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Cabelo-nuvem · Nov 26, 2025

Diário de viagem: São Paulo de novo

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Janaína Esmeraldo · Cabelo-nuvem

Agora estou criando uma tradição: ir a São Paulo na Feira Miolos, ficar uma semaninha passeando nos museus e reencontrando as amizades. Ano passado fui pela primeira vez e foi o passeio na cidade grande que eu precisava pra me maravilhar. A primeira vez na feira, não na cidade, pera. Mas faziam tantos anos que eu não ia à maior megalópole da América Latina que eu tinha esquecido da ruma de coisa acontecendo nessa cidade.

Mais uma vez fiquei na casa de Lau, no seu ateliê caótico e inspirador, como deve ser.

Essa é a Laika
Lau fez panquecas de mirtilo e eu fiquei obcecada

Começando por onde Lau é livreira, fiz o tour das livrarias de rua de Santa Cecília. Dicas de passeio para fazer numa cidade nova: o tipo de passeio que você faria na sua cidade. Passear em livrarias, bancas e sebos é um dos meus rolês favoritos em viagem. Não comprei nenhum livro, mas comprei um casaquinho de veludo roxo que encontrei num brechó de igreja no caminho.

Letreiro por Lau na Livraria Sentimento do Mundo

A ida coincidiu com a Bienal de São Paulo, um evento que eu nem sabia que existia até pouco tempo, e que me arrebatou com seus 3 pisos imensos coletando artes. Eu e Joanna nos inscrevemos para uma visita guiada espontânea que não aconteceu, mas conseguimos uma fala de abertura de um mediador que arrematou bem o tema da exposição. Ele começou lendo um poema de Conceição Evaristo, que eu não relia há bastante tempo.

Da calma e do silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,

deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

Conceição Evaristo, Poemas da recordação e outros movimentos

Como estudante de Artes Visuais vinda da engenharia, minha mente é bastante racional e objetiva, e algumas coisas da arte contemporânea passam longe do que sou capaz de compreender. E eu quero muito entender. Mas tem alguns tipos de obras que eu sou bem capaz de só sentir, principalmente instalações gigantescas e imersivas. A sala de luzes e espelhos do Song Dong foi muito, muito desconfortável, mas rende ótimas fotos. A sala de tocos de madeira entoando cânticos de Emeka Ogboh foi bela e aterradora. Os sinos de água de Leonel Vásquez foram dos meus favoritos, embora tenhamos entrado ali rapidinho já no caminho de saída. Adorei encontrar têxtil, terra e lixo. Se você é de São Paulo ou vai estar por lá no próximo mês, eu não deixaria de dar um pulinho.

Emprestar a luz (em preto, azul e amarelo) e O rumo das coisas terrenas II (principalmente vermelho)

A Feira Miolos, o motivo da minha ida e grande festa do papel, aconteceu como deve na Biblioteca Mário de Andrade e encheu todos os andares de artesãos, engenheiros e aficcionados do papel. Gravuras, serigrafias, risografias, livros, zines, quadrinhos, impressões digitais e caseiras, dobraduras, rasgos e amassos. Eu ainda estou me habituando a fazer uma viagem de trabalho e estar entre tantas pessoas que gostam tanto dessa mesma coisa que eu amo: papel. Como pode as pessoas criarem tanta coisa diferente a partir de uma folha em branco? As possibilidades são inesgotáveis. Adorei dividir mesa com a hele carmona, outra que também ressignificou O Caminho do Artista.

Minhas comprinhas, trocas e ganhos

Meus produtos novos novíssimos foram a cartela de adesivos de frutas orgânicas e o Calendário 2026, que está bem lindo e manual. Esse ano optei por imprimir em casa e fazer uma encadernação em espiral, um processo mais artesanal do que o que fiz ano passado em gráficas. Gostei muito do resultado e achei que ficou com mais carinha do tipo de coisa que tenho gostado de fazer. Quero evidenciar que foi um processo manual. O Calendário 2026 já está disponível na minha lojinha online em três belas opções de cor do papel: amarelinho, verde-claro e branco para colorir! Um belo presente para este fim de ano, um passeio pelo Recife em cenários icônicos e cotidianos. Me diverti que só desenhando e criando grades personalizadas para cada um dos meses. Dá uma espiadinha!

