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Cadê Anderson Lopes · Mar 20, 2024

Correr para o abraço

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Oi, minha joia!

Boa tarde.

Essa semana foi uma enxurrada de notícias pesadas, né?

Quase desisti de encaminhar essa newsletter quando saiu a notícia da liberdade de Daniel Alves. Fiquei travado na cama, mas aí lembrei que a gente precisa respirar.

Então, meu desejo é que a newsletter de hoje, nesses dois minutos de leitura, seja um respiro no teu dia. Um espaço para descontrair. Desopilar. Para te levar a um lugar bom. Um lugar leve.

Simbora, conversar amenidades?

O vizinho corria para a janela e gritava a plenos pulmões quando o time dele fazia um gol. Eu era adolescente. Meu irmão também. E da mesma forma que eles zoavam de lá, eram zoados do lado de cá. Vivíamos em pé de guerra, jogo a jogo, com este e outros vizinhos fanáticos. 

Minha mãe, sempre sábia e com a maturidade de uma mãe, falava que aquilo separava as pessoas. Aquilo gerava a desunião.

E gerou naquela rua, naquele bairro por um bom tempo, até 2013. Talvez até 2014, quando Dilma ganhou de Aécio. Aí veio MBL, militares, Bolsonaro e o Bolsonarismo.

Pronto. Paramos de brigar duas vezes por semana por futebol e passamos a brigar diariamente, não só com nossos vizinhos, mas com nossos primos, tios, com nossa família.

Imagina tu, olhando para teus amigos de infância. Um é bolsonarista, outro virou defensor de bilionário, outro faz piada homofóbica, curte sertanejo e se tornaram pessoas com valores e gostos totalmente diferentes dos seus.

O desafio para conviver é muito grande. As afinidades somem e o que fica é a imagem de um estranho que a gente ama. Mas é estranho. E a gente ama? Realmente não sei.

Olho para o meu grupo de whatsapp e o que me resta ali é falar sobre futebol. O que antes nos desunia, segundo minha mãe, hoje é o que nos liga de alguma forma.

O que sobrou foi o futebol. E que bom que ainda ficou alguma coisa além das memórias.

Hoje já não ligo se o Náutico perdeu ou ganhou. Acho bacana estar ali, interagindo com aqueles que fizeram parte da minha infância.

Semana passada estava no sofá com meu sogro e minha namorada assistindo campeonato gaúcho. Ambos torcem para o Internacional. Que maravilha! Desde 2006 que todo torcedor do Náutico odeia, do fundo do coração, o Grêmio, assim como odeia a CBF.

Naquele sofá eu me sentia abraçado. Acolhido. Não era sobre toque físico. Era sobre estar junto. 

Aí me lembrei da arquibancada central do estádio do Náutico quando jogávamos em casa. Era um grande sofá de pessoas em comunhão, torcendo, gritando. Futebol é foda, né? 

A sensação do abraço passeia naquele ambiente. Você não se sente só. Pelo menos naquele momento do jogo.

Deixa eu mudar um pouco de assunto aqui. Acho lindo demais quando pessoas negras se cruzam na rua e se cumprimentam. Espontaneamente. Sem nem conhecer o outro. Um olhar de cumplicidade. De irmandade. De parceria. De você não estar só.

Quero comparar isso com um jogo de futebol? 

Não exatamente..

Ao sair do estádio, no dia a dia, você é empregado, o outro é patrão. Um se desloca de bicicleta, o outro atropela ciclista. Somos bem diferentes. Mas ali, naquele momento, naquela situação, estamos todos juntos. Tem algo que nos une. O espírito do abraço está ali.

Senta em qualquer lugar para assistir um jogo de futebol. Pode ser num bar com desconhecidos. Ali você não está só. Existe um caminho relacional de interação. De: “Você é dos nossos”. 

Nas fases finais dos campeonatos, naquela fase mata-mata, eu falo com meu irmão diariamente. No dia da final falamos várias vezes por dia. É o assunto que mais nos une.

Desde criança somos apaixonados por futebol, daqueles tipos que assistem, bem felizes, Águia de Marabá x Brasiliense numa primeira fase da Copa do Brasil.

Não importa se é jogo do Volta Redonda na série D ou se é o Real Madrid na Champions League. Temos essa paixão em comum.

Tu senta, levanta, assiste ali aquelas uma hora e meia de zero a zero. Aí no finalzinho, nos acréscimos, todo mundo nervoso, acontece aquela explosão, o gol. Joga o copo de cerveja pra cima. Aquele mesmo que custou 10 reais e estava ainda no primeiro gole. É irracional. É quase espiritual. E nisso estamos lá, abraçando desconhecidos, comemorando. Uma festa dentro e fora do coração.

Não sei se você concorda comigo mas, assistir o jogo ao lado do seu pai, do seu tio, irmão, colega de trabalho, pode te fazer reconectar com quem já foi mais presente na tua vida.

Num momento em que nossas divergências políticas nos afastam das pessoas que amamos, assistir o jogo com eles no mesmo sofá é um abraço. O afeto. O estar junto.

Isso nos liga de alguma forma.

Dependendo do nível de fanatismo do outro, às vezes uma mensagem zoando de brincadeira aquela pessoa do time adversário, pode ser um motivo para se aproximar.

Apesar de todos os problemas que acompanham o esporte, eu deixo com que ele me invada, e seja um caminho para unir o que o bolsonarismo separou.

Que ironia,né?

Hoje o futebol pode ser um caminho para a paz. 

E se tem um conselho que eu posso te dar é, caso você goste de futebol, deixa ele te unir novamente com quem se afastou.

Na verdade eu torço muito que, se não ele, outra coisa te faça reaproximar dos seus. 

Assim como os jogadores na hora do gol, eu espero que você corra para o abraço.

O abraço de quem você ama!

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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