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Cadê Anderson Lopes · Apr 10, 2024

Sobre as tecnologias

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Hoje de manhã tive uma experiência antropológica. A maravilhosa experiência de ir a um banco. Isso mesmo que você está pensando. Um banco. Físico. Uma agência da Caixa. Como os Incas e os Astecas; frase que sempre escuto meus amigos falarem.

Eu sou o oposto. Não parece. Passo muitas horas por dia no Instagram, mas sou um cara analógico, que prefere resolver as coisas mais com gente que com máquina ou qualquer atendimento automático. E sempre que tenho tempo, pago meus boletos na casa lotérica.

Além dos meus medos dos bugs, golpes, e mal entendidos do digital, acredito que visitar uma agência da caixa é uma deliciosa visita ao passado.

Hoje mesmo ouvi a conversa das mulheres a minha frente.

“Eu gosto é quando dona Flávia me libera para eu resolver minhas coisas de banco. Na casa dela eu não paro um minuto. Se eu estivesse em casa, era lavando roupa e fazendo almoço.”  Eram 08h40 da manhã, e ela falava isso sentada no batente na frente da agência que só abriria às 10h.

Para muitos, ir ao banco é perda de tempo e esta espera é cansativa. Para aquela mulher, era o melhor lugar para se estar naquele momento. Era o descanso possível.

Essa ida ao banco me fez pensar em algo que já separava as pessoas muito antes, por exemplo, da existência do Bolsonarismo ou das redes sociais. Esse negócio se chama internet banking, que mais recentemente se consolidou com a criação dos bancos digitais.

Se tratando de internet banking, eu estou do lado oposto dos meus amigos adeptos desta tecnologia. Eu acredito que a fila nos conectava. A espera nos conecta. Ali, estamos todos no mesmo barco. Alguns com um pouco mais de dinheiro que outros, mas se estamos ali, estamos iguais.

Às 10h distribuíram as senhas. E diferente do passado, quando ficávamos em pé, realmente em uma fila às vezes por mais de duas horas esperando a nossa vez (lembra?), hoje esperamos sentados enquanto uma tela de TV anuncia a senha da vez.

Uma lembrança que tenho é de que ficávamos todos em silêncio. Bastava o primeiro reclamar que toda a fila reclamava. E quando os funcionários percebiam que aquele momento era a última etapa antes de um possível motim, agilizavam e o atendimento começava andar mais rápido.

Na mesa 07, um senhor de uns 90 anos conversava enquanto era atendido pela funcionária sobre algo do débito automático. Enquanto ela processava a solicitação, ele falava que estava decepcionado com as mulheres modernas. Não consegui ouvir toda a conversa, mas pelo movimento da sobrancelha da atendente, ela não aprovou a fala do Sr, mas permaneceu simpática.

Depois do desabafo, e de resolver seu problema bancário, o Sr levanta, aparentemente satisfeito, e vai embora.

O banco tem muito disso. As pessoas querem falar, interagir. Se for agência da Caixa então... E se for agência da Caixa em cidade do interior, mais ainda.

Percebi que algumas pessoas vão sempre para aquela agência. Achar que aqueles senhores e senhoras aparecem lá diariamente pode parecer exagero, mas tenho quase certeza de que pelo menos duas vezes na semana eles batem o ponto ali.

Hoje mesmo, a mulher que dava as senhas, conhece cada cliente pelo nome. “Oi, seu Protásio”; “Bom dia, dona Lucinha”.

A onda dessa semana tem a ver com a ideia de perder tempo, e sobre isso tem uma frase que eu adoro, mas não sei de quem é, que diz:

“Não é tempo perdido, o tempo que você gosta de perder.”

Pois é isso. E gosto de banco. De conversar com idosos na fila da lotérica. De reclamar da demora juntos. De falar da novela, de Renascer, de opinar sobre o BBB.

Para mim não é tempo perdido.

E vou te explicar porque:

Para mim, o combustível da escrita é o convívio.

Ver gente,
ver a vida acontecer.

Eu gosto de estar ali,
de ver o povo.

Se não tem vida acontecendo na minha frente, a fonte seca
e eu fico sem assunto.

Agora, imagina:

Se eu tivesse optado pelo internet banking e resolvido de casa, provavelmente estaria aqui falando do Elon Musk, da derrota do Náutico na final do pernambucano ou talvez do meu aniversário que foi na semana passada.

Mas graças a essa ida ao banco, que tive assunto e a newsletter chega até aqui gostosinha. 

Não sei se tu ta achando gostosinha de ler, mas por aqui, foi bem gostosinha de escrever.

Mas me diz aí;
Num foi melhor ter ido ao banco?

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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