Bom diaaa, cientistas!
Hoje em dia a gente sabe bem que tudo é proteico. No mercado já até vi pão proteico, requeijão proteico. É whey pra cá, barrinha pra lá.
É que proteína dá sim saciedade e é a macromolécula mais importante quando o assunto é construção de músculos.
Mas um artigo de revisão que saiu na revista Cell esses dias traz um contraponto interessante à nossa obsessão por proteína: quando o assunto é envelhecimento e longevidade, comer mais proteína talvez não seja necessariamente melhor
Essa história, descrita também na introdução do artigo, começa há uns 100 anos. Vamos investigar!
Em 1935, o nutricionista Clive McCay publicou um experimento que se tornaria um clássico da biologia do envelhecimento. Ele pegou dois grupos de ratos: um que comia à vontade; outro que tinha uma dieta com um limite calórico. O resultado? Os ratos submetidos à restrição calórica viveram consideravelmente mais do que os animais alimentados normalmente
Desde então, a restrição calórica virou uma das intervenções mais estudadas quando o assunto é longevidade.
E ela funciona impressionantemente bem em vários organismos. De leveduras a moscas, roedores e até primatas, comer menos calorias está associado a diferentes benefícios para a saúde e, em vários modelos, a uma vida mais longa.
Só existe um pequeno problema.
→ Passar a vida em restrição calórica é muito difícil (sabemos bem disso!)
Então surgiu uma pergunta interessante: e se parte dos benefícios da restrição calórica não viesse simplesmente de comer menos calorias, mas de comer menos algum nutriente específico?
E um candidato começou a chamar bastante atenção.
A nossa famigerada PROTEÍNA.
Em diferentes experimentos com animais, dietas com menos proteína aumentaram a expectativa de vida.
Em um estudo citado no artigo de hoje, foi mostrado em camundongos machos, por exemplo, que reduzir a porcentagem de proteína da dieta de 21% para 7% aumentou a expectativa de vida em cerca de 35%. Em outros experimentos, os resultados variaram bastante, mas aumentos de longevidade foram observados em ratos, camundongos e moscas.
Ah, e tem um detalhe interessante: esses animais não necessariamente estavam comendo menos.
Em alguns experimentos, os animais em restrição proteica comiam até mais calorias, mas ainda assim apresentavam menos gordura corporal, menor peso e maior gasto energético.
Ou seja, não era nem simplesmente uma versão disfarçada da restrição calórica, que já comentamos antes.
As suas células têm literalmente sensores de nutrientes; isso é toda uma área de estudos da bioquímica, mas tentaremos resumir aqui em poucas frases :)
Quando há abundância de aminoácidos, nossas células recebem basicamente a mensagem:
“Tem material disponível. Bora crescer. Bora construir músculo.”
Um dos principais complexos envolvidos nisso é a mTORC1, uma espécie de central celular que detecta nutrientes e estimula processos de crescimento e produção de proteínas.
Isso é o ideal quando de fato precisamos crescer ou construir músculo.
Mas manter constantemente o organismo em “modo crescimento” talvez não seja a melhor estratégia para envelhecer.
Quando a disponibilidade de aminoácidos diminui, a atividade da mTORC1 também tende a cair. Ao mesmo tempo, aumentam mecanismos de manutenção celular, incluindo a autofagia, processo no qual a célula degrada e recicla proteínas e estruturas danificadas.
É quase uma mudança de prioridades.
Em vez de:
crescer, crescer, crescer
A célula passa um pouco mais para:
manutenção, reciclagem, reparo.
E essa mudança aparece muito quando o assunto é pesquisas sobre longevidade.
Quando a quantidade de proteína da dieta cai, o fígado aumenta a produção de um hormônio chamado FGF21 (isso é como chamamos o “fator de crescimento fibroblástico 21”… melhor ficar com FGF21 mesmo rsrs)
Em animais, o FGF21 está envolvido no aumento do gasto energético, na melhora da sensibilidade à insulina e no metabolismo de gorduras. Camundongos geneticamente modificados para produzir muito FGF21 chegam a viver cerca de 30% a 40% mais.
Mais interessante ainda: quando pesquisadores retiraram o gene do FGF21 de camundongos, a restrição proteica deixou de aumentar a longevidade desses animais.
Ou seja, pelo menos nesses modelos, não basta simplesmente tirar proteína. Existe toda uma resposta biológica à falta dela.
E se o texto de hoje já tá longo, espera aí que tem mais!
Proteínas são grandes moléculas construídas a partir de unidades menores: os aminoácidos.
Então os pesquisadores começaram a perguntar:
Será que precisamos realmente diminuir toda a proteína da dieta ou será que reduzir aminoácidos específicos já produziria parte desses efeitos?
E parece que alguns aminoácidos importam muito mais do que outros.
