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Cadê Anderson Lopes · Feb 2, 2024

Uma sociedade hiper-assustada

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Posso te contar uma besteira, mas que eu acho super interessante? Então, essa edição da newsletter foi escrita em quatro países. Comecei no Vietnã, depois na Tailândia, escrevi um pouco em Portugal e agora tô concluindo aqui no Brasil.

Poderia ter sido em cinco pois nos últimos 05 dias também passamos pela Turquia, só que lá, foi uma correria arretada e quase perdemos o voo. No final deu tudo certo, mas tenso, nem pensei em nada naquelas horas em Istambul.

Meu processo de escrita é contínuo e as ideias vêm muito por sacadas. Pensamentos que me vêm na cabeça de forma parcelada, em pinga pinga, muitas vezes do nada.

Eu queria conseguir escrever como Luísa. Eu admiro muito a habilidade que Ela tem de sentar no computador, começar a produzir e terminar um texto incrível em poucas horas. Às vezes dois. Às vezes três no mesmo dia. Ela é foda! 

No meu caso, fico dias pensando naquele assunto. Vou e venho, digerindo. Construindo e desconstruindo. Indo e vindo. Me contradigo, às vezes na mesma semana. Às vezes mudo de ideia no mesmo dia.

Gosto desse processo (desse passeio longo dentro da minha cabeça), mas reconheço que é um processo lento. Que é nada comercial. Que pode facilmente ser confundido com procrastinação e talvez possa parecer pouco profissional se o texto tem prazo para ser entregue.

Mas então, como falei, as ideias vêm do nada. Às vezes andando na rua, num transporte público, etc… e tem uma situação nova que vem se repetindo nos últimos meses.

Tem momentos que a ideia vem quando estou de conchinha com Luísa, e se ela está dormindo, óbvio que não me mexo. Tento ficar com a ideia na cabeça, sem esquecer, até ela acordar, para só então escrever e salvar no celular. Muitas vezes durmo e esqueço, mas aos poucos tô ficando bom no exercício de guardar em alguma pasta do meu HD cerebral.

Aí tu deve ta pensando: “que conversa chata arretada”,

Mas segura aí que o assunto da newsletter é outro.

—-

Sabe aquele momento que a aeronave está pousando e tá todo mundo tenso, disfarçando que não tá? Nos voos com muitas turbulências, esse momento do pouso é mais tenso ainda, né?

Ontem quando estava chegando em Recife aconteceu algo bonito. Algo que ainda não tinha visto depois de tantos voos nos últimos meses.

Quando a aeronave tocou o solo e estabilizou, diminuindo bruscamente a velocidade, as pessoas aplaudiram. Uma salva de palmas para o pouso perfeito, para o piloto, talvez para a equipe.

Será que consideraram tal manobra uma arte?

Talvez seja mesmo.

No primeiro momento eu pensei:

  1. Povo pernambucano é foda, né? Humilde pra caraio. Mil voos, Europa, Ásia, os caraio tudo e ninguém aplaude. Chega aqui no nordeste parece que tu tá numa festa num teatro, mas era só um voo. 

Aplausos de alívio. 

Aplausos de  agradecimento.

De confissão do nervosismo.

Pensei: Todo mundo tem medo, mas só o nordestino que aplaude o piloto.

Só que, aí, eu lembrei que não é exatamente o pernambucano que é humilde, pois gente cuzona tem em tudo que é canto. 

Pernambuco também tem cuzão. No Brasil, todo lugar que tem classe média, tem cuzão. Se tem rico, então… e Pernambuco não é diferente. Me veio até uns gatilhos do tempo que morei aqui. 

  1. Enquanto o povo com cara de povo aplaudia, tinha um povo com cara de classe média olhando com um sorrisinho no canto da boca. Um sorrisinho de deboche, de soberba, sabe? Tipo, olha lá os pobres, e sorri como uma tentativa de se diferenciar daqueles que aparentemente voaram de avião pela primeira vez.

Isso nem poderia ser chamado de luta de classes, porque só havia uma classe dentro daquela aeronave. Ali é tudo liso igual. Inclusive eu. Rico mesmo viaja na classe executiva ou na primeira classe. Então, quem tá ali na classe econômica, mesmo num voo internacional, tá tudo no mesmo barco.

