Bom diaaa, cientistas! Como vocês estão?
Hoje falaremos de um assunto muito interessante: a busca por novos tratamentos contra o câncer. E fica mais interessante ainda: buscar esses novos tratamentos usando… bactérias do intestino de sapos, salamandras e lagartos?
É isso mesmo que você leu!
Então bora falar de CIÊNCIAAAA!
Antes de chegar nos sapos, precisamos voltar um pouquinho no tempo. Porque, por mais maluca que pareça a ideia de usar bactérias para combater um tumor, ela não é nova.
No final do século XIX, o cirurgião americano William Coley percebeu algo curioso: alguns pacientes com câncer que desenvolviam infecções bacterianas apresentavam regressão dos tumores. A hipótese era que a infecção estava fazendo o sistema imune ficar TÃO ATIVO que, no meio da confusão, ele passava a atacar também o câncer.
Coley começou então a experimentar misturas de bactérias como tratamento. Eram as chamadas toxinas de Coley (pros curiosos de plantão: era uma mistura de Streptococcus pyogenes e Serratia marcescens). Na época, ninguém entendia direito por que aquilo às vezes funcionava. Hoje sabemos que ele estava, de certa forma, tentando estimular o sistema imunológico contra o câncer décadas antes de existir a palavra imunoterapia.
E essa história acabou ganhando uma aplicação que usamos até hoje.
Cientistas, por curiosidade, o meu projeto de mestrado (Gabriela aqui, quem vos escreve) tem a ver com câncer de bexiga. E foi na escrita desse projeto que descobri que o tratamento padrão para muitos casos desse câncer consiste em colocar diretamente na bexiga uma versão enfraquecida da BCG (aquela bactéria usada na vacina contra a tuberculose!!). A ideia é que a bactéria “chame a atenção” do sistema imunológico e, assim, as células de defesa ataquem também as células cancerígenas. Uma curiosidade adjacente é que esse tipo de terapia começou nos anos 70, quando o urologista Álvaro Morales percebeu que a bexiga era um lugar especialmente interessante para testar a BCG: dava para colocar as bactérias diretamente em contato com o tumor. Em 1976, ele e seus colegas publicaram os primeiros resultados em pacientes com câncer de bexiga recorrente, e a estratégia funcionou tão bem que, com estudos posteriores, acabou se tornando um dos pilares do tratamento desse tipo de câncer.
Então, o que este artigo propõe não é exatamente uma ideia revolucionária. A grande sacada está em onde os pesquisadores foram procurar novas bactérias com potencial antitumoral.
Agora sim, entram os sapinhos 🐸
Os autores mencionam, no artigo, um fenômeno bem interessante: tumores espontâneos parecem ser relativamente raros em anfíbios selvagens. O texto tambmém discute que a emergente pesquisa com bactérias cada vez mais revela uma interconexão forte entre microbiota e câncer.
O que leva a uma pergunta interessante: será que o microbioma desses animais esconde microrganismos com propriedades antitumorais que ainda não conhecemos?
Para descobrir, eles foram procurar bactérias no intestino de dois anfíbios, a perereca-japonesa (Dryophytes japonicus) e a salamandra-de-barriga-vermelha-japonesa (Cynops pyrrhogaster), além de um réptil, o lagarto Takydromus tachydromoides.
Os pesquisadores isolaram 45 espécies diferentes de bactérias desses animais.
Os pesquisadores conseguiram isolar 45 linhagens bacterianas do intestino desses animais.
Mas não dava simplesmente para pegar 45 bactérias aleatórias e sair injetando em animais com câncer. Antes de qualquer coisa, eles fizeram uma triagem para avaliar quais delas eram toleradas pelos camundongos.
Depois dessa seleção, algumas candidatas seguiram para os experimentos de atividade antitumoral. Os pesquisadores utilizaram camundongos com tumores formados por células de câncer colorretal e administraram as bactérias diretamente na corrente sanguínea.
