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Cadê Anderson Lopes · Feb 20, 2024

Como uma enxurrada que arrasta tudo

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

E aí, gente boa!

Se tratando de Carnaval, a ressaca por aqui não tem nada a ver com o álcool consumido. Tem a ver com o sentir, e eu senti muito. Queria estar aqui discorrendo sobre todas as bonitezas que foi essa festa, mas para hoje seguem outras histórias.

- Meu amor, você cantou a pedra lindamente e o machismo destrói mais um relacionamento.

Essa foi a triste mensagem que recebi da minha amiga paulista que estava, há alguns meses, com o relacionamento balançado.

Nas nossas conversas eu sempre comentava sobre os danos que o machismo faz na vida do homem. E foi foda receber essa notícia. 

Seu companheiro, desempregado já há algum tempo, não deu conta da situação de não ter renda enquanto minha amiga segurava a onda da parte financeira.

Para ela não era um grande problema, mas para ele sim. E olhando de fora parece besteira, mas a saúde mental do rapaz foi para o brejo numa sociedade com regras e papéis bem definidos.

Na teoria dá pra ser desconstruído. Mas, na prática, a sociedade colocou um saco de Papai Noel nas costas do cara e dentro tinha 1Kg de orgulho, 1Kg de vaidade e 50Kg de vergonha. Fora outras coisas que compõem o peso que se carrega.

E se o cara for um homem negro e de periferia, como é o caso dele, o saco dobra de tamanho.

Precisamos falar sobre isso.

Lembro de outro caso.

Acho que no ano de 2017.

Uma amiga de Recife que era uma lutadora. dona de uma loja bem bonita próximo ao meu bar, e sempre estávamos nos ajudando, conversando e dividindo nossas alegrias e angústias no caminho solitário de ser empresário.

Uma vida massa, um filho lindo, um marido gente boa. Tudo numa lindeza, até vir aquela crise pós impeachment de Dilma, que bagunçou demais a economia.

O marido dela perdeu o emprego e a loja já não faturava como antes. Isso começou a balançar o relacionamento e complicar a vida dentro de casa.

Eles se amavam.

Acho até que ainda se amam. 

Eu sabia que o que eles precisavam resolver era outra coisa.

Assistindo de fora, eu via que eles não tinham nenhum problema fora a questão financeira.

Resolvendo isso estaria tudo certo. Mas não deu tempo.

Eu tinha certeza de que eles se arrependeriam se consumassem a separação, mas consumaram. Separaram.

Eles se amavam.

Eles separaram.

Talvez tenham se arrependido.

Não sei, pois não falei mais com ela sobre isso, mas seria um casal foda que continuaria junto.

Hoje eu chorei lendo Domenico de Masi.

Domenico me acompanha a muito tempo junto com Bertrand Russel. Eram meus dois livros de cabeceira. Economia do Ócio (Russel) e O Ócio Criativo (De Masi).

Eu era entusiasta das críticas ao trabalho, desde adolescente, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho.

Aí tu vê, né?

Viajei pela Ásia por quatro meses.

Antes disso, tinha passado um ano em Portugal, trabalhando. Trabalhando muito, em jornadas de trabalho de um milhão de horas semanais. Às vezes em dois empregos. Era uma doidera.

Mas foram as reservas feitas nesse período que viabilizaram estar, sem trabalhar, em alguns paraísos na Tailândia.

Eu tinha todo o tempo livre que tanto sonhei. O tempo livre que De Masi tanto falava. Era um privilégio. 

Durante a viagem, Luísa, minha namorada, que é nômade digital, continuava trabalhando no horário do Brasil, e com as reservas que juntei, eu não tinha uma necessidade real urgente de trabalhar. A água estava longe de bater na bunda. Não nos faltava nada.

Só que o machismo, sempre ele. O capitalismo, a soma de tudo isso…

Por várias vezes eu não conseguia relaxar e me culpava por não estar trabalhando, num paradoxo de não ter a urgência de trabalhar, ter esse presente, e não curtir o presente. E chorar de vez em quando.

Naqueles meses eu poderia só viver minha criatividade, estudar algo, escrever, me expressar, criar, mas não. Eu me culpava. Eu chorava.

Se não fosse isso na minha cabeça, talvez eu voltasse de lá com o inglês fluente, ou talvez tivesse até avançado com um livro de crônicas. 

No tempo em que eu só trabalhava em Portugal. Às vezes 12 horas por dia, ainda assim eu conseguia escrever, e oh, escrevia muito. Eu era uma máquina. Bastava o bloco de notas do celular, que até na parada de ônibus saia alguma coisa. Já na Ásia, na fase que eu mais tinha tempo para escrever foi a fase que eu menos escrevi.

Foda, né? 

Isso é grave.

E não é exatamente sobre o sofrimento de Anderson. É sobre o namorado da minha amiga paulista. É sobre o ex-marido da minha amiga de Recife. É sobre você, sobre seu pai, seu irmão, seu vizinho.

Muitas vezes um monte de caras massa, do bem, gente boa, tudo fudido da cabela por conta disso.

O machismo é, sem dúvida, o principal vilão da saúde mental do homem.

E é sobre isso que precisamos conversar.

E certamente é o que mais quero falar nesse ano que começa.

É preciso porque é essa dor silenciosa dos homens, que uns cara massa desemboca tudo no alcoolismo, no vício em jogos, drogas e um monte de caminhos tronxos, nesse modelo de sociedade leva a gente pro buraco.

Ah!

Atualizando sobre o caso da minha amiga lá, que o relacionamento tinha chegado ao fim.

Eles voltaram a se falar, e estão tentando se acertar.

To torcendo muito para que se acertem.

Ela é massa, e o cara (que eu ainda não conheço), segundo ela, é super gente boa.

Oh, se tu leu aqui, tu mora no meu coração!

E se algo aqui mexeu contigo e tu sentir vontade de responder este email,

manda aí porque esse assunto é bem urgente. Pra ontem.

Um grande abraço.

Um bom início de ano pra tu!

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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