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ENTRE SESSÕES I Dani Moraes · Dec 22, 2025

#63: A memória é um corpo vivo que viaja no tempo

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Dani Moraes · ENTRE SESSÕES I Dani Moraes

Anton Ego é um severo crítico gastronômico francês, responsável por alçar à fama grandes chefs de cozinha e também por destruir reputações. Seu paladar não é influenciado por nada que não esteja próximo ao sublime. Um belo dia, já dominado por certo desencantamento com o ofício e diante da mesmice e da descrença, que a soberba lhe emprestou, ele foi tomado por arrebato.

A cena em que Ego experimenta um despretensioso ratatouille e tem os sentidos capturados pela nostalgia da infância, quando sua mãe cozinhava o mesmo prato para ele, se tornou uma das mais felizes da indústria das animações de todos os tempos. O pequeno chef Remy — um ratinho diferenciado e talentoso — consegue ali resgatar a paixão do rabugento crítico pela culinária, levando-o, sem escala, às suas melhores lembranças. O homem reencontrou o prazer, e ele tinha aroma e sabor de afeto.

Foi exatamente essa a cena veio à minha mente neste domingo, após um passeio pelo bairro. Saí atrás de uma promessa feita pela sorveteria que pesquisa e produz artesanalmente sorvetes de frutas brasileiras, onde já havia experimentado variedades de jabuticaba, graviola, cupuaçu e cajá. O anúncio dizia: hoje tem Pitanga.

Curiosamente incomum nos supermercados dominados por berries de origem claramente distante dos trópicos, não é fácil encontrar pitangas em São Paulo. Já se você quiser strawberry (morango), raspberry (framboesa), blueberry (mirtilo) e blackberry (amora) não vão faltar oportunidades. É curioso demais, pra dizer o mínimo, que uma plantinha, razoavelmente fácil de cultivar, espalhada ainda hoje aqui e acolá pelas ruas, esteja tão longe de conquistar as gôndolas superfaturadas dos hortifrutis da cidade.

Minha relação com ela é afetiva. Uma pitangueira, em especial, fez parte da minha vida, como uma fiel companheira. Era sobre seus galhos que eu ficava e dos seus frutos que comia, enquanto esperava que alguém me buscasse na escola. Muitas vezes restávamos somente eu e ela, que pra própria sorte, ao contrário de mim, estava em casa. Gentil, acolhia a minha angustia.

Enquanto o ressentimento da espera crescia em mim, colhia e comia pitangas. Primeiro, buscava as avermelhadas, certamente mais doces, mas cuja delicadeza da pele madura as tornava frágeis. Lamentavelmente, era comum que justo as vermelhinhas já estivessem amassadas ou passadas.

Antes de comer, era prudente prestar atenção e verificar se não havia nenhum bichinho ou larva. Observação feita, restava morder gentilmente a polpa macia e pequena, de modo a não amassar o caroço que, devidamente identificado e separado dentro da boca, seria cuspido lá do alto mesmo. Apesar dos galhos finos e das folhas pequenas, em formato de barquinhas, a minha amiga Pitangueira tinha um tronco firme e um ou outro galho robusto, capazes de sustentar os 23 quilos dos meus 8 anos.

Imagino que as cerejas deem mais lucro e tenham em volta de si uma produção digna da comercialização internacional, que seu sucesso representa. E nem sei se ficaria tão satisfeita, caso a pitanga alçasse voos tão altos. Inevitavelmente, seria corrompida pelo capitalismo-agrotóxico que a anabolizaria, quem sabe roubando dela seu mais efêmero sentido: o da delicadeza. Melhor permanecer exótica-hipster, penso eu.

Hoje, ao conduzir a pazinha de madeira à boca, sorvendo a prometida iguaria sabor pitanga, desejei carnaval, para que aquela “fantasia fosse eterna”. Quis guardar o cheiro e a textura vivos em mim, para que o gosto inconfundível do fruto me fosse para sempre garantido pelas mais generosas safras da vida.

Eu me vi pequena, esperando alguém chegar. Então, me dei conta: neste ano, pela primeira vez, não há mais quem possa aparecer. Decidi encomendar um pote generoso de sorvete de Pitanga pro Natal. Quem sabe a noite me reserve em sonho uma visita surpresa? Vou esperar por eles, lá de cima da minha Pitangueira.

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Antes de me despedir
Espero que as festas cheguem por aí como as memórias que realmente importam: sem alarde, mas doces. Que haja tempo para sentir o gosto do simples, coragem para sustentar a delicadeza e cuidado para não deixar passar o que é vivo demais para ser esquecido.

Desejo que as celebrações te encontrem inteira, com espaço para lembrar, sonhar e seguir — mesmo que eventualmente o caminho esteja um tanto mais vazio. E deixo aqui um último convite para que você atravesse esse período de fechamento de ciclo e chegada de um novo ano de forma simbólica e especial.

Há alguns anos faço e conduzo um ritual conhecido como as 12 Noites Santas. Basicamente, uma jornada de meditação, feita nas noites entre Natal e Dia de Reis, e observação dos sonhos. Uma atividade bonita de conexão e renovação, em que cada noite se conecta a uma constelação do zodíaco e um mês do ano novo, prometendo insights e orientações oníricas para o Ano Novo.

Vou adorar, se você quiser estar junto comigo nessa travessia!

Aqui tem mais informações.
E aqui um vídeo em que eu explico a jornada.

Se fizer sentido para você, é só me chamar aqui.

Com amor,
Dani

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Read the original on danielemoraes.substack.com

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