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Cadê Anderson Lopes · Apr 17, 2024

Sobre a impossibilidade de não saber

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Eles passeiam, circulam, vão e vem e chegam sem avisar. 
Às vezes nos deixam mal, e são cada vez mais raros os que nos deixam felizes.

Se a gente deixa, eles se instalam em algum cômodo, 
algum cantinho na grande casa que é a nossa cabeça 
e ali ficam.

Estou falando sobre o assunto da semana, e isso é um assunto muito sério.

Sério porque para muitos de nós é bem difícil fugir deles.
E é praticamente impossível fazer com que eles não nos cheguem. 

Tu abre qualquer coisa no celular ou computador e o assunto da semana estará ali.

Mesmo que você consiga fugir dele no digital, ele te encontrará no presencial. Alguém na sua roda, no trabalho ou no bar vai falar de algo que aconteceu no BBB, na Ucrânia, Palestina ou do defunto que foi levado a uma agência bancária para tentar um empréstimo no Rio de Janeiro.

Só se fala disso e todo mundo quer opinar, compartilhar, meter textão e gravar vídeo sobre o assunto da semana.

Você, por exemplo, pode nem assistir o programa, mas acaba sabendo dos principais acontecimentos da casa mais vigiada do Brasil.

E falando nisso… Sabe aqueles chatos que faziam comparações dos reality shows com filmes, por exemplo, dando a esse segundo um maior valor cultural?

Eu já fui o cara que rebatia dizendo que entretenimento tinha o objetivo de entreter, de dar um descanso. Algo de consumo fácil, para aqueles dias em que a gente não quer pensar muito.

Eu não achava o BBB ruim. 
Sobre o que ali acontece, são assuntos que precisamos jogar luz sobre eles e ampliar o debate. Mas desta forma, assim, 24h por dia, em todos os lugares… tu dá conta? Eu não dou. 

Isso acaba com meu dia,
aí o que é que eu faço…?
Fico torcendo para que Wanessa Camargo saia.
E eu, que sou contra cancelamento, fico pensando coisas bem ruins.

Fico com raiva
e isso pauta meu dia
minha semana
minhas relações e meu olhar para o mundo.

Se não se ligar, a gente vai se envolvendo com o assunto e deixa de fazer o nosso trabalho. Deixa de ler um livro, de assistir um filme, de se exercitar, a gente não descansa e até adoece.

To escrevendo isso com uma voz de quem precisa de descanso.
Talvez você também precise.
Talvez estejamos todos cansados.
Muito cansados.

Mas aí imagina tu, já tá puto da vida.
Puto com alguma coisa,
sei lá.
Tá liso,
tá chateada com teu chefe,
tá cansado, cansada de qualquer coisa.

Ah, vou assistir o BBB pra desopilar.

Aí tu vê uma modelo, que tem o corpo mais próximo do padrão que se instituiu como ideal, recebendo críticas pelo seu corpo, por um homem aleatório. 

Como é que tu descansa?
Como é que desopila?

Um milhão de gatilhos te invadem e eu te pergunto: 
pra que? 
Te pergunto: 
vale a pena?

Oh, vou te contar uma história bem rapidinha.

No início de março eu trouxe pra cá um texto sobre afeto, comida, sobre minha vó e sobre saudade. 

Só que desde fevereiro que tô me coçando para escrever sobre Wanessa Camargo - e me sinto um vitorioso por não ter feito.

Eu tenho ficado bem satisfeito por não falar sobre o assunto da semana aqui na newsletter.

Eu tento, minha amiga, meu amigo, fazer desses dois minutos que você tira para ler, ser um momento de descanso no meio de guerra, violências e tantas notícias ruins. 

O objetivo aqui é te levar para outro lugar e falar do cotidiano de uma forma que a gente se distraia.

Mas então, especificamente em março, foi bem difícil.
Um desafio.

Meu sangue fervia e eu queria meter um textão sobre a filha de Zezé di Camargo e botar pra fora tudo aquilo que eu estava sentindo.

A filha de Zezé estava no BBB. 
Ela namora com um cara que foi indiciado três vezes por agredir mulheres. 
Ela dorme com ele, 
na mesma cama.

Sabe quem desperta gatilho nela? 
Davi, o rapaz negro, baiano de cajazeiras.

Isso acontece porque Dado Dolabella, que não se parece comigo, era capa, pôster e assunto da revista Capricho. Já Davi, que se parece comigo, nos parecemos também com a maioria dos homens expostos nos programas policialescos de todo o Brasil.

Que vontade de discorrer umas 15 páginas sobre isso.
Certeza que eu ficaria mais leve, 
mas fica para outro dia. 

Deixa eu voltar para o assunto aqui.

Então, como é que se assiste o BBB para desopilar?

Esse menino passou por tanta coisa ali. Desde jogarem as roupas dele na piscina, até o movimento escroto e absurdo de tentar jogar para ele, a imagem de assediador e agressivo.

Gente, o gatilho que me bateu num foi pequeno não.
Como é que você escreve algo bonito com esse ódio no coração?

Mas vamos lá.

Eu não queria ter lembrado disso, 
e lembrei porque foi o assunto da semana; 
das semanas, de várias semanas. 
E me invadiu sem que eu quisesse.

Talvez seja para isso que sirvam os assuntos da semana. Para a gente falar deles até cansar. Até vir o outro assunto, e a gente opinar, sofrer.

E a gente ter crise de ansiedade
e a gente tomar remédio
e brigar com quem discorda.

Quase sempre está relacionado a notícias ruins, guerras e polêmicas.

Nunca é sobre música, mas sobre polêmicas relacionadas aos artistas. A briga pela herança de Gal Costa. A Luisa Sonsa ter sido traída e fazer música (ruim) sobre a traição. 

A poesia passa longe. 
A música passa longe. 
A arte passa longe.

O assunto da semana nunca é passarinho.
Nunca é Manoel de Barros.
E por isso eu fujo,
ou tento fugir.

Quero não.
Quero nada.

Meu objetivo com a newsletter de hoje é deixar essa provocação 
para a gente pensar.
Pensar juntos.

Vale a pena fomentar o assunto da semana?
Será que não é o momento de a gente (tentar) se blindar,
a gente se distrair com outros assuntos?

Eu tenho tentado ficar esperto e não deixar que eles me invadam, mas to aqui, 
falando de um assunto que mexeu comigo a dois meses atrás.

Se blindar do assunto da semana é estratégia de resistência.
Como numa prova do líder. Prova de resistência.
Estratégia de saúde mental
de sobrevivência
para a gente se manter vivo
para a gente ter autonomia dos nossos pensamentos.
E para a gente não falar sobre as mesmas coisas.

Olha, eu não queria saber sobre o BBB.
Mas soube que acabou ontem. Impossível não saber.
E tô feliz
em saber
que acabou.

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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