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Café com Alecrim · Apr 21, 2026

Ketubin — os escritos

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Quinta aula do Panorama do Antigo Testamento: Um passeio pelos livros e seus contextos históricos

Findado o bloco dos chamados livros históricos, com a Torá, a história deuteronomista e literatura cronista, temos o bloco dos escritos. É consenso entre os pesquisadores que esta foi a última parte da Bíblia Hebraica a ser concluída. No cânon das Bíblias cristãs, ele é aberto pelo livro de Jó

Imagem gerada eletronicamente segundo comandos do autor utilizando o site Canva

Ketubin — os escritos: Jó

O nome Jó é de origem acádica, língua falada na Assíria e Babilônia, e significa “Onde está o pai”. Na Bíblia Hebraica ele fica após os Salmos.

Sua composição é de data incerta. O que temos é um grande bloco central poético emoldurado por dois blocos narrativos, um introdutório e outro conclusivo.

É bem provável que o bloco central seja mais antigo e os blocos narrativos tenham sido acrescidos ao longo do tempo, finalizando sua redação já no período pós exílico.

É importante destacar no bloco introdutório os discursos de Elifaz, Bildade e Zofar e as respostas, que apresentam o caráter de Jó.

Na parte central do livro está o elogio à sabedoria divina, o discurso de Jó desafiando Deus, os discursos de Eliú e a resposta de Deus.

Dois versículos merecem destaque na narrativa de Jó. Quanto a mim, sei que meu Redentor vive // e que um dia, por fim, ele se levantará sobre a terra. Jó 19.25. Os cristãos interpretam esta fala de Jó como uma esperança da ressurreição. Como é único e todo o livro, faltam mais indícios ao longo da narrativa para acreditar que Jó confiava de fato na ressurreição, algo que é mais cristão que judeu, que reafirma a temporalidade e fragilidade da vida. Como é frágil o ser humano! // Sua vida é breve e cheia de aflições. Jó 14.1. Tal afirmação abre o capítulo 14, que derrama uma série de argumentos sobre a fragilidade humana.

Merece destaque, também, para nós, que na Babilônia e no Egito existem textos semelhantes ao de Jó. O problema do sofrimento sem sentido aparente era, e ainda é, um questionamento multicultural.

Ketubin — os escritos: Salmos

SEFER TeHILIM, assim chamado em hebraico, o Livro dos Salmos tem seu nome, em português, derivado da tradução grega BÍBLOS PSALMON, ou seja, Bíblia dos Saltérios. O Saltério é um instrumento grego de dez cordas.

Enquanto gênero poético, os Salmos não estão presentes apenas entre os 150 contidos no livro. Fora dele encontramos cânticos semelhantes.

Há uma diferença entre o Livro dos Salmos nas Bíblias Católicas e nas Bíblias Protestantes. Isso se dá por conta da origem da numeração. Enquanto os protestantes usam a numeração da Bíblia Hebraica, os Católicos seguem a Septuaginta, que fazem dos Salmos 9 e 10 um só salmo, bem como os 114 e 115, mas dividem os Salmos 116 e 147 em dois, restabelecendo a numeração. Se você tiver uma Bíblia Católica mais recente, como Jerusalém ou Pastoral, verá que eles colocam o número referente à Septuaginta entre parênteses.

E o salmo a mais, 151, na Bíblia Católica?

Eles são frutos de uma coletânea de 14 odes, considerado apócrifos e não mais presentes nas bíblias católicas modernas.

É conhecida de todos a divisão dos Salmos em cinco grandes livros, no entanto, queremos propor aqui uma divisão diferente do livro, por indicação de autoria, ou pertencimento. Antes de apresentar tal esboço, é importante pontuar que, ao dizer que um Salmo é de Davi, por exemplo, não significa que ele necessariamente de autoria davídica, mas sim que pertence à coleção de Davi, que pode ter sido composta, ou adquirida por ele. Com base n autoria e/ou pertencimento, propomos o seguinte esboço

· Salmos de Davi: 3-41; 51-72; 86; 108-110; 138-145

· Salmos de Corá: 42-49; 84+85; 87-88

· Salmos de Asafe: 50+73-83

· Salmos da realeza de YHWH: (47+) 93-99

· O grande Hallel (Salmos de louvor): 111-118

· Cantos de subida/Salmos de peregrinação: 120-134

· O pequeno Hallel: 146-150

· Salmos eloístas: 42-83*

Merece destaque, para melhor entendimento do Livro como um todo, o fato de que ele é aberto por um salmo de sabedoria, que observa a vida do indivíduo à luz da Torá. E se encerra o livro com um Salmo de Aleluia — uma doxologia — louvor a Deus como centro da vida comunitária de Israel.

Ketubin — os escritos: Provérbios

O livro de Provérbios, cujo nome vem do latim Proverbium, foi colocado pela Septuaginta e demais versões delas dependentes, logo após o livro dos Salmos. A ideia era agrupar os livros de autoria de Salomão. No entanto, na Bíblia Hebraica, Provérbios está situado após o livro de Jó. Por quê? Porque é improvável que os provérbios sejam de autoria salomônica. O livro foi atribuído a Salomão por conta das referências à sua sabedoria, mas não temos como comprovar sua autoria.

