Depois de duas horas folheando revistas antigas na recepção da clínica, saí da sala a penúltima paciente.
A recepcionista percebe meu olhar ansioso e, sem falar nada, deixa as duas mãos viradas para cima, como se segurasse uma bandeja, e faz um movimento as direcionado para a porta do consultório que tinha ficado aberta. Era a minha vez.
Sexta-feira, sete da noite, todo brasileiro que trabalha no horário comercial está doido pra largar. A moça, ansiosa para ir pra casa, certamente para algum compromisso melhor que ficar naquela recepção, com uma TV ligada na Globonews no silencioso enquanto os pacientes assistem stories, tik toks e áudios de whatsapp no volume alto.
Entro no consultório e o médico, também em silêncio, com a palma da mão virada pra cima, na altura do peito, como quem segura uma bandeja, só que mais habilidoso que a recepcionista pois ele fazia com apenas uma mão, faz um movimento em direção a cadeira.
Aquela forma silenciosa de dizer ‘pode sentar’.
——
- Nome?
- Anderson Lopes
- Idade?
- 41.
Eu não sei exatamente por que devo responder, também para ele, as mesmas perguntas que respondi para a recepcionista lá fora a três horas atrás, quando cheguei naquela clínica.
- Profissão?
- Escritor.
Porque será que ele quer saber minha profissão? Será que é para conjecturar sobre a minha renda?
- Doutor?
Sem tirar os olhos e as mãos do teclado, ele para de digitar…
- Sim? (e volta a digitar)
- Para que um gastroenterologista precisa saber a profissão do paciente?
Ele levanta a cabeça, desta vez me olhando.
Naquele silêncio que dá medo em qualquer ansioso. Pronto, falei besteira.
- Pra saber o que você come. Seus hábitos alimentares.
Minha resposta silenciosa foi apenas franzir a sobrancelha, pensando, tentando entender.
- Agora mesmo entrou uma paciente, uma médica veterinária. Eu sabia que era vegana. 90% das veterinárias que trabalham com pet são veganas.
- São?
- Já atendi açougueiro que estava com 700 de colesterol e continuava comendo carne gordurosa… Agora me diga, qual a sua profissão?
- Eu sou escritor, Doutor.
- Escritor. Que legal! Imagino que tenha escrito vários livros.
- Não exatamente.
Agora fiquei curioso sobre o que comem os escritores. Qual dieta de uma Socorro Acioli? De um José Falero, um Julian Fuks?
O que comiam Lygia Fagundes Teles, Saramago, Rubem Braga?
Eu admiro escritores portugueses. Se você entrar em qualquer livraria em Lisboa, folhear livros aleatórios, terá grandes chances de se surpreender como eu me surpreendi nesses programas. Achava que tinha alguma coisa na água daquele país que fazia o povo escrever bonito. Por coincidência ou não, no tempo que morei em Portugal não foi apenas o período em que mais escrevi, mas foi também o período que mais gostei do que escrevi
O Rio Grande do Sul também é terra de grandes escritores. Quintana, Falero, Veríssimo, Eliane Brum e tantos outros mais desconhecidos que nos surpreendem em livros aleatórios em livrarias aleatórias.
É a água. Só podia ser a água desse lugar. Desses lugares.
- Doutor… O senhor já teve como paciente algum escritor? Um escritor famoso? Me fala algo. Sei lá…
Será que existe alguma nutricionista especializada em dieta para escritores?
Eu chegaria nela e já daria o papo reto. Seguinte: travei. Não tô conseguindo escrever. O que sai, eu não gosto, só que minha meta é terminar um livro ainda este ano.
- Um romance?
- Não, um livro de crônicas.
- Hum, deixa eu ver…
A resposta mais óbvia e mais bonita é que o cronista precisa se alimentar de vida. Precisa viver. Ver o mundo. Assistir e contemplar o dia a dia. O cronista precisa sair do quarto. Mesmo que seja olhando a rua botando a cara na janela.
Mas a resposta que eu queria era outra. Um caminho mais curto. Tomar a água (ou suco, café ou cerveja) de um lugar que me ajude a terminar 20 crônicas bonitas para por num livro.
Comer algum alimento que deixe a mão leve. Que dê agilidade com a caneta. Agilidade com a cabeça. Uma comida boa para o coração e temperos que ajudem na disciplina.
Enquanto não acho informações sobre a dieta dos escritores sigo aqui, tentando escrever semanalmente para ver se encontro um caminho para as tão sonhadas 20 boas crônicas.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.