Eu não sei se tu que ta me lendo aqui, em algum momento da vida já sofreu algum tipo de bullying.
Tá, talvez o teu caso não seja exatamente um bullying naquele nível de perseguição sistemática e reincidente que sabemos que é comum na maioria das escolas. Mas posso imaginar que, se você for uma mulher, ou se for uma pessoa negra, uma pessoa gorda, ou tiver qualquer corpo que não esteja no padrão homem hetero branco, certamente essa diferença já foi assunto junto com sorrisos, críticas ou gozação, de algum coleguinha da escola, do trabalho, de amigos, inimigos ou até mesmo de pessoas da família.
Da familia é foda, né não?
Teu cabelo, teu peso, tua pele, tua origem, tuas escolhas. Alguém já te apontou o dedo e esse dedo apontado, possivelmente, deixou uma noia bem grande na tua cabeça.
Estou certo?
Espero que não.
Mas se tu tá nessa barco, então nós temos isso em comum. A maioria das pessoas tem isso em comum. E certamente isso deve estar no top five das questões levadas a sessões de terapia com psicólogos de todas as partes desse mundo.
Tô certo?
Espero que não.
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Semana passada Lula sancionou a lei 14.811, que criminaliza o Bullying e o Cyberbullying. Projeto de lei de 2021 que foi aprovado pela câmara e pelo senado no final do ano passado.
A inclusão desses crimes no código penal dá uma melhorada, e talvez um pouco mais de segurança não só para quem é criança e adolescente hoje. Pelo menos é o que se espera.
Seria massa se tivéssemos avanços como este no nosso tempo, né? Mas que bom que estamos ampliando esses tipos de debate político para construir uma sociedade melhor.
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Uma criança negra em uma escola particular em Recife. A única da sua sala. Uma das poucas de todo o colégio.
“La vem o negão, cheio de paixão…” Era assim que eu era recebido na escola pelos meus colegas. Eu sentia vergonha.
Acredito que meus colegas não sabiam o que estavam fazendo quando cantavam esse refrão da música de pagode que foi sucesso na década de 90. Não era num tom de gozação. Eles me abraçavam, já mudaram de assunto e começamos a brincar. Era como uma saudação sempre que eu chegava..
Mas eu sentia vergonha.
A real é que era uma discriminação por eu ser o diferente naquele espaço..
Cinco, seis crianças cantando juntas enquanto eu caminhava. A brincadeira carinhosa daquela época, mostrava para todos que estavam em volta que eu era diferente.
Eu só queria passar despercebido.
Aquilo me fez uma criança tímida, sem auto estima, reclusa, que gostava de brincar sozinha. Que se divertia assim e se sentia segura assim.
O processo de sociabilidade do Anderson criança foi impactado demais por esse tipo de discriminação. Mas também por vários outros, mais pesados, numa época em que as pessoas pretas da televisão eram Tião Macalé (Ih, nojento!!), Cirilo da novela Carrossel, Vera Verão numa época onde isso ainda era motivo de piada, e Mussum, personagem dos Trapalhões que sempre era diminuído da forma mais racista pelo personagem feito por Renato Aragão, e vivia sempre bêbado reforçando os estereótipos negativos, assim como acontecia em todas novelas e programas de humor da época.
Minha diversão era ler, e minha melhor companhia era a Turma da Mônica. Eu lia cerca de 20 gibis por mês. Ficava dentro da minha cabeça, com a minha imaginação e isso formou o Anderson adulto. Tímido e reservado e com vários medos e inseguranças.
Hoje em dia eu adoro ficar dentro da minha cabeça. O que Luísa, minha companheira brinca, dizendo carinhosamente que estou na Andersonlândia.
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Eu e Luísa decidimos passar o natal e réveillon em uma casa que alugamos junto com vários nômades digitais em Pattaya, na Tailândia.
Parecia uma boa ideia, e foi. Matar a saudade da comida brasileira, do idioma, das músicas, depois de tanto tempo vivendo outras culturas.
Mas chegando lá, primeiro dia vieram os gatilhos.
Eu senti uma vontade de fugir.
Eu sempre tive isso. Uma vida inteira com vontade de fugir, de ir embora.
Sabe de onde vem isso?
“La vem o negão, cheio de paixão..”, mas não só. Vem de toda exposição e constrangimento vividos por conta das discriminações na infância.
