no último ciclo do (an)arqueologias do sensível, propus um caminho por reflexões acerca da filosofia da tecnologia, junto de outros dois membros do grupo, Adil Lepri e Felipe Borges. essa proposição surge de uma pesquisa em andamento que envolve memória, história e luz. a partir das leituras e do desejo de pensar curadoria e crítica em cinema, apresentei uma sessão de filmes e um texto curatorial fragmentado e em andamento. sem mais delongas:
Filmes:
Flame, 2018, de Sami Von Ingen. 15';
Pepper`s Ghost, 2013, de Stephen Broomer. 19';
Sunstone, 2018, de Filipa César. 35'.
Wasteland No. 1: Ardent, Verdant, de Jodie Mack (2017, 4m18s, 16mm, color, silent).
I
“Talvez diante do fogo enaltecido no apocalipse (e mesmo do fogo louvado na cozinha) seja preciso também reivindicar os direitos das cinzas. É a partir das cinzas que se pode fazer alguma anarqueologia."
Marcelo Ribeiro
A combustão do arquivo do cinema é o fogo material capaz de remontar a história a partir de cinzas que não são sobras da queima da película (que, em si, não gera cinzas), mas do que resta daquilo que a armazena. Um edifício e todos os seus aparatos de armazenamento e, possivelmente, conservação, levam em si a historicidade do que arquivam pelo modo como os tempos da natureza e os tempos políticos encontram-se ali.
Flame/Polte remonta frames do longa-metragem finlandês de 1937, Fallen Asleep When You’re Young, de Tuevo Tulio. O filme teve todas as suas cópias queimadas por um incêndio em 1959, porém uma sequência foi encontrada, em 2015, pela Cinemateca Francesa. Então, Sami Van Ingen reassume essa memória como um registro do encontro de tempos visível no arquivo que expõe os efeitos da combustão e do desgaste. O filme fornece à mansa condescendência do arquivo uma irascível maneira de realinhar as historicidades tecnológicas que produzem as lacunas de um mundo que se pretende construir memória através de registros.
II
"(...)Segundo Clarence, existe um sem-limites que aflora à superfície do presente, um tempo do sonho que se alimenta de cada fragmento de história que continuamos a nele agregar.”
Nastassja Martin
Todos os ciclos naturais levam à morte, mas são ciclos justamente porque morte é regeneração a partir da destruição. Por isso, a destruição descartada é como um fio sem ponto; a morte de arquivos não é uma morte e sim uma finalidade. A imagem escarificadora de campos de flores como promessa de um bucolismo puro, de resolução do que é natural, quando separada de símbolos da artificialidade, se aproxima da disputa política pelo vislumbre de uma harmonia ecológica, de uma promessa do comum.
A consciência do impacto da materialidade dos aparatos de registro e criação de memória não é inaugurada pelos meios digitais. A extração de minério para fabricação de smartphones possui em sua história a extração de minério para a produção de películas e câmeras. O volume de produção e a promessa facilitadora é anunciada pela Kodak em “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”.
A memória da natureza não é invisível e passiva, mas relacional e metamórfica. A inscrição da ferida em uma rocha pela exploração de minério é o início da inscrição que será registrada em um disco rígido; a inscrição de memória em um campo de flores é o prelúdio das histórias armazenadas em uma instituição de proteção e preservação de arquivos e contradições.
III
“O que o fresnel pensa?”
No teatro, o fresnel é o equipamento que torna visível, em foco, uma representação em um palco; no mar, o fresnel é lembrado como farol que guia embarcações como uma tecnologia de segurança. Antes do fresnel, o teatro era iluminado por velas e as ilhas, por fogo. O fogo inventou, desejou a luz. E então, em Sunstone, pergunta-se: “o que pensa o fresnel?”. O filme deixa confluir todas as reflexões acerca de tecnologia e política no comportamento da luz que extrapola sua dimensão fotoquímica e sua função de dar a ver e a reorienta como forma que vê.
O personagem de Sunstone afirma que “é necessário um filósofo dos faróis” enquanto é um trabalhador do farol. Sua biologia coincide intimamente com a mecânica abstrata do farol em seus toques, acionamentos e por meio do sopro. Seu trabalho é privado em um espaço alargado, ameaçado pelas promessas de avanços tecnológicos distanciados e que, ainda assim, contingenciam seu modo de viver e sua relação com a memória da própria cultura. Se a pergunta é o que pensa o fresnel, as respostas vêm da voz fresnel como ontologia trabalhador-trabalho.
A luz que rememora Alexandria foi auxílio inicial, não para segurança das embarcações, mas para seus saques, “essa era a ideia inicial dos faróis: fazer com que os navios naufragassem.” No entanto, toda narrativa histórica se compõe em figurações da verdade, disputadas entre o poder e o desejo da imagem. Os dispositivos de navegação são contingenciados às suas potencialidades políticas. A luz e os dispositivos de comunicação estão historicamente ligados entre si e juntamente ligados às histórias das guerras.
Enquanto os cabos, materialmente, produzem simbiose com a vida submarina, por eles passa a Cosmofobia como linguagem de produção de vidas artificializadas, passa a promessa de uma vida globalmente comum.
IV
"A maquinaria estava pronta. O corpo, dócil ou raivoso, estava preparado.
A ejaculação politicamente programada é a moeda desse novo controle molecular-informático"Paul B. Preciado
Pepper’s Ghost é um experimento de ilusão, atribuído a John Henry Pepper, utilizado em Exposições Universais. A mexicana Julia Pastrana, a “Mulher-macaco”, foi levada a exibições do mesmo tipo, em que eram expostas as novidades do invencionismo da época e coleções coloniais dos Zoológicos Humanos. Anos mais tarde, no Brasil, Pepper’s Ghost foi o efeito que inspirou a criação da atração que se popularizou nos parques de diversões de toda a América, a “mulher que se torna um gorila”, aqui primeiramente intitulada Monga.
No filme de Stephen Broomer, o efeito é explorado incessantemente e registrado em câmera enquanto os realizadores trocam películas transparentes e coloridas, abrem e fecham janelas, mudam a luz para transformar seus corpos. Ali, a agência dos sujeitos está em criação e altera todo o tempo qualquer anseio pelo encontro da verdade. No entanto, o efeito está ali, transformando corpos, sendo o seu próprio rastro histórico tecnológico.
No número da Monga, uma mulher trajada em biquínis, lingeries ou roupas muito curtas – frequentemente caracterizadas com estampas de leopardo ou ícones que remetem ao imaginário hegemônico acerca do continente africano – é narrada como originária da “longínqua África”. Ela faz poucos movimentos suaves enquanto seu corpo é exposto e a narração a descreve como em um estado de meditação para alcançar sua espécie de habilidade: tornar-se um gorila.
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