Cena clássica: conversa de madrugada, defesas apaziguadas pelo horário ou pelo sono, um flerte que finalmente sai do escuro. Entre alguns eu quero te XXX e eu quero que você me XXX, ele me manda um vídeo. É uma noite gostosa e macia de maio.
Mas, no dia seguinte, quando gravo um áudio brincando sobre o vídeo da noite anterior, o que recebo de volta é a seguinte mensagem: “Boa tarde. Já apaguei.” Seco. Protocolar. Quase burocrático. Mensagem que se enviaria a um desconhecido distante que trabalhou na mesma empresa que a gente dez anos atrás, e não a uma mulher que viu seu pau duro na noite anterior.
A frase reverbera na minha cabeça o dia inteiro. Uma espécie de ato falho, essa tentativa de apagar não apenas o vídeo, mas a noite em que o controle se perdeu por um curto período de tempo. Como se o problema não fosse a exposição do corpo, mas o fato de que ele havia deixado escapar um fragmento de intimidade que agora precisava ser rapidamente contido.
Situação que me fez sentir facilmente descartada por um homem? Sim. Triste? Com certeza. Mas este não é um texto sobre um cara em particular, mesmo porque tantos e tantos caras diferentes cabem aqui.
A questão é que, nos últimos meses, tenho sentido que homens são excelentes em desejar. Sabem ser convidativos, construir tensão, conduzir conversas elétricas madrugada adentro. O problema começa depois, quando o desejo deixa de ser apenas desejo e produz qualquer fagulha de intimidade entre duas pessoas. Me parece que homens são bons em desejar, mas péssimos em sustentar a vulnerabilidade que só o desejo é capaz de abrir. Depois da exposição, da troca, do breve colapso das defesas, vem a necessidade quase urgente de restaurar alguma ilusão de distanciamento ou controle. Enquanto isso, mulheres frequentemente ficam sozinhas elaborando o que aconteceu, tentando entender a mudança brusca de temperatura, racionalizando a frieza, sustentando emocionalmente um vínculo que o outro empurrou para debaixo do tapete só para conseguir recuperar a própria sensação de domínio.
Cena clássica número 2: ele me chama de “bebê” ou “minha linda”. Declara que certa música do Semisonic agora vai ser “a nossa música”. Se despede falando coisas carinhosas. Depois, passa três dias sumido, sem mandar mensagens. E reaparece, desértico, distante, outro homem.
Lembro que a psicanalista Paula Lubianchi escreveu em um post no Instagram (que, embora não tivesse nada a ver com esse assunto, tinha um pouco também): “o desejo masculino é covarde”. Acho que sim. Existe uma forma masculina de desejar profundamente atravessada pela necessidade de controlar o próprio desejo, não se deixar levar por ele, racionalizar/racionar os transbordamentos — e nunca, jamais, em hipótese alguma, se permitir qualquer nudez que vá além de um pau duro nas madrugadas insones.
Mais do que covarde, talvez esse desejo seja treinado para o controle. Um desejo permanentemente preocupado em não perder o eixo, que se policia a todo o momento e transforma qualquer impacto da intimidade em uma experiência que precisa ser domesticada. E talvez seja justamente por isso que o desejo masculino atua na contramão do próprio desejo: porque só consegue se aproximar do outro enquanto ainda acredita ser capaz de mantê-lo sob domínio.
Nós, mulheres, por outro lado, fomos historicamente empurradas para uma convivência muito mais íntima com aquilo que escapa ao controle. Habitamos há séculos o território do corpo exposto, da instabilidade, do risco, do indomesticável. Talvez por isso não nos assustemos tão facilmente diante do que não pode ser racionalizado. Nós, mulheres, desejamos sabendo que desejar é enfiar a mão inteira na boca do mistério sem garantia alguma de que ela não vá ser devorada. Mas seguimos colocando as mãos à disposição, o corpo inteiro até, e perdemos membros, e voltamos capengas, e ainda assim insistimos (talvez até demais) — porque, afinal, qual é a alternativa? Se tornar mais um cínico que abaixa as defesas à meia-noite, mas não suporta ver ou ser visto à luz do dia? Não me parece bom negócio.
O desejo masculino é confortável. Levantar muros, incorporar personas, não se permitir acessar como uma forma de permanecer inteiro: é cômodo. Mas que intimidade é essa que se constrói nos pequenos lapsos de disponibilidade? Que intimidade é essa que precisa ser colocada em pausa até que se retome o senso de controle? O que sabem os homens que ainda não aprenderam a se dissolver e insistem em conservar a própria firmeza a todo custo, mesmo quando isso significa a morte de trocas potencialmente transformadoras?
Ou, uma pergunta ainda mais importante: o que fazemos nós, mulheres, diante de uma forma de desejar tão blindada que o que nos sobra é um constante deserto afetivo? Pior: o que nos sobra é habitar esse deserto sozinhas e fazer verdadeiros milagres na tentativa de elaborar uma intimidade que se constrói de maneira entrecortada, falha, cheia de silêncios abruptos e sumiços injustificáveis. Quando os homens recuam e qualquer tentativa de vínculo fica suspensa, o que sobra além desse trabalho emocional solitário de permanecer elaborando o que eles sequer tiveram disposição para encarar?

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