[Cena 1]
Ele canta uma música para mim, aos berros, dentro do elevador. Eu saio, porque moro em um andar baixo nesse prédio, e ele continua cantando lá dentro. Conforme o elevador sobe, ouço a voz dele se afastando, ficando mais e mais fraca. É uma música romântica: nobody knows it, but you’ve got a secret smile, and you use it only for me. Tem qualquer coisa nesse gesto — de cantar aos berros um segredo — que me comove. A denúncia de um desejo nunca verbalizado: vontade indisfarçável de ser algo além de um sussurro. É preciso gritar pra que eu continue ouvindo. Mas, mesmo que ele grite, a distância se impõe. Do que vem dos últimos andares, não sou capaz de ouvir nada. Inúmeras camadas de separação.
[Cena 2]
Na gira, a Cigana da Estrada me ouve falar, aflita, que existe esse homem, e que eu gosto desse homem, e que gostar desse homem não é simples. Ela é categórica: larga ele agora. Insisto. Ela pergunta: por que ele? Tem tantos homens por aí. Mas é que eu gosto desse, Cigana. Ela me dá um gole de alguma bebida alcoólica e conclui sem meias palavras: esse homem nunca vai ser capaz de te acompanhar. Larga ele agora.
[Cena 3]
Ele pergunta “eu posso pelo menos explicar o meu lado da história?”. Deixo, falo, falo mais um pouco. Recebo um pedido de desculpas esquálido. Ele nunca chega a explicar o lado dele da história. A história morre de inanição. Preciso eu mesma decidir abandonar esse navio naufragado que por tanto tempo tentei salvar, ainda que a água já estivesse me alcançando o pescoço.
[Cena 4]
Ele chama a mulher distraidamente pelo apelido que costumava usar comigo. Não esboço reação nenhuma. Sou uma esfinge. Mas parece que algum entendimento ácido despenca sobre o meu estômago. Ele é uma estrutura sólida e imóvel. Ele escolhe o que é confortável. Ele é o tipo de pessoa que não faz movimentos bruscos. Nem sai de navios sem futuro.
[Cena 5]
Sonho com a enorme porta vermelha diante da escada. Sonho que ele tem coragem de atravessar essa porta e assumir a vontade antiga de não aceitar uma vida pequena. Sonho que, no escuro da escada, ele entende, finalmente, que não está morto ainda — e que é possível, afinal, não morrer tão cedo. Sonho com o carro conversível, o vento frio e eletrizante da noite, as horas diluídas em possibilidades infinitas, ele se agigantando dentro dele mesmo e eu pensando em como é bonito ver uma pessoa se tornar inteiramente ela, como é bonito ver a potência crescendo feito a aceleração de um carro que estava acostumado a andar a 60 quilômetros por hora e de repente descobre que consegue chegar a 150. Sonho que ele se autoriza a desejar, e o desejo é um pé deliciosamente afundado no acelerador.
[Cena 6]
Jogamos vôlei na quadra. Digo: Freud chamaria isso de sublimação. Freud abriria uma gargalhada vendo quão ridículos somos nós dois, aqui, fingindo que se trata apenas de uma partida de vôlei e não uma forma de camuflar vontades bem mais perigosas. Mas o caminho em que entramos é um caminho sem volta. Não é possível desver o que foi visto. A partir de certo ponto, não há mais retorno — e, nesse caminho sem volta, sou eu que termino bebendo uma cerveja sozinha enquanto ele sobe com duas garrafas para casa.
[Cena 7]
Saio de uma conversa com ele me sentindo atrofiada. Náusea, culpa & autopiedade. Eis aqui um homem gelatinoso, incapaz de sustentar uma decisão. Um homem que me perde por tão pouco que me pergunto se algum dia ele quis, de fato, me ganhar. O celular vibra: a mulher que amei dez anos atrás me escreve dizendo que ter sido apaixonada por mim marcou a vida dela. De repente, lembro que tenho ossos firmes, que eu, sim, consigo mexer as pernas.
[Cena 8]
O-amor-que-poderia-ter-existido agora definha no canto do quarto. O-homem-que-eu-poderia-ter-amado parece decidido a se desperdiçar. Redesenho meus limites, aceito que esse carro não chega sequer a 100. Quando volto sozinha à porta vermelha, já não sou mais quem era antes.
[Cena 9]
Amiga 1: “este homem está preso numa ratoeira. Mas você não precisa continuar aí com ele.” Amiga 2: “este homem É uma ratoeira. Sai daí agora.” Amiga 3: “sabe qual é a sua grande vingança? É que você é jovem, bonita e corajosa, tem à sua frente um futuro vivo, borbulhante de possibilidades, não é você que está condenada.” Ouço, respiro, aceito. A música do elevador se torna cada vez mais longínqua. Flertes se desdobram. Beijo outras bocas. Seguro nas mãos o tamanho da lealdade que sou capaz de produzir, o tamanho da entrega. Amo com facilidade, não aceito o pouco, encaro o arriscado com gosto — e sei que é essa a minha salvação.
Mais de 1 ano de ausência por aqui e, de repente, opa, um texto novo. Não posso prometer que voltei com a regularidade de antes, mas ando sentindo saudade desse espacinho e das tantas trocas bonitas que surgiram a partir dele.
Talvez eu mude o nome da newsletter como uma forma de inaugurar essa nova fase? Talvez eu arquive todos os textos antigos e tente fingir que essa página acabou de nascer, só pra sentir aquele gostinho de recomeço que me permite respirar em momentos claustrofóbicos? Talvez. Mas, por enquanto, se você passou tanto tempo sem receber e-mails meus que esqueceu completamente que newsletter é essa, aqui vai o arquivo com todas as edições já publicadas.
Espero que você continue me lendo. (E espero que eu continue escrevendo também.)
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