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Café com Alecrim · Apr 7, 2026

História deuteronomista

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Terceira aula do Panorama do Antigo Testamento: Um passeio pelos livros e seus contextos históricos

Josué

Ao fim da torá, abre-se um bloco que a tradição judaica chama “Profetas Anteriores”.

A academia chama “Obra Historiográfica Deuteronomista” e entrelaça este bloco com o livro de Deuteronômio, por terem uma teologia própria: as gerações observaram ou não a vontade de Javé?

Imagem gerada eletronicamente segundo comandos do autor utilizando o site Canva

Os capítulos 1-12 contam como a terra prometida foi conquistada. Após a travessia do Jordão, a celebração da chegada à terra, acontece a conquista de Jericó. Ao longo deste trecho, a conquista da terra vai sendo mostrada de forma escalonada e lógica, cidade por cidade.

São destaques deste trecho a vocação de Josué (1), os espias e Raabe (2), Leitura da Lei (8) e a retrospectiva histórica (12)

Nos capítulos 13–22 temos a divisão das terras entre as tribos. A distribuição das terras fica assim estabelecida:

  • Transjordânia: Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés.

  • Ao sul: Simeão, Judá e Benjamim.

  • Ao centro: Efraim e metade e Manassés.

  • Ao norte: Dã, Zebulom, Issacar, Aser e Naftali.

Tradicionalmente, as tribos remontam aos 12 filhos de Jacó: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulom, Dã, Naftali, Gade, Aser, José, Benjamin. Na distribuição da terra (13–22) e no acampamento (Nm 2), não aparece a tribo de Levi. De acordo com Nm 3, os levitas são considerados o resgate dos primogênitos israelitas, por isso não têm a propriedade da terra.

As tribos de Efraim e Manassés recebem herança, mas não José, restabelecendo-se a liga das doze tribos. Esse fato é antecipado por Gn 48, onde Jacó abençoa os dois filhos de José. Em 16–17 Efraim e Manassés são considerados tribos com direito à herança. Na benção de Moisés (Dt 33), José está lista. Em Nm 2, somente Efraim e Manassés. A tradição não é uniforme, o que nos leva a pensar: o número de 12 tribos é um fato ou uma construção histórica posterior? Não temos resposta.

História deuteronomista: Juízes

Após a conquista da terra, narrada em Josué, e antes da monarquia, existe um vasto período histórico narrado no livro de Juízes.

A terra conquistada precisa ser protegida. Quem lidera estes momentos de defesa são os chamados Juízes. A tradição os divide em dois grupos: maiores e menores

  • Juízes maiores: Otniel, Eúde, Sangar, Débora, Baraque, Gideão, Jefté, Sansão.

  • Juízes menores: Tola, Jair, Ibsã, Elom, Abdom.

A exposição da história segue o esquema deuteronomista: a infidelidade do povo é a causa da invasão dos inimigos. Acoado, o povo se arrepende e clama a Javé, que levanta um juiz — fiel a Javé — e livra seu povo dos inimigos.

Os dois primeiros capítulos preparam o cenário para a história dos Juízes. Neles, temos a conclusão da tomada da terra, a morte de Josué, e a repreensão do Anjo do Senhor ao povo em Boquim: Agora, portanto declaro que não expulsarei mais os povos que habitam em sua terra. Eles serão como espinhos em suas costas, e os deuses deles serão uma armadilha para vocês. Juízes 2.3

O livro de Juízes reserva os quatro últimos capítulos para relatar acontecimentos terríveis da época. Atrocidades justificadas pela ausência de um rei em Israel.

Na primeira narrativa, os da tribo de Dã roubam a imagem divina de Mica, o efraimita, e fundam a cidade de Dã. Na segunda, homens da tribo de Benjamim cometem um crime brutal, e os demais da tribo se recusam entregá-los para justiça. Em resposta, a tribo de Benjamim é quase exterminada, o que leva outras tribos a providenciar mulheres para que a descendência da tribo seja garantida.

História deuteronomista: Rute

Ambientado no tempo dos juízes, o livro de Rute é colocado pela Septuaginta e a Vulgata entre o livro de Juízes e os livros de Samuel. Apesar de ambientado neste período, o livro não possui afinidades com o de Juízes.

A tradição judaica o situa no megillot, o conjunto dos cinco rolos lidos nas festas judaicas. O de Rute é lido na Festa das Semanas. Talvez você conheça como Festa da Colheita, o período em que se reme-mora o nascimento e a morte do rei Davi.

Tanto a colheita como a relação genealógica com a casa de Davi têm papel importante no livro.

O livro, escrito no gênero de novela, possuí como mão condutora a mão invisível de Deus, que guia a protagonista rumo ao sucesso.

