“‘A estação das águas moribundas’ é o inverno. ‘O fantasma da lebre de inverno’ é a neve, com seus flocos imprudentes. ‘O boi cinzento que bebeu toda a água do vale’ é a geada, que deixa atrás de si barcos furiosos presos." Chris Marker, Carta da Sibéria.
Dos vulcões sai o basalto, usado para as obras de aprimoramento urbano, que sobem camadas sobre o chão, porém não garantem a solidez do futuro. Dos vulcões se fazem os monólitos, monumentos minerais do sangramento da terra.
Inicio esta escrita pouco mais de uma semana antes de embarcar em uma viagem rumo ao hemisfério norte, num país onde o inverno impiedoso está fazendo nevar grandes acúmulos. Eles calculam as polegadas de precipitação e eu olho o aplicativo de previsão do tempo a cada hora para acompanhar.
Sendo de uma região muito quente, de um país tão quente como o Brasil, sempre mantive comigo uma aversão impassível ao frio. Minhas experiências com o frio são as poucas no interior de Goiás e no inverno paulistano. Todas eu detestei! No entanto, o desejo de conhecer a neve sempre esteve presente, assim como o desejo pelo mar.
Para quem cresceu no centro do Brasil, entre Goiás e Tocantins, neve e mar são dois marcadores importantes. São símbolos de posição social, ascensão econômica e presenças tão fortes enquanto se mostram distantes nas injeções culturais vindas dos Estados Unidos e do sudeste brasileiro. E aí, à medida que a ascensão econômica foi chegando para minha família, fui conhecendo cada vez mais pessoas que já haviam visto o mar e me contavam da água salgada que ardia no olho. Até que minha família parcelou um pacote de viagem para Natal-RN e, finalmente, enterrei os pés na areia de sal e os olhos no horizonte incansável de água.
Anos depois me mudei para uma cidade litorânea para conviver com umidade e história. São muitas as ruas de Salvador onde é possível ver o asfalto solidificado como lava resfriada sobre o que antes eram pedras. O chão da cidade comprova todos os dias os métodos da arqueologia, das camadas sobre camadas de história e, vira e mexe, é preciso escavar algum lugar para as infinitas obras urbanas e, então, lá embaixo, depois de tanta coisa sólida, estão monumentos, edifícios, cemitérios, louças. É na parca promessa da campanha política de construção do futuro (um futuro em construção civil), que aquilo que é ancestral se faz lembrar e se mostra em movimento. Tudo isso, na umidade do calor e da maresia.
Então, continuo esta escrita enquanto pouso sobre a grande ironia deste país onde chego: eles chamam de liberdade uma estátua! Eles insistem na própria história, nos lembram dela a todo momento, mas buscam mantê-la a todo custo: imóvel. Os monólitos são matéria-prima de cristais que produzem equipamentos de guerra. Vejo do avião o branco da neve entre calçadas e ruas, corpos d’água congelados, os esqueletos das árvores. É tudo tão bonito!
Minha expectativa por conhecer a neve fervilha nas inúmeras passagens por etapas de entrada no país. Vejo que, como país, eles ainda não decidiram que história contar sobre o momento de agora, o medo de agora. Ainda aguardo sete horas dentro do aeroporto de Nova York para então embarcar em direção ao destino final: a cidade onde Marcelo e eu iremos morar por seis meses. Tudo de branco que vejo é uma insinuação de neve até que ela se faz certeza no último avião: paisagens congeladas ainda vistas de cima, mas muito mais abundantes. E, ainda, mais transportes e, até agora, só vejo a neve em movimento. Na estrada é um dia bonito, de sol e frio. Neve brilha!
Chegamos exaustos na casa nova e tem neve na frente. Carregar malas sobre o gelo já me faz lembrar do aviso das pessoas: neve é desconforto. Meu ímpeto é largar as malas e dar pequenos pulinhos sobre a nuvem pousada remanescente dos dias frios que passaram antes de chegarmos. É bonito, mas está derretendo rapidamente com os dias, não a vi cair; só está ali, um resíduo impassível.
Este texto está sendo completado com o passar dos dias e, talvez por isso, vá fazer pouquíssimo sentido. Já são alguns dias e a neve acumulada, enquanto derrete, se torna um gelo perigosamente escorregadio nas ruas, tomando conta das calçadas. Todos os dias esse gelo muda, toma novos espaços, diminui de um lado e se prolonga de outro. Com o passar do tempo, vou conhecendo placas e rachaduras nas ruas, a cidade vai encontrando novas formas de contar sua história. Será que a neve que se acumula congela o tempo ou o fermenta como um vinagre? Para onde vai o tempo que ocorre enquanto a neve encobre o chão?
Num dia ameno ilhado pelos dias de inverno, faço aniversário. Vejo estações marcadas e a neve mais e mais derretida – segundo a previsão do tempo ela volta na semana que vem – como uma persistência da natureza em seu apelo: escrever memória é perseguir a impermanência e não a constância das estátuas.
“Portanto, bastava esperar e o próprio planeta encenava o funcionamento do tempo. Vi novamente o que havia sido minha janela. Vi emergir telhados e varandas familiares, os pontos de referência das caminhadas que eu fazia pela cidade todos os dias, até o penhasco onde eu havia conhecido as crianças.” Chris Marker, Sem Sol.
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