Visitei dois ateliês na minha viagem, pra só aumentar o meu sonho de ter o meu. O primeiro de Alexandre Heberte, tecelão de Fortaleza que cria peças tridimensionais a partir de um nó ancestral. Ele disse coisas tão lindas do seu trabalho com os fios que eu fiquei em transe e nem vou conseguir repetir pra vocês. No ateliê, uma imersão nas suas peças, penduradas nas paredes, no teto, deitadas nas mesas, agarradas nas plantas. Falamos sobre seu percurso com sua arte, sobre a impossibilidade de não criar o que se cria, e eu falei da minha busca de tentar conectar o que eu fazia antes no meu trabalho com o que eu faço agora.

De lá, visitamos a Tacatinta Minigráfica de Jéssica Groke, o espaço em que nascem livros, cadernos, quadrinhos e zines com o acabamento mais refinado que só uma pessoa apaixonada por aquilo pode dar. Adorei conhecer seu ateliê gráfico e conversar sobre projetos, sonhos, trocas. Depois, no bar, ela leria seu tarô cigano pra mim, e é impressionante como o papel pode saber tanto da nossa vida.

Obrigada Gab por me guiar nessas visitas. Quem tem amigue tem tudo!

De museus, dei um pulinho no MASP e na Pinacoteca com Gab. Foi realmente um pulinho, porque duas horas é um piscar de olhos pra ver como se deve o que tem no acervo desses museus. Sou uma sofredora de FOMO (Fear of Missing Out, o medo de ficar de fora das coisas) e fico angustiada pensando nas obras que não consegui ver. Mas me reconforto na fala do mediador da Bienal, de que é impossível ver tudo, e sempre será impossível. A cada visita vemos coisas diferentes, notamos coisas diferentes nas obras, somos pessoas diferentes com uma nova percepção. Jamais teremos um entendimento completo de nada. O que é terrível, mas também um alívio. O que eu vi e me permiti ver integralmente é o que vai ser absorvido por mim e me transformar em outra pessoa. Fiquei fascinada pela exposição da Clarissa Tossin, que conversou muito com o que estou estudando em Arte Decolonial.

A expografia das obras do acervo permanente, agora chamado de Acervo em Transformação, é sempre um deleite: obras contemporâneas pra começar, obras impressionistas pra continuar, obras clássicas para encerrar, num gradiente que mantém a curiosidade do espectador (não sem algum esforço). Adorei encontrar obras que estudei em sala de aula, elas ficam muito mais interessantes, principalmente quando o tema ou a escola de pintura não são do meu gosto pessoal. Confesso que tenho começado a repensar isso de gosto e me vejo cada vez mais instigada pelas obras, interessada quando percebo desdém.

A obra que mais me encantou foi uma pintura sobre casca de árvore feita com pigmentos naturais do tamanho dos meus braços abertos. Um ritual, uma festa de bichos, estrelas e encantados, do peruano Santiago Yahuarcani.

Amo instalações fotogênicas

Passei na papelaria e comprei coisinhas que só via em vídeos do povo, mas jamais encontraria em Recife. Sempre me sinto meia bicho do mato na cidade grande quando vou a São Paulo, isso nunca vai mudar. São elas: uma pinça para colagens em miniatura, agulhas curvas, canetas brancas e um apontador com a lâmina mais afiada do mundo.

Não andei tanto de metrô nessa ida, só no último dia até a Luz, onde vi a exposição sobre Direitos Humanos nos azulejos da estação. Lembrete: andar sempre com uma caneta permanente preta para intervenções.

Os espaços em branco não são convites?

Essa ida foi rapidinha, mas ainda deu pra conhecer ao vivo pessoas do mundo da newsletter como Anna, Babi e Paula e amigas dos cursos online como a Isa. É bom demais quando gente que você conhece nas telas viram pessoas tridimensionais.

Voltei pra Recife e emendei num pedal com as 100 Boyzinhas 100 Medo, pedalando 100 km num dia só, juntas sem medo. Mas isso é história pra outro dia.

Abraços,

Jana

pelas lentes de Joanna

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Read the original on cabelonuvem.substack.com

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