Na casa, a galera se reunia em um grande grupo com muitas pessoas. E em grupos assim, um escorregão, uma fala que as pessoas não entendem, tudo pode virar motivo de gozação, e gozação num grupo grande é coisa que não dou conta.
Lá eu me dividi em, momentos que precisei ficar mais recluso, no quarto, para me acolher, e outros momentos de convívio e aprendizado com nossos colegas viajantes. Além das noites de natal e reveillon que foram bem bonitas.
Só para dar mais um exemplo: Sabe aqueles aniversários na mesa do bar, onde a aniversariante junta colegas de trabalho, família, amigos de infância, da faculdade, um monte de gente que não se conhece?
Eu não sei se isso acontece também contigo. De não relaxar ou se sentir meio deslocado quando está em grupos grandes. Grupo de pessoas que não conhecemos bem.
Eu me sinto bem em pequenos grupos. Pequenos mesmo. Acredito que tenho mais qualidade nos encontros com uma pessoa, duas, três no máximo. Mais do que isso, eu travo de medo e me sinto inseguro.
Uma exceção é quando estou entre pessoas que eu confio, como meus amigos de infância ou minha família. Ai sim, o grupo pode ser grande que tô em casa, entre os meus.
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Agora vamos falar de BBB.
Porque tá todo mundo falando sobre o que aconteceu no início dessa edição, que um dos participantes, o Rodriguinho comentou sobre o corpo da participante Yasmin Brunet.
Olha, bateu.
Mexeu com todo mundo, porque os dedos que que apontam para os nossos corpos a vida inteira, estavam ali naquela fala do Rodriguinho.
Por outro lado, me vi também no Rodriguinho que não merece esse cancelamento. Acho que (talvez) ninguém mereça.
Ah, mas Anderson, vai relativizar?
Olha o que ele falou!
Minha jóia, eu votei em José Serra!!
Esse Anderson só veio ter consciência de classe, ou o mínimo de letramento racial, sei lá, em 2008. E ainda faço merda.
Cada pessoa tem seu tempo.
Fazemos parte de um grupo que sofreu bullying. Que balança, sofre, se incomoda fica mexido quando assiste o que Rodriguinho fez, mas, vai dizer que tu nunca fez algo parecido?
Pensa aí.
Tenta lembrar.
Aquela fofoca com a amiga, sobre o corpo de outra colega?
Tu nunca?
Precisa responder não. Pensa aí só pra tu.
Na tua adolescência? Nadinha?
Então é isso.
Somos todos errantes, instáveis e preconceituosos.
Não é razoável agir como superior.
Eu te digo.
Eu e todos os homens que conheço. Todos. Já comentaram sobre o corpo de alguma mulher. Isso tá no dia a dia nas ruas, em todos os lugares. Inclusive em rodas de pessoas desconstruídas, de esquerda, e até pessoas que atuam com direitos humanos. O mundo real é muito mais sombrio do que imaginamos, e perfeição só existe na bolha da internet.
Pode até ser que você não concorde comigo mas no quesito exposição/constrangimento a minha escala crescente vai de gozação/comentário, em seguida vem o bullying, aquela parada sistemática violenta, e maior de todas, maior que o bullying é o cancelamento.
Cancelamento é foda!
Qualquer deslize as pessoas são tratadas como causas perdidas. Pessoas horríveis.
Pra mim, cancelar é pior que bullying. É aniquilar. É grave. Não tem volta.
Cancelar o cara se mata, como se matou o youtuber PC Siqueira.
Então, vamos pensar direitinho.
Porque se tu, na tua vida, não dá conta do constrangimento e das consequências que vem partir de um comentário sobre teu corpo, tu daria conta de um cancelamento?
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E só pra finalizar, já que tu tá aqui comigo toda semana, posso me abrir um pouco..
Essa foi a edição mais difícil desde que comecei a newsletter.
Posso te dizer que chorei várias vezes.
Que ter acessado o Anderson criança mexeu demais comigo.
E foi justamente por isso que eu não enviei na semana passada.
O texto estava pronto, mas eu precisava digerir. Precisava de coragem para me expor, dividir. E precisei chorar tudo que chorei.
Obrigado demais.
Um abraço bem grande, que a semana seja linda por aí.
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