Eu poderia dizer que sendo assim, ali, ninguém é melhor que ninguém, mas num avião onde geral tava com o bumbum travado de medo onde não passava nem sinal de wifi, quem aplaude está muito afrente de quem debocha. O povo que aplaude é bem melhor, mais bonito e tem mais verdade.

Usar um moletom da GAP, e não ter dinheiro pra viajar de executiva, tu só é um pobre que tenta se diferenciar de outros pobres. Provavelmente gastando o que não tem para tentar não parecer pobre.

Isso daria uma newsletter inteira falando sobre esse conflito de classe, mas que nem é de classe, por se tratar economicamente de um mesmo grupo social.

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  1. E o terceiro ponto é justamente o assunto que vim pensando a semana inteira.

Observando a vida dos meus amigos, vejo que tá todo mundo com medo. Vivemos numa sociedade hiper-assustada e os medos são os mais diversos. Medo da violência nas cidades, de algum animal, de perder o emprego, de perder pessoas queridas, são tantos.

A grande onda é que a maioria das pessoas esconde isso. não fala sobre. Não fala porque tem que ser forte. 

Demonstrar fraqueza é coisa de homem não. Pressão arretada, né?

Aí tu puxa para as mulheres. Se vê muito discurso de que ela tem que ser forte, guerreira, e dar conta de tudo, principalmente no campo profissional.

E a gente comeu esse reggae, e graças também a isso, tá todo mundo fudido da saúde mental.

Uma das coisas mais bonitas do meu encontro com Luísa, e da relação gostosa que estamos vivendo, é que estamos sempre atentos para acolher os medos do outro e estamos juntos nos momentos que a cabeça do outro está bagunçada. 

Vou te explicar com uma história rapidinha.

Nesses meses vivendo no sudeste asiatico eu destravei um medo novo. Agora tenho medo de macaco. Os motivos te conto em uma outra, mas a real é que se eu vejo um macaco eu já fico nervoso. E se eu vejo muitos macacos eu fico suando frio, numa tensão mais perturbadora ainda.

Ah, tenho medo de cachorros também.

Já Luísa tem medo de voos com turbulência. Não é sempre, mas às vezes bate. E ela sofre com isso da mesma forma que eu sofro com os macacos.

Quando um macaco aparece, não quer dizer que Luísa vá brigar com um para me defender. Talvez até vá, mas não é sobre isso.

A habilidade e porte físico dela não devem ser muito diferentes dos meus no quesito espantar ou se defender de macacos, mas a onda é o acolhimento.

Em alguns voos, por exemplo, é como se Luísa tivesse a certeza que o avião fosse cair. Como pra mim isso é algo sossegado, eu acolho. Seguro a mão. tento acalmar, distrair, e oferecer um ambiente de segurança emocional.

Acolher o medo do outro como quem diz estou aqui, contigo, do teu lado.

Naquele momento de sofrimento mental, porque medo é isso né? Sofrimento mental.

Neste momento o acolhimento é o melhor paliativo.

Sabemos que, por conta do medo, a cabeça acaba criando os piores cenários, os mais catastróficos, pois medos irracionais e ansiedade costumam caminhar bem juntinhos.

Além desse acolhimento mútuo, tem muita beleza também em não julgar e não ridicularizar o medo do outro.

Podemos ser quem nós somos, ter os medos que temos e nos amamos do jeito que somos. Que sorte!

Para um homem nordestino demostrar medo, é foda, né?

Mas então, a novidade é que perdi o medo de confessar meus medos. Perdi o medo de falar abertamente sobre isso. 

Com tudo que o machismo fez na formação das crianças e adolescentes, principalmente no nordeste do brasil onde o cabra macho tem que ser forte, valente, não pode chorar e tem que cuidar da família; se livrar da vergonha de mostrar fragilidade é uma vitória e tanto.

Tô feliz.

Acredito que tá tudo bem, mulher defender homem.

To feliz nesse confessar meus medos. Confessar como quem aplaude um pouso perfeito. Como quem aplaude um piloto que fez um pouso em segurança.

O que pra mim era motivo de vergonha, hoje é motivo de orgulho e o orgulho de ser acolhido hoje, ultrapassa o qualquer medo de me mostrar vulnerável. 

___

E oh…

Sabe aquele emaranhado de ideias que eu comentei, lá no início do texto? Pois é isso aqui. Esse emaranhado mesmo. Indo e vindo. Se tu ficou até aqui, me ajudando a desenrolar desse fio, te agradeço muito

Um grande abraço.

Que teu carnaval seja lindo

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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