. Na verdade eu detesto queijo.

Ela colocou a mão nos olhos e disse:

— Deve estar me achando uma idiota. Oh, Deus, eu SOU uma idiota! Pareço uma adolescente ingênua encontrando seu escritor de romances favorito.

Ele continuou encarando-a. Ainda não tinha respondido à sua pergunta. Ela continuou:

— Bem, a verdade é que eu o admiro, sim. E confesso que posso ter ficado um pouco excitada quando você respondeu ao meu convite dizendo que vinha. Só quis preparar um jantar que o agradasse.

— E por que me convidou?

Suspirando, ela disse:

— Bem, se você reconheceu essa revista, também deve reconhecer esse outro artigo aqui.

Entregou a ele uma cópia amarelada de um manuscrito que ele tinha publicado tempos atrás. O título era “A arte do caçador”. Ele reparou que o texto estava todo rabiscado, com muitas palavras sublinhadas e anotações que preenchiam cada centímetro vazio do papel. Seu conteúdo havia sido estudado com afinco por alguém, que ele supunha ser Diana.

— Você me perguntou por que o chamei de professor — ela disse — Bem, esse artigo me ensinou tudo o que eu sei sobre as caçadas. Foi por causa dele que eu consegui me tornar a melhor caçadora da região. Seus ensinamentos iam muito além do conhecimento passado de pai para filho pelas pessoas daqui. Você foi o primeiro — e o único, até onde eu sei — que tratou a caçada como uma ciência propriamente dita.

Enquanto ouvia, Lionel lia as anotações de Diana em seu manuscrito. Elas mencionavam outros estudos correlatos, faziam resumos e conclusões lógicas e conectavam ideias aparentemente distantes no texto. Ele ficou impressionado.

— Antes de colocar suas ideias em prática, era comum a gente perder parentes e amigos nas caçadas. A própria ideia de usar fogo-fátuo para incinerar as criaturas, que você viu lá na praça, fui eu quem ensinou para os caçadores daqui, com base em seu artigo, é claro. Antes disso, as criaturas mais resistentes eram mantidas presas até se desintegrarem, o que demorava várias semanas, além de ser muito mais perigoso.

— E eles sabem disso?

— Do quê?

— Os caçadores daqui. Eles sabem que fui eu quem descobriu o uso do fogo-fátuo para exterminar as criaturas? Pelo jeito que me trataram, parece que não estavam por dentro dessa novidade, não?

— Bem…

— Ou você quis ficar com os créditos todos para você?

— Não, não é isso. — Ela parecia cada vez mais incomodada com a conversa — Eles sabem sim, é claro que sabem, eu disse a eles. Mas eles não devem ter se tocado que você é… bem, você!

— E você não podia ter avisado?

— Entenda, Lionel, esta é uma pequena cidade do interior. É bem diferente de onde você vive, na capital. As pessoas aqui são honestas, trabalhadoras… mas são homens rudes, mal-educados, não se interessam pelas sutilezas da ciência.

Ela apoiou sua taça de vinho na mesa de frios à sua frente e se levantou. Começou a caminhar lentamente pela sala, enquanto continuava a falar:

— Você não sabe como eu desejei ter alguém como você por perto. Alguém com quem eu pudesse discutir as ideias, os conceitos. Explorar as raízes da magia adormecida por baixo das montanhas, dos rios, das florestas. Mas as pessoas aqui só querem saber de empilhar corpos e contar os membros decepados a cada noite. Até os mais jovens são assim. Parece que já nascem com uma tocha e um forcado nas mãos, esperando apenas aprender a dar seus primeiros passos para sair por aí espetando e queimando demônios.

— Ainda não respondeu à minha pergunta.

— Respondi, sim! Em parte, é claro. Eu o chamei aqui porque o admiro. — Ela ergueu o queixo ao dizer isso. — Admito que a curiosidade em conhecer meu mentor me moveu a escrever aquele convite.

— Mas não foi somente por isso, foi?

