BOM DIAAA, CIENTISTAS! ☕💡
Como vocês estão?
Hoje o assunto é diabetes tipo 1 mas não do jeito que você imagina.
Você provavelmente sabe que, no diabetes tipo 1, o próprio sistema imunológico destrói as células do pâncreas que produzem insulina (as células beta, dentro de estruturas chamadas ilhotas pancreáticas). Sem insulina, o corpo não consegue controlar a glicose no sangue, e a pessoa passa a depender de injeções diárias pelo resto da vida.
Uma ideia óbvia (e antiga) para “curar” isso seria: por que não transplantar ilhotas novas, de um doador?
O problema é que um transplante de células de outra pessoa é tratado pelo corpo como um invasor. Para evitar a rejeição, o paciente precisaria tomar imunossupressores por toda a vida. E isso também significa usar medicamentos que aumentam o risco de infecções graves, câncer e outros efeitos colaterais sérios. Até então um não era uma idéia muito prática.
E é exatamente esse obstáculo que um estudo publicado recentemente na NEJM tentou contornar.
Um homem de 42 anos, com 37 anos de diabetes tipo 1, recebeu um transplante de células de ilhota geneticamente editadas e não tomou nenhum imunossupressor.
Toda célula do nosso corpo carrega uma espécie de “carteira de identidade” na superfície: as moléculas HLA (também chamadas de MHC em outras espécies). É assim que o sistema imunológico distingue se as células são minhas ou de um doador.
Conceito Eureka!
HLA e rejeição: As moléculas de HLA classe I e classe II funcionam como um crachá que toda célula exibe na superfície. Os linfócitos T “leem” esse crachá o tempo todo. Quando encontram uma célula com um HLA de outra pessoa, reconhecem que ela é estranha e organizam um ataque: é a chamada rejeição do enxerto. Por isso, transplantes de órgãos ou células de um doador para outro indivíduo geneticamente diferente normalmente exigem imunossupressão para o resto da vida.
A ideia dos pesquisadores foi simples de descrever (e bem complexa de executar): e se a gente simplesmente “apagar” o crachá da célula transplantada?
Sem HLA, os linfócitos T não teriam o que reconhecer.
Só que aí surge um segundo problema.
As células do sistema imune inato, como as células natural killer (NK) e os macrófagos, funcionam de um jeito meio paranoico: se uma célula não está exibindo nenhum HLA, elas interpretam isso como sinal de perigo (um mecanismo chamado “missing-self”, ou “reconhecimento do que falta”) e a destroem.
Ou seja: tirar o HLA resolve o problema dos linfócitos T, mas cria um novo problema com as células NK e os macrófagos.
A solução que o grupo usou foi adicionar mais uma peça: uma proteína chamada CD47, que funciona como um sinal de “não me coma” para as células NK e macrófagos. Ela é a mesma proteína que as nossas próprias células saudáveis usam para não serem destruídas pela nossa vigilância imunológica.
Juntando as duas edições: remover o HLA e superexpressar CD47 os pesquisadores criaram o que chamaram de células HIP (hypoimmune platform, ou plataforma hipoimune).
Os cientistas pegaram ilhotas de um pâncreas doado, dissociaram as células e usaram uma ferramenta de edição genética (CRISPR-Cas12b) para desligar os genes B2M e CIITA, responsáveis por produzir HLA classe I e classe II. Depois, usaram um vetor viral para inserir o gene do CD47.
O resultado não foi uma população 100% uniforme: o produto final continha uma mistura de células totalmente editadas (as HIP), células parcialmente editadas (sem HLA, mas sem CD47 extra) e algumas células que continuaram intactas (”tipo selvagem”).
Essas células foram então injetadas no músculo do antebraço do paciente. Nada de imunossupressor, nem antes, nem depois.
Os pesquisadores acompanharam o paciente por 12 semanas, testando a resposta imune contra cada um dos três tipos de célula presentes no enxerto.
As células intactas (não editadas) foram fortemente atacadas pelos linfócitos T, e o organismo do paciente chegou a produzir anticorpos contra elas.
As células parcialmente editadas (sem HLA, mas sem CD47 extra) escaparam dos linfócitos T, só que foram destruídas pelas células NK e macrófagos, exatamente como o mecanismo de “missing-self” previa.
Já as células HIP (sem HLA e com CD47 extra) não foram atacadas por nenhuma dessas frentes. Nenhum ataque de linfócitos T, nenhum ataque de células NK ou macrófagos, e nenhum anticorpo detectável contra elas ao longo de todo o período.
Além de sobreviverem à vigilância imune, essas células continuaram funcionando: exames de sangue mostraram produção de insulina (medida por uma molécula chamada peptídeo C) que respondia a refeições, e exames de imagem confirmaram que o enxerto continuava presente e metabolicamente ativo no músculo do braço após 12 semanas.
A hemoglobina glicada do paciente também caiu ao longo do estudo, embora os próprios autores apontem que isso provavelmente se deve, sobretudo, ao ajuste da dose de insulina externa, e não apenas ao enxerto.
Mas como sempreee, calma.
Esse não é, ainda, um tratamento pronto para o diabetes tipo 1, e o estudo tem limitações importantes que os próprios autores destacam:
Foi testado em um único paciente. É um estudo de prova de conceito, e resultados em uma pessoa não garantem que se repetirão em outras.
A dose de células foi propositalmente baixa: bem menor do que a que costuma ser necessária para tornar alguém independente de insulina. O objetivo aqui era testar segurança e sobrevivência das células, não curar o paciente.
O acompanhamento foi de apenas 12 semanas. Ainda não se sabe se essa proteção contra rejeição se mantém a longo prazo.
Como a mistura de células continha uma fração não editada, o paciente pode ter desenvolvido uma sensibilização imunológica que precisa ser monitorada em transplantes futuros.
Ou seja: o estudo mostra, de forma bastante elegante, que é possível enganar o sistema imunológico com edição genética a ponto de ele “ignorar” completamente um tecido de outra pessoa sem nenhum remédio imunossupressor. Isso é um resultado e tanto. Mas transformar essa tecnologia em um tratamento real e duradouro para o diabetes (ou para outras doenças que hoje dependem de transplantes) ainda vai exigir muitos outros estudos, com mais pacientes e acompanhamentos bem mais longos.
E aí, cientista? Curioso pra ver no que essa história vai dar? A ideia de “invisibilidade imunológica” pode, no futuro, impactar muito além do diabetes: desde transplante de órgãos até terapias com células-tronco. A gente com certeza vai continuar de olho.
Até a próxima!

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