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Cadê Anderson Lopes · Mar 5, 2024

Feijão, arroz e mistura

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Minha vó dizia que tem que ter feijão, arroz e mistura. Para o nordestino, mistura significa carne. De boi, ave, peixe ou porco.

O melhor prato na casa dela era galinha cabidela, e o que eu mais gostava era o  molhinho, que ela chamava de graxa. Nunca comi um igual, inclusive tô escrevendo aqui com água na boca só de lembrar.

Havia também o ritual de servir primeiro a mesa para as crianças, que éramos muitos. Todos os primos juntos. E só quando acabávamos que se montava a mesa para os adultos, nossos pais e tios.

E minha vó sempre ressaltava a importância de ter os três itens principais. Feijão, arroz e mistura.

Não ter mistura é muito menos sobre sabores e muito mais sobre a subjetividade do não ter. Independente do motivo, eu entendia minha vó, que ia além, dizendo que sem feijão a gente fica fraco. 

Até hoje eu me desafio a não me sentir fraco quando o danado se ausenta do meu prato por muito tempo. 

——

Sair do Brasil deu uma bagunçada na minha relação com a comida. Fui morar em Portugal e o grande desafio para esse pernambucano era viver sem feijão. 

E olhe que, além da comida em Portugal ser maravilhosa, eu gerenciava um restaurante de comida italiana em Lisboa. Um sonho. Lasanhas, linguinis, pizzas, gnochis, mas eu também queria feijão. Feijão e farinha.

No início eu comia uma vez por semana. Toda quarta-feira eu ia ao Pato Real, restaurante popular que fica na Av Berna, pertinho da Fundação Gulbenkian, que era pertinho, também, do meu trabalho daquela época.

O prato, que era bem gostoso, se chamava feijão de arroz, onde os dois eram servidos juntos, já misturados. E como lá não tinha farinha, eu andava sempre com um pacote de farinha na mochila. 

Com o tempo eu fui deixando de ir toda semana. Passava, duas, às vezes três sem ir, até conseguir ficar um mês sem ir e sem sofrer. Não sei ao certo se sem sofrer, porque eu trabalhava tanto. As vezes em dois empregos, que nem dava tempo de pensar em feijão. Talvez tenha sido por isso que não dei conta de continuar por lá. Uma abstinência silenciosa que pode ter ajudado a balançar o meu emocional, até que fui embora.

Uma curiosidade: no restaurante em que eu trabalhava, metade das pessoas da cozinha era de Nepal, Índia e Paquistão. Já a outra metade, de países africanos, Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Ao fazer a comida para os funcionários, que era diferente do cardápio de massas oferecido aos clientes, os asiáticos exageravam na pimenta. Mesmo assim eu adorava. Enquanto os africanos em alguns dias faziam um prato chamado Cachupa, que era uma espécie de feijoada, que levava feijão, legumes, carnes variadas e milho. Foram momentos lindos, tanto de aprendizado cultural, quanto de saciar uma saudade do Brasil, Uma saudade talvez da África. 

——

Tenho grande respeito aos profissionais de nutrição (inclusive minha sobrinha é uma grande nutricionista). É comum eles discordarem da teoria da minha vó. E como essa galera tem ciência, estuda e sabe do que está falando, venho refletindo sobre de onde vem essa fraqueza que eu sinto.

Talvez seja por esse sentir ter mais a ver com sentimento que com quem sensação

e sentimento é coisa que se resolve com psicólogo. Ou talvez seja coisa que não se resolva.

Posso dar outro exemplo; A questão não era especificamente sobre feijão. Em Portugal eu não encontrava queijo coalho.. Tinha os melhores queijos do mundo, mas não tinha queijo coalho. 

Longe do queijo, do feijão, da carne de charque, eu estava longe não só desses pratos, mas estava longe da minha vó, da minha família, longe de afeto e longe de mim. Como é que o cara não se sente fraco?

Comida é amor, é cultura, é sentimento.

É emocional, do coração.

E esse texto é muito mais sobre saudade, que sobre nutrição. 

——

No momento em que escrevi este texto, estive todo o tempo com saudade e com vontade de comer. É assim contigo também?

Oh, mais uma coisinha… posso te fazer uma consulta rápida?

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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