— Não. Até um tempo atrás, eu não me atreveria a entrar em contato. Afinal, nossos caçadores estavam dando conta do recado muito bem, com a minha ajuda e a do seu artigo, é claro. Mas desde o início do ano apareceram rumores um tanto… diferentes. Tão diferentes que eu achei que seus escritos não eram suficientes para resolver o problema. Achei que era necessária a presença do próprio autor desses estudos.

— Rumores diferentes, como?

— De uma criatura diferente, mais astuta que as outras. Tão assassina e sanguinária como qualquer demônio que estamos acostumados, mas com um comportamento… peculiar.

— Que tipo de comportamento?

Diana se sentou novamente, agora bem perto de Lionel, de modo que sua coxa ficou colada à dele. Ele pode sentir seu perfume suave de lavanda. Ela pegou mais alguns papéis da pilha que tinha trazido e os mostrou a ele. Eram recortes de notícias de jornal, que relatavam mortes misteriosas em uma cidade vizinha.

— Esses assassinatos, veja, aconteceram em intervalos de tempo de vinte e oito dias, ou um número múltiplo disso. Sabe o que significa, não sabe?

— Sim, é o ciclo lunar. Uma vampira fêmea, provavelmente?

Ela sorriu, satisfeita com a resposta.

— Foi exatamente isso o que eu deduzi. E pegamos a criatura depois que eu triangulei as distâncias entre os locais dos assassinatos, com base na movimentação exclusivamente noturna desse tipo de demônio, veja.

Ela abriu o manuscrito de Lionel na seção que versava sobre a mobilidade das criaturas. Havia uma fórmula para o cálculo da velocidade dos bípedes humanóides. Estava, assim como o restante do texto, toda circundada de anotações e rabiscos.

— Impressionante! Eu nunca teria pensado em aplicar essa fórmula desse jeito.

Sorrindo orgulhosa, Diana tirou uma mecha de cabelos do rosto, prendendo-a atrás da orelha, e continuou:

— A maioria das criaturas são monstros sanguinários que atacam desordenadamente qualquer desavisado que cruze seu caminho. Essas são mais fáceis de capturar e matar. Outros, como os vampiros, são verdadeiros caçadores, matando sistematicamente e longe de seu habitat natural. A princípio, é difícil entender seu comportamento, mas ainda são seres irracionais que agem segundo padrões simples. Portanto, basta compreender esses padrões e podemos prever suas ações com bastante precisão.

— “Antes de capturar a presa, ocupe-se em capturar a sua mente” — disse Lionel.

— Oh, sim, me desculpe. Eu me esqueci com quem estava falando. Quem sou eu para lhe ensinar esse tipo de coisa?

— Não diga isso. Faz tempo que eu escrevi esse texto. E tem bastante coisa que você acrescentou aqui e que eu não tinha sequer imaginado. Nunca pensou em publicar um manuscrito seu?

— Meu? — Ela abriu a boca, envergonhada. — Ora, é claro que não! Quem iria ler?

— Devia publicar. Se ao menos uma pessoa ler e aplicar seus conhecimentos, já fez alguma diferença.

Ela olhou para as próprias mãos, sorrindo envergonhada. Esticou a mão e pegou sua taça de vinho, tomando mais um gole antes de voltar a encará-lo. Seus olhos estavam brilhando ainda mais agora, e ele começou a se sentir incomodado com a admiração — ou outro sentimento parecido — que transparecia em seu olhar. Lionel resolveu retomar o assunto anterior:

— Mas conte-me mais sobre esse monstro peculiar. Agora fiquei interessado.

Ao ouvir isso, ela voltou à sua animação anterior. Gesticulando com as palmas da mão para cima, disse:

— Está vendo? Esse é o outro motivo pelo qual o chamei. Ninguém aqui demonstrou o menor interesse nos rumores. Eles preferem esperar que o monstro apareça espontaneamente em frente à fogueira e fique parado até que alguém lhe dê um empurrãozinho.

Ele sorriu para ela, sem dizer nada. Ela continuou:

— Bem, as notícias são escassas. São quatro mortes até o momento. E a primeira peculiaridade é que as vítimas são todas mulheres, jovens e bonitas.