Como curiosidade, o gênero novela costuma atribuir nomes adjetiva-dos aos personagens e estabelece uma relação interessante de conflito de gênero logo na abertura do livro.

  • Malom = enfermidade

  • Quiliom = tísica (definhar)

  • Rute = a graciosa

  • Noemi = a bela

O pano de fundo é formado por dois aspectos que estão estreitamente ligados à lei judaica: o levirato e a herança de propriedade imóvel. Sendo a terra dada por Deus, ela deve permanecer com a família que a recebeu. Não se vende, nem se negocia. Quando não há herdeiro direto, a família ampliada é acionada. Tal pessoa recebe o nome de “resgatador”, que deve cumprir a lei do levirato e casar-se com Rute, para assim gerar descendência ao falecido e dar continuidade a seu nome.

Sendo uma novela, o livro pode ser esboçado assim (BKJ de Estudo):

  • Cena 1: Moabe (1)

  • Cena 2: Campos de Belém (2)

  • Cena 3: A eira de Boaz (3)

  • Cena 4: Cidade de Belém (4)

História deuteronomista: os livros de Samuel

Os dois livros formavam uma única peça. Na Septuaginta Samuel e Reis foram separados em dois livros.

Os livros de Samuel descrevem a monarquia desde sua implementação até o reinado de Davi, perfazendo 50 anos de história. São três personagens que direcionam esta narrativa:

  • Samuel, profeta e último juiz

  • Saul, rei ou governante de transição?

  • Davi, o rei segundo o coração de Javé

A história narrada nos livros gira em torno da promessa feita a Davi de que sua dinastia permaneceria no poder.

No centro dos livros está 2 Samuel 7 com a profecia de Natã acerca da perenidade da dinastia davídica.

Desde o início a narrativa aponta para a profecia de Natã. Samuel nasceu em Silo, onde estava a Arca da Aliança, sendo posteriormente levada para Jerusalém, onde Davi deseja construir uma casa para a Arca. No final de 2 Samuel temos a indicação do local do Templo.

A história de Davi possuí três grandes eixos de leitura:

  • A ascensão: 1Sm 16—2Sm 5

  • A história da arca: 1Sm 4–6— 2Sm6

  • Sucessão: 2Sm 9—1Rs 2

A história de Davi se estende até o segundo capítulo de 1 Reis, onde está registrada sua morte.

Dentro destes eixos estão as histórias que foram sendo lapidadas ao longo dos séculos e finalizadas posteriormente, dentre as quais destacamos:

  • Davi e Golias: 1Sm 17

  • Unção como Rei: 2Sm 2 e 5

  • Aliança: 2Sm 7

  • Bate-Seba: 2Sm 11–12

  • Tamar violentada: 2Sm 13

  • O censo: 2Sm 24

História deuteronomista: os livros dos Reis

Os dois livros formavam uma única peça. Na Septuaginta Samuel e Reis foram separados em dois livros.

Os livros narram os reinados até o exílio. Enquanto os livros de Samuel perfazem 50 anos de história, os livros dos Reis abrangem quatro séculos.

O centro da narrativa está no Reino do Sul. As ocorrências do Reino do Norte são mencionadas de passagem, ainda que de suma importância histórica.

Curiosamente os livros mencionam obras que se perderam no tempo:

  • Os demais acontecimentos do reinado de Salomão, incluindo todos os seus feitos e sua sabedoria, estão registrados no Livro dos Atos de Salomão. 1Rs 11.41

  • Os demais acontecimentos do reinado de Jeroboão, as guerras e o modo como governou, estão registrados no Livro da História dos Reis de Israel. 1Rs 14.19

  • Os demais acontecimentos do reinado de Roboão e tudo que ele fez estão registrados no Livro da História dos Reis de Judá. 1Rs 14.29

Embora chamado Livros dos Reis, os personagens centrais são os profetas. 1Reis 13, 14 e 16 falam de anúncios proféticos de juízos. Além destes, temos as jornadas de Elias e Eliseu, que vão de 1Reis 1 a 2 Reis 9.

Por que relatar tanta ação profética em meio ao relato da vida dos reis? Os historiadores deuteronomistas estão apontando para os leitores como Javé corrige os rumos e age com justiça, mesmo quando os reis estão distantes dos preceitos de Deus.

Uma recomendação que faço é você ler os Livros dos Reis com um manual de História de Israel ao lado, principalmente com um panorama do período abrangido pelos livros e uma lista de reis, para não se perder nos relatos.

Encerramos aqui a jornada pela história deuteronomista e, no próximo encontro, entramos na literatura cronista

No próximo texto estudaremos os livros da Literatura Cronista. Seguimos juntos, aprendendo com Jesus a leveza de viver.

Read on cafecomalecrim.substack.com

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