Dito isto, é muito importante termos em mente que o livro dos Provérbios é um importante registro da sabedoria israelita, compondo uma coletânea de diferentes épocas e gêneros literários.

Diferente de Jó ou Eclesiastes, o livro não trata de uma crise em torno da sabedoria, antes, reúne normas sapienciais tendo como certeza que a observância das mesmas fará com que a pessoa leve uma vida correta e aceitável na presença de seus semelhantes e de Javé.

A atualidade pedagógica dos Provérbios pode ser provada no fato de que muitos deles são transmitidos até hoje. “Quem cava uma cova para outros, nela cairá” 26.27; “A soberba precede a ruína” (16.18) e “Segundo me fez, assim lhe farei” (24.29).

Por outro lado, constata-se que muito do livro diz respeito a uma época passada, e são de difícil aplicação no mundo atual. Apenas para exemplificar, se você aplicar Provérbios 29.17 hoje, poderá perder a guarda do seu filho. Sem contar outros tantos provérbios que ignoram o direito ao ensino e educação para as mulheres, dentre outros temas.

Por ser uma coletânea de ensinos, fica difícil determinar a data de escrita e conclusão do livro. As divergências culturais com o nosso tempo e falta de uma condição básica de datação, no entanto, não podem ser argumentos para ignorarmos a sabedoria e princípios contidos nesta coletânea.

Ketubin — os escritos: Coélet

Assim como Provérbios, o Eclesiastes teve sua autoria atribuída a Salomão, embora não se tenha nenhum registro acerca da autoria do livro.

O autor é designado por um substantivo: COÉLET, que significa coletor de sentenças, pregador, orador público, orador em uma assembleia. A Septuaginta traduziu como Eclesiastes. O livro faz parte do já mencionado em nossa jornada, meguillot. É o rolo da festa dos Tabernáculos, quando se expressa a alegria pela vida e pela Torá.

O livro surgiu por volta do século IV a.C., o que é corroborado pela linguagem e temática abordados nele. Por ser um livro de sabedoria, encontramos nele a crise da sabedoria tradicional do quarto século antes de Cristo contraposta e dialogada com a filosofia helenista.

É difícil propor um esboço do livro. Ele quase que uma junção de pensamentos e ideias que, em contraponto com a sabedoria tradicional, nem sequer se relacionam.

O que podemos propor é que todo o livro seja lido em contraste aos capítulos 1 e 2. A conclusão do autor, que fora educado na sabedoria tradicional, é expressa no versículo dois do capítulo primeiro: “Nada faz sentido”, diz o Mestre. “Nada faz o menor sentido.” ou, na tradução ecumênica da Bíblia: Vaidade das vaidades, diz o Qohélet, vaidade das vaidades, tudo é vaidade. O termo aqui traduzido por vaidade, no original significa sopro, brisa, hálito, simbolizando a transitoriedade.

Um tema pertinente do livro é a morte. Para o Coélet, a morte é o fim definitivo da vida e, portanto, os breves dias devem ser aproveitados. Não parece haver uma esperança na ressurreição.

É interessante notar que um livro tão pé no chão tenha entrado no cânon hebraico, principalmente pela falta de referências diretas à temática da Torá. Ainda assim, o epílogo, capítulo 12, traz o leitor à realidade da relação com Deus: Deus nos julgará por todos os nossos atos, incluindo o que fazemos em segredo, seja o bem, seja o mal.

Ketubin — os escritos: Cantares

SIR HASSIRIM, Cantares ou Cântico dos Cânticos é um livro cuja autoria também é atribuída a Salomão. Também faz parte do já menciona-do meguillot, os rolos festivos, lido na festa da Páscoa.

Sua aceitação no cânon foi, durante muito tempo, controversa. No fim, aceitou-se o livro por fazer a alegoria da relação entre homem e mulher com a relação entre Deus e Israel. A Igreja cristã também interpretou assim, fazendo a alegoria da relação entre Cristo e a Igreja, apesar do Novo Testamento não citar o livro.

O livro é uma coleção de cerca de trinta canções de amor, agrupadas de forma a estabelecer um diálogo entre uma mulher e um homem. Interessante anotar que a mulher é o centro desta coletânea, ela abre e fecha o livro, é ela que toma a iniciativa para o amor. Alguns intérpretes admitem que se trata de um monólogo da mulher, que cita a fala do amado.

A fala dirige-se às filhas de Jerusalém. às quais são relatadas as experiências da relação amorosa. A pesquisa bíblica tem como consenso que as canções foram compostas para serem cantadas nas festividades de casamento.

Uma curiosidade é que é difícil determinar a data de composição do livro. O que se tem de registro é que sua conclusão se deu no pós-exílio.

O livro deve ser lido na perspectiva em que foi escrito. Qualquer interpretação alegórica acerca do livro tira dele sua originalidade e objetivo. O texto é a relação entre uma mulher e um homem. Os moralismos advindos de uma visão centrada na masculinidade tendem a traduzir e interpretar textos mais explícitos com alegorias e figuras de linguagem. Quando você estuda a fundo Cantares, percebe que a relação sexual faz parte da criação e da beleza da vida no casamento, o que é muito mais belo e honesto que forçar uma alegoria impossível de ser conciliada com a realidade do texto.

No próximo texto estudaremos os livros Proféticos. Seguimos juntos, aprendendo com Jesus a leveza de viver.

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