2020
No primeiro momento não sentiram vergonha de demonstrar medo e gritaram assustadas.
- O que é que você quer, moço?
Eu apenas levantei a garrafa de dois litros vazia.
Naquele calor de 800 graus eu só queria água, e fui falando sobre isso enquanto me aproximava daquela cerca que dividia o terreno e a estrada de barro.
Acho que aquilo as acalmou.
- Como é o teu nome? Perguntou a maior delas.
- Anderson.
- Que nome lindo! O meu é Elaine.
Que nome lindo!
Que nome lindo!
Aquilo não sai da minha cabeça.
Pedi pra fazer uma foto e elas queriam muitas. Fizeram várias poses. Isso para elas, que aparentemente não tinham celular, era muito divertido.
- O Senhor quer que a gente cante, moço? A gente sabe cantar.
Na minha cabeça, aquele “Que nome lindo”, se repetia como música.
Viver numa capital. Correr numa capital, um nome pra mim era apenas a identificação de alguém. Não lembrava a última vez que percebi beleza em um nome.
Na cidade a gente corre demais.
A gente nem percebe que não percebe beleza para além das belezas que nos ensinaram..
Eu não queria ir.
Eu precisava ir.
Precisava pedalar mais 40 quilômetros até a cidade do Conde, na Bahia.
- Leve manga. O Senhor vai precisar.
E me deram uma sacola de mangas maduras.
Enquanto acomodava a sacola nos alforges, dentro de mim havia choro e riso.
Eu estava lindamente emocionado.
Aquele é um encontro que não finda. Que caminha de modo eterno aqui dentro e existe comigo hoje e sempre.
- Deus te guarde, falou Elaine.
- E te ilumine, gritou numa voz fina, o menorzinho.
Chorei pedalando.
Chorei agora, escrevendo.
——
2017
Amaro Freitas coloca um substituto pra tocar no lugar dele no Mingus, bar de gente rica que ele tocava semanalmente em Recife, para levar sua música para o Nova Raiz Jazz Clube.
No Mingus ele tocava standards jazz como música de fundo para pessoas que não aplaudiam quando a música acabava porque nem percebiam quando a música acabava.
Criei o Nova Raiz Jazz Clube para ser um espaço para a música instrumental, para admirar o improviso, sentir como aquela pessoa se expressa com seu instrumento. Ouvir o que ela tem a dizer.
Meu bar ficava em uma Galeria onde haviam mais dois outros bares no fundos.
Amaro já se mostrava grande, apesar de ainda desconhecido.
Havia algo de especial acontecendo ali nas noites de música, e as pessoas que iam para os outros bares não paravam pra ver. Nem ao menos diminuíam os passos. Para elas, parecia que não havia nada.
Aquilo me assustava, não pelas pessoas irem aos outros bares. Muitas vezes era algo marcado, uma festa, confraternização, ou qualquer outro motivo.
A real é que as pessoas não estavam mais sentindo. A gente só corre.
Outro exemplo, também lá do bar, aconteceu na roda de choro que rolava todas as segundas-feiras. O cantor Ayrton Montarroyos de vez em quando aparecia para cantar com os músicos. Era desconhecido. As pessoas passavam e para a maioria, ali não estava acontecendo nada.
Ayrton foi para o The Voice. Foi para a final do The Voice num sábado. Ficou em segundo lugar. Na segunda-feira estava lá, cantando chorinho, e as pessoas iam parando, parando, e no final da segunda música haviam várias pessoas ali, admirando o mesmo Ayrton que passava despercebido junto com outros músicos incríveis que também passavam despercebidos semana a semana.
Isso diz muito sobre a vida que a gente leva, e do espaço limitado que temos para se tocar, se surpreender, se afetar e permitir que algo nos afete.
——
2024
O motivo de eu estar escrevendo tudo isso me veio neste final de semana.
Fui a um aniversário em Porto Alegre com minha namorada. Na saída, enquanto aguardávamos o Uber ela falou empolgada sobre o pé de carambola que estávamos embaixo, na sombra.
Eu nem tinha percebido.
O cheiro era forte (e bom). Haviam várias carambolas no chão.
O amarelo carambola na minha frente, aos meus pés, mas eu não estava ali.
É preciso ouvir o que grita. Aquele amarelo da carambola gritava. O cheiro forte gritava. Eu não ouvia. Se Luísa não tivesse me falado, eu sairia dali sem perceber.
Nem comentei com ela, mas isso me chamou a atenção para onde tenho colocado minha atenção…
——
A gente toma banho e não sente a água tocar no corpo.
Não sente o vento lamber a pele, e é urgente sentir.
Viver o corpo.
Lembrar que tem corpo e sentí-lo.
O episódio da carambola me fez lembrar estar presente.
O das crianças de Indiaroba, me fez lembrar de não correr.
E os episódios do bar me fizeram lembrar que tenho autonomia no que defino como belo.
Isso tudo sou eu, nos meus conflitos de estar e sentir.
Isso tudo pode ser você nos seus momentos de desatenção.
Isso tudo me lembra Saramago, na talvez, sua frase mais conhecida:
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Isso me lembra também, a Eliane Brum, quando fala da Amazônia.
O que ela fala me remete ao que eu senti quando larguei uma capital para morar na Chapada Diamantina.
Termino a edição da newsletter desta semana com essa maravilha que ela escreveu em seu livro mais recente, Banzeiro Okoto, que venceu o prêmio Vladimir Herzog Livro-Reportagem e foi finalista do prêmio jabuti.
——
“Quem entra na floresta pela primeira vez não sabe o que fazer com os sentidos que sente, com as partes do corpo que desconhecia e que de repente nunca mais a deixará. Em algum momento adoecem, porque o corpo da cidade, acostumado a fingir que não existe, para poder se robotizar diante do computador, não sabe o que fazer de si.
Esse corpo se ocupava em dez por cento, porque reprimido de tudo, e agora todos os cem por cento lhe chegam de uma vez. E sua de pingar no chão e coça de picadas de piuns, e se corta nos tucuns e se arrepia com a água do rio e se encharca de desejo por corpos que não estavam no cardápio…
…as pessoas da cidade passam mal, se sentem doentes nas primeiras incursões na Amazônia, porque tem overdose de corpo. Acham que é malária o que é tesao por um corpo que não se sabia.”
——
Eita, Eliane Brum <3
Boa semana,
Feliz páscoa,
Aquele abraço!

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.