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Café com Alecrim · Apr 14, 2026

Literatura cronista

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Quarta aula do Panorama do Antigo Testamento: Um passeio pelos livros e seus contextos históricos

Hoje iniciamos o bloco da literatura cronista. Em meados do século XIX, acreditava-se que os Livros de Crônicas, Esdras e Neemias fossem uma única obra. As semelhanças no estilo redacional, linguagem e imaginário. Posteriormente, muitos manuscritos posicionavam Esdras e Neemias antes dos Livros das Crônicas.

Recentemente esta tese é descartada, passando a entender que os Livros de Crônicas perfazem uma unidade e Esdras e Neemias outra.

Mas... e as semelhanças? Se justificam pelo período em que foram escritos

Imagem gerada eletronicamente segundo comandos do autor utilizando o site Canva

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Literatura cronista: os livros de Crônicas

O título do Livro das Crônicas, no hebraico dibrehayyamim, pode ser traduzido como “memórias” ou “fato dos dias”. Na Septuaginta o título paralipómena pode ser traduzido como “coisas omitidas”. Omitidas de onde? Dos livros de Samuel e Reis. Seguindo a Septuaginta, as Bíblias colocam os Livros de Crônicas depois de Reis, já na Bíblia Hebraica, eles ficam após Esdras e Neemias.

A redação do livro é incerta. Pelo estilo e linguagem, situa-se entre o quarto e terceiro século antes de Cristo.

Os livros expõem a história desde Adão até o edito de Ciro. O cerne do relato está a legitimação da comunidade cultual de Jerusalém. Os Livros de Samuel e dos Reis são a fonte de pesquisa, levantando certa dúvida sobre os relatos que não constam dos demais.

O objetivo dos Livros é reinterpretar a história de Israel para sua época: a obediência a Deus, o louvor a Deus e a prática correta do culto em Jerusalém garantem a salvação de Israel. Sendo obedientes, Deus é misericordioso. Isso é válido para cada geração, sendo cada época responsável por ser obediente e experimentar a salvação de Deus. É aqui que temos uma ênfase no individualismo da obediência em contraste ao coletivismo, ainda que sem romper com a noção da fidelidade do povo em relação a Deus.

Literatura cronista: Esdras e Neemias

Os dois livros formavam uma única peça. Diferentemente de Samuel, Reis e Crônicas, Esdras e Neemias como temos hoje é fruto de uma divisão feita em 1448 na Bíblia Hebraica. Se olharmos a Septuaginta, encontraremos um terceiro livro de Esdras, possivelmente uma versão antiga de Esdras+Neemias. A Vulgata — tradução para o Latim — apresenta ainda um quarto livro de Esdras, composto por três escritos:

  • 4º Esdras: Apocalipse de Esdras;

  • 5º Esdras: Livro cristão de consolação à Igreja;

  • 6º Esdras: Apocalipse cristão.

O livro de Esdras e Neemias, como o conhecemos, é a única fonte bíblica canônica em que temos informações da época pós-exílica. Como todo texto, possuí uma tendência e aponta interesses de um grupo. No caso, dos que retornaram do exílio. No conflito com os samaritanos, em relação aos casamentos com estrangeiros e ao tratar dos conflitos econômicos conseguimos perceber a escolha.

No livro de Esdras encontramos trechos em aramaico, que, ainda que traduzidos, são mais antigos que os textos hebraicos.

Esdras e Neemias foram organizados como uma colcha de retalhos de diversos textos do século IV a.C, somados a materiais próprios. Temos listas, documentos, relatos de tradições como a de Zorobabel e Sesbazar, as memórias de Neemias e orações de arrependimento e confissão.

A linha do tempo, quando olhada como obras separadas, se entrelaçam. Vendo de forma conjunta, temos uma visão panorâmica da história a que se propôs contar no quando da tecitura do texto final.

A história se concentra nos dois personagens: Esdras (em aramaico “auxílio”) e Neemias (em hebraico “Javé consolou”). Com estes, outro personagem sempre se faz presente: o império Persa, apresentado como benevolente e seu imperador, Ciro, como instrumento da vontade de Javé para Israel.

Literatura cronista: Ester

Encerrando o bloco da literatura cronista, e também o chamado — pelos protestantes — bloco dos livros históricos, temos o livro de Ester. A Vulgata adiciona a este bloco histórico os livros de Judite, Tobias e os de Macabeus. Já na Bíblia Hebraica o livro de Ester se encontra entre os livros de Lamentações e Daniel, pertencendo ao bloco dos escritos.

Pertencente ao meguillot, era lido em festas, principalmente a festa do Purim.

O livro registra, em Ester 3.7 que: “Em abril, no décimo segundo ano do reinado de Xerxes, foram lançadas sortes (chamadas purim) na presença de Hamã, a fim de determinar o melhor dia e mês para executar o plano. A data sorteada foi 7 de março, quase um ano depois”. Lido assim, despretensiosamente, nos escapa uma verdade incômoda: a de que havia uma perseguição aos judeus sem motivo específico, simplesmente por serem judeus. Este é o primeiro testemunho registrado de tal perseguição.

A história acontece nos dias de Xerxes I, em V a.C. A composição do livro, no entanto, é mais recente, datando de III ou II a.C. Em 2 Macabeus 15.36 temos uma referência a uma celebração ao dia de Mordecai, o que nos leva a crer que, já nos séculos II e I a.C. se celebrava a Festa do Purim.

O livro apresenta a história de Ester, uma rainha judia na corte persa e sua atuação, ao lado de Mordecai, na salvação de judeus da perseguição sistemática em terras estrangeiras.

Ester nos mostra como era perigosa a vida dos judeus em terras estrangeiras e apresenta a fidelidade e apego à fé tradicional como meio de salvação.

Durante séculos se debateu a presença ou não de Ester na Bíblia. O principal argumento contrário diz que ele não cita o nome de Javé nem de El. O texto é uma novela ambientada na dispersão. É nesta narrativa que o leitor judeu dos séculos III a II a.C. é chamado à fidelidade em meio às perseguições.

No próximo texto estudaremos os livros do Ketubin. Seguimos juntos, aprendendo com Jesus a leveza de viver.

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