Chegou a hora da gente atualizar o discurso sobre o que está acontecendo com a nossa atenção. Porque ela não está simplesmente se perdendo. Ela está sendo roubada.
Recentemente conheci um movimento e um livro chamado Attensity! que propõe uma nova metáfora. De acordo com esse grupo, o termo “economia da atenção” já não dá conta da violência do que estamos vivendo, por isso eles falam em fraturamento humano.
É como se o que estivesse acontecendo fosse a extração de petróleo ou minério, só que o território somos nós e a matéria-prima está dentro da nossa mente.
Para transformar humanos em dinheiro, as Big Techs fragmentam a nossa atenção em pequenos pedaços, transformam isso em tempo de tela e vendem esse tempo para anunciantes. É literalmente tempo de vida, sendo transformado em lucro (pra eles, claro).
A atenção é a nossa capacidade de dedicar nossas mentes e sentimentos ao mundo.
É o que nos torna humanos, empáticos, capazes de nos conectarmos, de chegarmos juntos a soluções. É o que nos faz florescer e até mesmo, amar. Sem atenção, nada para de pé.
Você sabe, pois já está vivendo nesse sistema há um bom tempo. Sabe que nos sentimos sós, desconectados do que é real. Parece que o mundo saiu do eixo. Quanto mais a gente tenta estar em contato com as pessoas e com as coisas que prometem nos sustentar, mais isolados a gente fica.
Mas como poderia ser diferente? Faz todo o sentido que não saibamos mais como viver quando as pessoas que realmente fazem parte da nossa vida — amigos, colegas de trabalho, parceiros, parceiras e até familiares — chegam até nós cada vez mais como imagens instantâneas exibidas entre anúncios; quando nosso acesso ao mundo é determinado por categorias de preferência de consumo; quando redes digitais extrativistas moldam todos os aspectos da vida cotidiana; quando precisamos fazer testes de CAPTCHA para provar que somos humanos.
Trecho do livro Attensity!
Quantas crises você ou sente na pele ou tem lido por aí: a crise dos relacionamentos, das amizades, das instituições, da solidão… percebe o elo entre tudo isso?
Ok, atualizamos o nosso discurso, e agora?
A primeira coisa é entendermos que a força de vontade individual não vai ser capaz de derrotar um sistema trilionário projetado para explorar a atenção humana.
Problemas sistêmicos exigem respostas coletivas: precisamos espalhar essa mensagem, sendo também ativistas pela nossa atenção. A consciência da população é o fator principal para a mobilização e a pressão para regulação e políticas públicas. Nós aqui no Brasil vimos isso acontecer com o ECA Digital, que estendeu a proteção da Criança e do Adolescente também para o ambiente online.
A gente também precisa formar comunidades e criar espaços onde a atenção possa existir sem ser transformada em lucro. E isso não precisa ser complexo. Nós cuidamos da nossa atenção quando tocamos um instrumento, preparamos um alimento, brincamos, estudamos, lemos um livro ou escutamos, de verdade, a alguém que precisa conversar.
Defender a atenção talvez seja uma das tarefas mais importantes do nosso tempo.
E eu quero te perguntar: qual passo você vai tomar para proteger a sua?
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