E uma delas chamou MUITA atenção.
Seu nome é Ewingella americana.
Ela havia sido encontrada no intestino da perereca-japonesa.
Depois de uma única injeção, os tumores dos camundongos tratados com E. americana regrediram completamente. Mais impressionante ainda, quando os pesquisadores tentaram implantar novamente células tumorais nos animais que haviam sido curados, nenhum dos dez desenvolveu um novo tumor, enquanto todos os dez animais que nunca tinham recebido o tratamento desenvolveram câncer. Isso sugere que o primeiro tratamento havia produzido uma espécie de memória imunológica contra aquelas células tumorais
Mas como uma bactéria do intestino de um sapo foi parar dentro de um tumor e conseguiu fazer tudo isso?
Tumores sólidos não são simplesmente bolinhas de células crescendo organizadamente.
À medida que crescem, seu interior pode se tornar um ambiente bastante peculiar. Os vasos sanguíneos são desorganizados, algumas regiões recebem pouco oxigênio e o próprio sistema imunológico costuma estar parcialmente suprimido.
E a Ewingella americana é uma bactéria anaeróbia facultativa, ou seja, consegue sobreviver tanto na presença quanto em condições de pouco oxigênio.
Depois de ser injetada na corrente sanguínea, ela desapareceu rapidamente do sangue, ficando indetectável após 24 horas. Dentro do tumor, aconteceu justamente o contrário: entre 3 e 24 horas após a injeção, a quantidade de bactérias aumentou cerca de 3.000 vezes.
Em outras palavras: a bactéria ADORA “morar“ no tumor.
E, agora, o assunto começa a ficar mais interessante. Isso porque a bactéria começou um ataque por duas frentes.
A primeira era direta. Em experimentos com estruturas tridimensionais de células tumorais, a bactéria conseguiu destruir as células cancerígenas, e os pesquisadores encontraram evidências de moléculas bacterianas com atividade citotóxica.
A segunda frente envolvia justamente aquilo que Coley começou a explorar há mais de um século atrás: o sistema imunológico.
A presença da bactéria provocou uma enorme movimentação de células de defesa para dentro do tumor. Os pesquisadores observaram aumento de linfócitos T, linfócitos B e, principalmente, neutrófilos. Também aumentaram moléculas inflamatórias como IFN-γ e TNF-α.
Ou seja: a bactéria começou a acender um ENORME sinal vermelho pro sistema imune dizendo algo como “Estou aqui! Venha me destruir”. E acaba que o sistema imune destrói as células tumorais, também (e que bom!)
Aqui precisamos colocar um asterisco gigantesco.
Em camundongos, nesse modelo específico, sim.
Os pesquisadores compararam uma única dose de E. americana com doxorrubicina, um quimioterápico, e com um anticorpo anti-PD-L1, um tipo de imunoterapia.
Os dois tratamentos convencionais conseguiram reduzir o crescimento tumoral. Mas a bactéria foi além: naquele experimento, todos os cinco camundongos tratados com E. americana tiveram regressão completa do tumor.
Isso é um resultado impressionante, mas não significa que descobrimos uma bactéria melhor que a quimioterapia para tratar pessoas.
Lembra, Eureker: você não é um ratinho :)
Esse foi um estudo pré-clínico, realizado em um modelo específico de câncer colorretal em camundongos. Entre fazer um tumor desaparecer em cinco ratinhos e transformar isso em um tratamento seguro e eficaz para seres humanos existe um caminho gigantesco.
Aliás, existe outro detalhe importantíssimo: a dose utilizada pelos pesquisadores estava próxima do limite tolerado pelos animais. Doses maiores provocaram mortalidade aguda, algo que deixa bastante claro que “bactéria que combate câncer” não significa automaticamente “bactéria segura”.
Então ainda estamos muitooo longe de injetar bactérias de sapo em pacientes
Mas o caminho está se abrindo :)
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