— Não me parece a ação de um demônio, e sim de um psicopata.

— Sim, se não fosse pelo jeito com que essas garotas foram mortas. Marcas de garras e dentes afiados pelo corpo, e a pele do rosto arrancada a mordidas. Os legistas confirmaram a presença de queratina das unhas da criatura. Essa é a segunda peculiaridade.

Lionel estremeceu. De fato era peculiar. Ele nunca tinha ouvido falar de um demônio que agia assim.

— Não poderiam ser de um animal, como um urso ou lobo?

— O que está insinuando? Que um psicopata interessado em matar garotas treinou um animal selvagem para comer o rosto delas, e somente o rosto?

— Não sei, é possível.

— Mas existe uma explicação mais plausível, não? Um transmorfo? Um humano que se transforma em demônio?

Lionel respirou fundo antes de responder.

— Sim, mas isso é raro, já faz muito tempo desde que…

— Terceira peculiaridade… — ela interrompeu — O intervalo de tempo entre as mortes é aparentemente irregular.

— Mais um motivo para descartar a hipótese de ser uma criatura fantástica. Isso já foi muito bem demonstrado em estudos. A magia que movimenta as criaturas está conectada a eventos astronômicos. É por isso que as caçadas acontecem somente uma vez a cada estação, e é por isso que vampiros e lobisomens sempre atacam em determinadas fases da Lua. Mas você já sabe disso, é claro.

— Sim, mas repare que eu disse “aparentemente” irregular. — Diana deu um sorriso enigmático.

— O que quer dizer?

— Veja as datas das mortes.

Ela entregou a ele um pequeno bloco de notas, aberto em uma página onde havia quatro datas anotadas. Enquanto ele as lia, ela disse:

— Segundo o princípio da origem astronômica, quanto mais raro o evento, mais evoluída é a criatura. Conjunções celestiais raríssimas entre planetas, por exemplo, podem ser utilizadas para despertar criaturas tão grandes quanto uma montanha, como foi o famigerado caso…

— Da grande invocação de 1628, sim, eu conheço essa história.

— É claro que conhece, me desculpe a arrogância. Bem, mas talvez não conheça o corolário que eu propus… bem… talvez não seja um corolário de fato…

— Ora, que interessante! Não queria alguém para discutir conceitos? Então não se acanhe, compartilhe suas ideias comigo.

— Bem, cruzando os dados históricos, eu deduzi que as criaturas animadas por eventos raros são mais difíceis de serem eliminadas. Em casos mais simples, como fases da Lua ou estações do ano, o fogo-fátuo é eficaz. Em casos mais complicados, como alinhamentos celestiais, pode ser necessário um ritual bem mais elaborado. Durante o alinhamento das Luas de Galileu em 1829, surgiu uma criatura tão difícil de matar que os caçadores tiveram que extrair todo o seu sangue e jogá-lo no oceano para que ela finalmente pudesse ser queimada.

— Sim, sim, isso faz sentido. Quando propus o uso do fogo-fátuo eu listei algumas exceções conhecidas, mas nunca me toquei que poderiam ter relação com a raridade dos eventos. Fascinante, Diana, você precisa publicar isso.

— É, talvez eu publique.

— E quão raro é o evento de que estamos falando? — voltou a analisar as datas anotadas.

— Ainda não percebeu? — Ela sorriu. — Vamos lá, professor.

Ele pensou por alguns instantes, enquanto fazia cálculos mentais. Após alguns instantes, exclamou:

— Eclipses lunares?

— Parabéns, professor.

— Mas não são eventos muito raros, não é?

— Mais do que a média. E segundo meu corolário, todos os casos conhecidos fazem parte da sua lista de exceções ao método do fogo-fátuo.

— Então estamos lidando potencialmente com um transmorfo que não pode ser eliminado em fogo-fátuo. Algo mais?

— Sim, faltou dizer o óbvio! Ele vai atacar no próximo eclipse lunar, e uma jovem e bela garota estará em perigo a menos que consigamos rastreá-lo e eliminá-lo a tempo.

— E quando é o próximo eclipse lunar?

— Em três dias.

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