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Comprimido · Aug 17, 2026

Comprimido #160 - Desconectados

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Comprimido · Comprimido

muitas vezes havia uma desconexão entre o sentir e o fazer. Os sentimentos eram postos de lado. Para os homens, porque emoção “não é coisa de macho” (a não ser que seja raiva), para as mulheres porque o dever a cumprir (ser submissa, dona de casa, mãe) não deixava lugar para que desejos fossem mais do que devaneios.

(digo sempre que estou de bem com isso, mas Freud explicará porque o repito constantemente na escrita)

e cresci com uma geração em sintonia com o sentir. Não desde logo, não todos, não sempre. Mas bastante. Durante o meu tempo de adulta, sobretudo, normalizou-se (um pouco mais) a terapia, a partilha de sentimentos publicamente, a identidade de grupo forjada numa plataforma virtual com público infinito (a começar pelos blogs, a desaguar em todas as resides sociais à vossa escolha), a escrita de auto-ficção e memórias conquistou um lugar sem precedentes (dados tirados do meu rabo, consoante a minha perceção - porque é assim que se criam certezas hoje em dia, sem fact checking).

Ontem vi várias pessoas a partilharem um vídeo sobre algum tipo de tecnologia que, com suporte AI, lê as pistas do nosso corpo e nos devolve que tipo de emoção estávamos a sentir. Assim cria padrões que nos dizem, por exemplo, com que pessoas gostamos de passar o tempo. Precisamos disto?

Precisamos de uma pulseira ou relógio ou anel que usemos durante a noite, para sabermos se dormimos bem? A mim, atualmente, doem-me as ancas por ter de dormir de lado (quem não apanhou episódios de Sem Dourar a Pílula, pode começar por este, para rir) e acordo por causa disso quase de duas em duas horas. Acham que preciso de saber exatamente quantas horas dormi ou o meu “score” de sono? O que preciso é de uma sesta de manhã e outra à tarde!

A inteligência artificial é o que fizermos dela. Uma ferramenta, um assistente, um pseudo-amigo, um pseudo-psicólogo, um prestador de serviços, um pseudo-artista. Não há como voltar atrás, nem há porque querermos isso. Mas há uma curva de erros e acertos que estamos a fazer juntos para chegar ao ponto ótima da sua utilização (enquanto isso, os senhores ricos vão recolhendo os nossos dados e ganhando dinheiro com isso).

O melhor conselho que uma pessoa que não percebe nada disso vos pode dar (eu), é este: não deixem que qualquer tipo de tecnologia retira a vossa humanidade. A vossa capacidade de aprender, de errar, de criar e de sentir. Imperfeitos como somos, somos nós. É essa a beleza da coisa (a que chamamos vida).

Sintoma(s):

Preciso de um relógio conectado ao meu smartphone para saber como me sinto.

Receita:

Filme O meu primeiro beijo (1991), com Anna Chlumsky e Macauley Culkin. Está na Netflix.

Efeitos secundários:

Pensando de forma rápida é um dos primeiros filmes que me lembro que me fizeram chorar. Se é disso que precisam para se lembrar como sentir sentimentos (uma redundância propositada), escolhem este ou outro clássico que vos comova, antes de perguntarem a uma máquina como se sentem.

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Se conhecerem quem goste de tolices e reflexões inconsequentes, partilhem o comprimido!

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*Este link é de afiliado da Bertrand, lembrem-se que tenho uma filha para criar.

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