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Hit or Miss por Camila Yahn · Mar 31, 2026

O medo é inimigo da reinvenção

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A fadiga estética, onde tudo funciona, mas nada fica

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Bom dia! ☀️

Radar da semana

💡 O medo é inimigo da reinvenção

🐊 História do logo: Lacoste

🚫 Machosfera

🎬 Dois filmes pra ver essa semana

🎵 Uma música do ❤️

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Campanha da Misci Verão 26 / Foto: Hick Duarte Styling: Renata Correa

“O medo é o inimigo da reinvenção”.

Quem disse essa frase recentemente foi Carine Roitfeld, ex-editora histórica da Vogue Paris e nome que está por trás de algumas campanhas e editoriais mais icônicos e polêmicos dos anos 2000.

E olhando a moda hoje, é difícil não pensar que ela está certa. Nunca se produziu tanta imagem e, ao mesmo tempo, tão pouca surpresa. Hoje a gente vive num cenário dominado por performance, métricas e validação instantânea, então arriscar passou a ser um luxo. Mas talvez seja exatamente isso que esteja faltando: risco e coragem.

O receio de não performar nos números faz com que a gente escolha repetir o que funciona. Os feeds começam a se parecer. Até mesmo os desfiles. As campanhas e ensaios também. Viram variações de uma mesma fórmula.

Fazer bonito é até que fácil. E talvez seja exatamente aí que está o problema. Uma espécie de fadiga estética, onde tudo funciona, mas nada fica. Especialmente nesse mundo em que vivemos hoje, em que nossa atenção tem vida curta, o que faz você parar e olhar? O que faz seu olho brilhar? Você achar que nunca tinha visto aquilo antes? Quando eu vejo algo muito bom, me dá até um pouco de raiva por eu não ter tido aquela ideia ou não ter conseguido realiza-la. Mas é uma raiva - ou uma surpresa - que parte da beleza posta de um jeito novo.

Agora, com a inteligência artificial, essa cultura visual cada vez mais homogênea (tecnicamente correta, mas menos interessante) vai acelerar esse cenário do bonito e correto.

Isso não significa que não exista criatividade, beleza, surpresa e emoção na moda brasileira hoje. Pelo contrário. O BRASIL É F****! O que parece faltar é outra coisa: coragem.

Foto: Hick Duarte Styling: Renata Corea

Coragem para sustentar uma visão. Para sair da estética validada. Para criar algo que, num primeiro momento, talvez não funcione. Ou que talvez só mais pra frente as pessoas entendam. Algo lindo e especial, que grite a persona da marca, como essa campanha que a Misci soltou ano passado e que eu achei tão linda.

Em um mundo onde todo mundo tem acesso a referência, ferramenta e repertório, o que diferencia não é mais o gosto (ou o marketing). É a perspectiva.

E em um mundo obcecado por estética e conteúdo, a perspectiva, o ponto de vista, vira um luxo raro.

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História do Logo: Lacoste 🐊

O logotipo da Lacoste é um bom exemplo de como usar o principal símbolo de marca como um território criativo. Mas tem muita história antes de chegar nesse ponto: você sabe de onde vem o jacaré?

Em 1923, o tenista prodígio René Lacoste, conhecido por seu estilo agressivo nas quadras, estava em Boston para um torneio, quando parou em frente a uma loja, hipnotizado por uma mala de pele de crocodilo na vitrine. Brincando, ele disse ao capitão do seu time: “Se eu ganhar a partida, você tem que comprar essa mala para mim!”. Ele não ganhou, mas história vazou para a imprensa e um jornalista fez a conexão com o fato dele nunca desistir em quadra, assim como um crocodilo que não solta a presa. E o apelido vingou.

Alguns anos mais tarde, seu amigo e designer Robert George desenha um crocodilo para ser o símbolo de René, que imediatamente o manda bordar em seus blazers. Pouco tempo depois, a camisa polo é lançada, e a Lacoste torna-se a primeira marca a exibir um logotipo visível em uma peça de roupa. Para o tenista, o logo de crocodilo simbolizava persistência, precisão e elegância esportiva.

René Lacoste em 1933 / Foto: Reprodução Lacoste

O desenho original foi criado em 1927 e bordado pela primeira vez em 1933. Desde então, o símbolo passou por algumas alterações e evoluções normais para uma marca quase centenária, mas o interessante é que ele também é usado como um território criativo dentro da marca.

A Lacoste já fez edições especiais com crocodilos de cores variadas em ações comemorativas e colaborativas. Na época em que Christophe Lemar foi diretor criativo da marca, ele criou um logo prata, que hoje ainda aparece em coleções cápsula e peças de edição limitada, sendo usado para diferenciar linhas premium e fashion-forward dentro do portfólio Lacoste.

Em uma parceria com a Cruz Vermelha, o croco surge dentro de um coração; já em uma homenagem ao Djokovic, embaixador da marca, ele foi substituído por um bode, que em inglês chama-se GOAT (Greatest Of All Time); já na campanha Save Our Species, ele é trocado por espécies ameaçadas, como o condor da Califórnia e o tigre de Sumatra. Aí a Lacoste abre mão da própria identidade para falar de outra coisa, deixando o logo virar uma mensagem.

Em 2020, diversos artistas e ilustradores, em colaboração com a marca, revisitaram e reimaginaram o crocodilo verde em seus respectivos estilos.Essas iniciativas refletem a capacidade da marca de reinventar seus códigos, mantendo-se fiel ao legado de René Lacoste.

E recentemente, lançou essa versão florida, que eu achei linda. Voilà.

Um doc: Inside the Manosphere (Por Dentro da Machosfera)

Já aviso que o filme evoca dois sentimentos: ou vc passa raiva ou você incrédula. Muitas vezes os dois ao mesmo tempo.

Então por que ver?

Porque ele ajuda a entender uma lógica que, embora absurda, está cada vez mais presente. É algo que a gente precisa ver - mulheres e homens aliados - pois a chamada “manosfera” não é só um conjunto de fóruns obscuros, é um ecossistema de conteúdo que mostra um “modelo de sucesso” baseado em uma performance de masculinidade e ódio às mulheres.

E o pior: tem muito adolescente idolatrando esses caras. É um horror e desconfortável de assistir, e justamente por isso, importante.

E se ficar na cidade no feriado, vale ir ao cinema assistir:

A Graça, de Paolo Sorrentino

Nuremberg, de James Vanderbilt

Boa Páscoa 🐰

E pra encerrar 👋 💋

For Love, Lush

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