Quem me conhece já me deve ter ouvido dizer isso nos últimos anos: se pudesse ser pai, já seria mãe. Podem guardar as pedras, não estou a dizer que é fácil ser pai. Só estou a dizer que é MAIS fácil. Começa logo aqui: o pai pode fugir. Já eu, às vezes tenho frações de segundo em que vejo a barriga e penso “valha-me-nossa-senhora-o-que-é-que-eu-fui-fazer-à-minha-vida-é-como-é-que-isto-vai-sair?”. Mas cá estou.
Os pais também vão de licença (e têm outros desafios e preconceitos nesse exercício, que não desvalorizo, pelo menos se forem pais do século em que vivemos e não da idade da pedra), mas não vão ser olhados com condescendência logo que anunciam a nova no trabalho. Eles são campeões, elas “oh-não-já-estava-a-prever-isto-desde-que-a-contratei-em-idade-fértil”.
Os pais também vão ter de mudar o seu estilo de vida e passar noites em branco e conhecer um novo nível de cansaço (pelo menos se não estiverem presos no estereótipo ultrapassado com bigode farfalhudo que chega a casa e é tudo Maria-traz-me-uma-cerveja-que-a-bola-vai-começar) mas não ganham hemorróidas na gestação e bexigas soltas para o resto da vida no pós.
O tema é que antes de me meter nisso, eu repetia essa frase, convencida de que era verdade.
Mesmo sem dormir nada desde as 3h da manhã (em média) todas as noites desde as vinte semanas, com cãibras e dores nas ancas de não poder deitar-me da forma a que me habituei por 40 anos e com a agilidade de uma solha já frita com o ferro em baixo, mesmo sem conseguir cortar as unhas dos pés ou apanhar coisas do chão sem fazer exercício intensivo, acho que não trocava isto por nada.
Já estou com saudades de a ter dentro de mim, e ela ainda aqui estará por mais umas semanas jeitosas (ouviste?). Senti-la e vê-la mexer várias vezes ao dia, sabê-la protegida por obra minha, vestir-me a exibir orgulhosa uma barriguinha empinada, e - não posso menosprezar esta - poder lavar o cabelo só de 3 em 3 dias, porque nesta fase a oleosidade foi-se!
Ser pai, nalguns aspetos, até pode ser mais fácil. Mas digamos que pago com o corpo, a mente e o que mais for preciso, por esta honra de criar um ser humano dentro de mim.
Reservo-me o direito e continuar a dizer que se fosse pai, já era mãe, sempre que sentir desespero, ou que me perguntem pelo segundo filho - sim, já acontece.
Todas as segundas, às 8h, começa a tua semana com a medicação recomendada por médico nenhum. Um comprimido com efeito placebo, mas sem efeitos secundários, ou uns pílula que não foi dourada sobre o novo mundo que estou a descobrir.
Se conhecerem quem goste de tolices e reflexões inconsequentes, partilhem!
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