Ano passado fiz uma lista de dicas de presentes que custam pouco ou quase nada, para lembrar que o mais gostoso do ato de presentear é ligar o presente e a pessoa. Escrevendo a lista, entendi coisas valiosíssimas, como por exemplo: se alguém comentar que está procurando um objeto específico e te falar a respeito, não diga a ela onde comprar, caso você saiba. Guarde a informação para você e surpreenda-a com um presente certeiro. Outra coisa preciosa que aprendi é que fazer um presente a mão pode parecer barato em dinheiro, mas é caro no que é mais caro: tempo e carinho.
Registre os interesses mais específicos que puder. Compre o livro do tema mais nichado que aquela pessoa se interessar, com certeza ela vai adorar (se já não tiver o livro). Sempre dá pra improvisar algo na véspera, em casa, se chegar o dia e você estiver de mãos abanando. Com coisas que você já tem, ou coisas que você consegue inventar em menos de meia hora.
Recauchutei meu guia de presentes com alguns itens novos e outros antigos. Vamos presentear?
Começando com…
custam apenas tempo, você vai usar o que tem em casa
1. Uma zine
Uma zine é coisa simples de se fazer, basta uma folha de papel. Em 30 minutos dá pra fazer uma zine. Você pode escrever uma mensagem carinhosa ou fazer uma lista do que gosta naquela pessoa. Relembre como se conheceram e deseje mais momentos juntos. Copie uma poesia, um meme, uma música.
É precioso parar por alguém e colocar naquela mensagem as suas palavras, sua caligrafia, seu gesto, seu borrão. A zine pode ser uma carta, um cartão, uma dobradura, um quadrinho. Se divirta reutilizando papéis que conversam com o presenteado, imprima algum trecho de conversa com ela, use fotos, figurinhas, piadas internas. As boas lembranças perduram melhor no papel.
Dicas de formato para a zine: dobrada, costurada, grampeada, ou o modelinho tradicional da zine de bolso (instruções aqui).
2. Uma playlist
Eu ainda tenho deliciosas mixtapes que ganhei de namorados e amigos e as ouço de quando em vez para lembrar deles e daquele momento da minha vida. As playlists de recomendações que meu tocador de música faz pra mim são tão iguais ao que eu já escuto que não têm graça nenhuma. Uma curadoria de recomendações personalizada feita por um amigo é muito mais imperfeita.
3. Um objeto que você não usa mais
Um livro que você leu, gostou, mas não vai reler nunca. Ou que você não gostou tanto assim, mas sabe de alguém que bem vai gostar. Esse livro vai ser mais feliz circulando de mão em mão. Tem ainda aquele kit de um hobby que você tentou começar e não engajou. Linhas e agulhas de crochê, meadas de bordado, tintas de aquarela. Elas estão todas tristes de continuarem paradas na gaveta. Um quadro que ficava na sua parede e você já amou muito mas enjoou. Tudo bem, alguém pode amar muito na próxima temporada. Ou o clássico: um presente que você ganhou e não tinha muito a ver com você, mas você não teve coragem de se desfazer. Um presente que ficou guardado é melhor passado pra frente.
4. Uma vídeochamada
Eu tenho amigos espalhados pelo Brasil e o mundo. De vez em quando a gente tenta conversar e se atualizar das nossas vidas, geralmente pelo zap, mas essas atualizações vão ficando cada vez mais escassas, até que faz tanto tempo desde a última mensagem que a gente até esquece de responder e quando lembra fica se culpando pela demora. Eu me considero uma ótima gestora de mensagens de zap, tento conscientemente não deixar ninguém sem resposta e leio todos os meus 58 grupos (não façam isso em casa). Um dos segredos dessa boa gestão envolve evitar conversas. Pense que algumas conversas poderiam ser uma ligação. A gente esquece que o telefone celular surgiu dos telefonemas, né?
