A gente nem sempre percebe que teve uma infância atravessada por políticas públicas.
Descobre isso muitos anos depois. Quando lembra que a mochila nova chegava pela prefeitura. Que a merenda da escola era, muitas vezes, a refeição mais esperada do dia. Que existia um dia específico para acompanhar um adulto até a lotérica, sem entender direito o que era o Bolsa Família, mas entendendo, de algum jeito, que aquele dinheiro fazia diferença dentro de casa.
Se você cresceu nas classes D e E do Brasil dos anos 2000, talvez reconheça alguma dessas cenas. Eu reconheço todas.
Hoje consigo olhar para trás e entender que a minha infância não foi sustentada apenas pela minha família. Ela também foi sustentada por uma rede — de políticas, de instituições, de programas que existiam para crianças como eu. Algumas infâncias só conseguem florescer quando existe amor e cuidado para além das quatro paredes de casa
E essa não é uma história do passado.
Segundo a Fundação Abrinq, em 2024, 15,4 milhões de crianças brasileiras de até 12 anos viviam em situação de pobreza. Entre elas, 8,2 milhões tinham até seis anos de idade — justamente a fase em que o cérebro se desenvolve em um ritmo que nunca mais se repetirá ao longo da vida.
O Brasil mudou muito desde a infância que eu vivi. Aprendemos, com políticas públicas e investimento, a reduzir a mortalidade infantil, ampliar a vacinação e fortalecer programas de transferência de renda. Mas novos desafios chegaram. As telas entraram nas casas antes mesmo da alfabetização. A saúde mental dos cuidadores se fragilizou. A insegurança alimentar voltou a fazer parte da realidade de muitas famílias. E o conhecimento sobre o desenvolvimento infantil continuou circulando, muitas vezes, em uma linguagem distante justamente de quem mais precisava dele.
Pensando nessas infâncias — e no quanto essa informação ainda não chegou a quem mais importa —, recebemos o convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para produzir o Guia de Parentalidade para a Primeira Infância. Uma bússola para famílias e pessoas que convivem com crianças nos primeiros seis anos de vida.
Ao longo da produção, entrevistamos mais de 20 especialistas — pediatras, psicólogos, neurocientistas, nutricionistas, educadores e pesquisadores. Mas talvez a decisão mais importante tenha sido outra: escrever tudo em uma linguagem que não intimidasse ninguém.
A ideia era que qualquer mãe, pai, avó, tio ou cuidador pudesse abrir o material e sentir que alguém estava conversando com ele, falando a língua que ele conhece. O guia reúne informações sobre vínculo afetivo, brincadeiras, alimentação, desenvolvimento, educação infantil, uso de telas, disciplina positiva e a construção de uma rede de cuidado.
Em breve, esse material chegará gratuitamente às famílias brasileiras por meio de uma parceria com o Criança Esperança, a Globo e outras organizações. Um QR Code exibido na televisão permitirá que qualquer pessoa faça o download do guia no celular, sem custo.
Enquanto escrevia, eu voltava muitas vezes para a criança que fui. Pensava na minha mãe tentando acertar, mesmo sem ter todas as respostas. Pensava em quantas famílias fazem exatamente o mesmo todos os dias. Fazem o melhor que conseguem com o tempo, o dinheiro, o cansaço e a informação que têm.
Este guia é para elas. Para a família que tem amor de sobra e recurso de menos. Para o pai que talvez nunca tenha ouvido falar em vínculo afetivo, mas o constrói todos os dias. Para a avó que voltou a criar uma criança e quer entender esse mundo que mudou tão rápido. Para a mãe que só precisava que alguém explicasse, sem culpa e sem cobrança, que cuidar também se aprende.
E, sobretudo, para a criança que talvez você tenha sido. Porque ela continua existindo — aos milhões — no Brasil de hoje.
A Contente agradece profundamente a cada profissional que compartilhou seu tempo e seu conhecimento para tornar este material possível e a toda a equipe da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal pela confiança e pelo trabalho conjunto. Para este guia, entrevistamos:
Beatriz Abuchaim — psicóloga com mestrado e doutorado em Educação; gerente de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal Cintia Aleixo — psicóloga, comentarista e fundadora do projeto Possibilidades Emanoel Ceress — educador, psicopedagogo, linguista e professor, com atuação voltada à educação inclusiva e socialmente comprometida Eloisa Souza — médica pediatra e hebiatra (medicina do adolescente) Florencia Fuks — pediatra geral da clínica Conviva e do Hospital Israelita Albert Einstein; professora do Instituto Sedes Sapientiae Gabriela Romeu — jornalista, documentarista e escritora, especializada em produção cultural para a infância Lara D’Almeida — psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento, especialista em TDAH e TEA Lígia Rodrigues — médica ginecologista, com atuação voltada à saúde da mulher negra Lívia Sant’Anna Vaz — jurista e promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia, doutora em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa, referência no combate ao racismo Luana Tolentino — educadora, historiadora e escritora; mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); autora de “Mamãe aprendeu a ler” Maíra Silva — especialista em desenvolvimento na primeira infância (Early Childhood Development Specialist) do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) Brasil Monalisa Nascimento dos Santos Barros — psicóloga; professora titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); pós-doutora em Saúde Mental Perinatal pela Universidade de Coimbra Vanda Elisa de Farias Raulino — pedagoga, tutora de escolas Waldorf e formadora de professores Waldorf
Maternas;
Por aqui, seguimos construindo #ainfânciaqueagentequer e fazendo o que sempre fizemos: ajudando empresas, instituições e iniciativas a traduzir conhecimento em conteúdo que realmente alcança as pessoas. Se você tem um projeto ligado à infância, à educação ou às políticas públicas que fazem diferença na vida real — e quer saber como a Contente pode contribuir —, a gente vai adorar conversar. É só mandar um e-mail para contato@contente.vc.
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