A revisão destaca principalmente metionina, isoleucina e valina.
Quando pesquisadores reduziram apenas a isoleucina na alimentação de camundongos machos, por exemplo, os animais apresentaram melhora metabólica, menor fragilidade durante o envelhecimento e viveram cerca de 33% mais.
Reduzir a valina aumentou a expectativa de vida em aproximadamente 23% em outro experimento.
E restringir metionina também aumentou a longevidade em diferentes estudos com roedores.
Então a pergunta não é apenas “o quanto de proteína você tá comendo?”, e sim, “o quanto de cada aminoácido você está comendo?”
Conceito Eureka:
Aminoácidos Essenciais:
Existem 20 aminoácidos principais usados pelo nosso corpo para construir proteínas. Alguns deles conseguimos fabricar sozinhos. Outros precisam obrigatoriamente vir da alimentação e, por isso, recebem o nome de aminoácidos essenciais. Existem 9 deles. Entre eles estão leucina, isoleucina e valina (esses três juntos são o que chamamos de BCAAs) BCAA é vendido justamente porque esses aminoácidos participam da sinalização que favorece a síntese proteica e o crescimento muscular. Só que essa mesma sinalização, especialmente através da mTORC1, está envolvida em processos relacionados ao envelhecimento. Vamos deixar esse assunto para um próximo texto!!
Calmaaa, cientista, por favor
Essa definitivamente não é a conclusão do artigo.
Primeiro porque boa parte das evidências mais impressionantes sobre longevidade vem de moscas, ratos e camundongos. Ainda não sabemos se restringir a proteína faz humanos viverem mais. Os próprios autores deixam isso explícito.
Existem estudos pequenos em humanos mostrando resultados interessantes. Em um deles, 43 dias de dieta com menos proteína reduziram peso, gordura corporal e glicemia de jejum. Estudos reduzindo BCAAs também encontraram melhora de alguns marcadores metabólicos.
Mas longevidade é outra história.
Não dá para colocar 10 mil pessoas em uma dieta e esperar 70 anos para descobrir quem viveu mais.
E existe ainda outro problema.
Proteína não virou recomendação nutricional por acaso. E, por favor, não ache que estamos tentando tornar a proteína uma vilã. Esse definitivamente não é o caso.
Com o envelhecimento, perdemos progressivamente massa e força muscular. É a chamada sarcopenia, que aumenta o risco de quedas, fragilidade e perda de independência.
→ E existem estudos mostrando que idosos que consomem mais proteína preservam melhor a massa muscular. Em um dos trabalhos citados pela revisão, pessoas consumindo cerca de 1,2 g de proteína por quilo de peso corporal perderam 40% menos massa muscular ao longo de três anos do que aquelas consumindo 0,8 g/kg.
Então temos um dilema científico muito interessante.
Mais proteína pode ajudar a preservar músculos.
Mas...
Menos proteína pode ativar mecanismos celulares associados à longevidade.
E talvez não exista uma quantidade universalmente perfeita.
Idade, atividade física, quantidade total de calorias, sexo, genética e até a fonte da proteína podem mudar essa equação.
Exercício também muda bastante a história: há evidências de que ele consegue compensar boa parte da perda de massa magra observada com dietas de menor teor proteico.
Não!!!! Pelo amorrr.
O próprio artigo faz questão de colocar limites na discussão.
Crianças, gestantes, pessoas consumindo poucas calorias, pessoas se recuperando de lesões e alguns idosos podem precisar de mais proteína. Muitos idosos, inclusive, já consomem proteína abaixo do necessário, e recomendar restrição nesse contexto poderia ser prejudicial. Pessoas que treinam também podem ter necessidades maiores.
O ponto da revisão NÃO é fazer você achar que “proteína faz mal”. Mas dá pra tirar a lição de que talvez a nossa atual obsessão por colocar proteína em absolutamente tudo, ou fazer uma dieta que foque apenas em proteína (cortando carboidratos e gorduras), esteja simplificando demais uma história biologicamente muito mais complexa.
Proteína ajuda na saciedade. Proteína é essencial para músculos. Proteína é indispensável para a vida.
Mas nutrientes também SINALIZAM. E a quantidade importa!
E é por isso que uma dieta que maximiza o crescimento muscular não necessariamente é a mesma dieta que maximiza a longevidade.
Os autores resumem a restrição proteica em seis grandes efeitos associados ao envelhecimento saudável: melhora da saúde metabólica, alteração das vias que detectam nutrientes, redução da senescência celular, possíveis melhorias na função mitocondrial, alterações epigenéticas e melhora de parâmetros de envelhecimento saudável.
A grande pergunta agora é descobrir quanto, quando e qual proteína.
E se você quer se manter antenado na conversa científica que rola pelo mundo, se inscreva no Eureka!

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.