Chega o aniversário de alguém que eu não vejo há anos e eu quero muito saber o que de bom e de ruim tem acontecido com ela, então em vez de perguntar diretamente, pergunto: Que tal uma vídeochamada? No aniversário de Cleo esse ano, tomamos um café-da-manhã em vídeo, cada um com suas comidinhas e fofoquinhas para compartilhar, a mesa se prolongando na tela. No meu, foi Flora quem sugeriu de nos ligarmos, e fizemos um tour de nossas casas uma pra outra, porque nunca nos visitamos nesses endereços. No fim das contas, dar um presente é entregar nosso tempo e apreço ao outro.
5. Uma seleção de arquivos
Crie uma pasta na nuvem. Coloque ali PDFs, fotos, músicas, prints, memes, textos, um filme inteiro, uma grande miscelânea de coisas virtuais que você sabe que a outra pessoa vai gostar. Uma grande caixa de lembranças que você dá para o outro, versão digital. Como alguém que namorou a distância, já troquei muitos presentes virtuais que foram uma boa compensação pros milhares de quilômetros.
6. Um vale-alguma-coisa
Ok, chegou o dia do aniversário e você não conseguiu comprar, não conseguiu fazer, não tem tempo pra criar uma zine nem escrever uma carta com o carinho devido, você tem que ir e ainda queria levar alguma coisa. Tem 5 minutinhos? Pegue um papel e crie seu próprio vale presente. VALE UM BEIJO NA BOCA. (presente e paquera num só) VALE UM PEDAL ATÉ A PRAIA QUE VOCÊ QUISER. (pras amigas bicicleteiras) VALE UMA FOCACCIA DE ALECRIM. (se você souber fazer focaccia de alecrim, eu nunca conheci alguém que não gostasse de focaccia de alecrim) VALE UM PRESENTE QUE AINDA VOU DECIDIR. (se você não conseguir pensar em nada mesmo)
Se tiver um envelope, coloque dentro, xiringue um perfuminho, vai fazer chique.
Dar um presente que custa apenas tempo é uma atitude anti-capitalista, bonita e sustentável. Reaproveitar o que já tem, ressignificar o que estava parado, agradar o outro com algo que não é consumo é a subversão que nosso planeta precisa.
Mas dá pra tirar o escorpião do bolso e planejar um presentinho que custe o justo.
Então se você estiver com tempo & dinheiro, vamos aos…
de pouquinho a poucão
7. Um álbum de fotos
Você também costuma viajar de férias e depois celebrar essa viagem com um carrossel de fotos? Ou pior, por 24 horas no stories? Ou melhor, nunca nem postá-las, guardando-as para sempre nos confins da sua galeria de fotos para nunca serem revisitadas? Sim para todas as anteriores? (Sim!) Você pode eternizá-las num meio mais durável que o digital, como um álbum de fotos em papel. Pode parecer que a nuvem e os discos rígidos de computador vão durar para sempre até os fins dos tempos, mas eu confio mais na resiliência e na tradição do papel.
Tem um monte de site online pra fazer fotolivros que eu não saberia indicar, a minha recomendação oficial é procurar o equivalente da sua cidade do Beco do Fotógrafo recifense e imprimir essas fotos em papel fosco, comprar um caderno capa dura e fazer o seu próprio álbum, com intervenções escritas, colagens, bilhetes e o que mais inspirar você. Faça um álbum daquela viagem que você fez com seus amigos que foi inesquecível mas que você está começando a esquecer um pouco. Registrar as memórias que vivemos na materialidade do papel com suas legendas personalizadas vai deixar aquela viagem ainda gostosa de lembrar.
Gostou da ideia mas não tem tempo pra fazer um álbum inteiro? Escolha uma foto bonita que você tem com sua mãe, seu pai, seus irmãos, sua melhor amiga, imprima ela em alta qualidade e coloque num porta-retrato. Estamos precisando voltar a aproveitar nossas fotografias fora das telas.
Ou esqueça as fotos e dê apenas…
8. Um caderno
Os mais básicos são funcionais, os mais aprumados são item de luxo. Tenho sempre cadernos em casa para presentear, e se encontro um caderno que me lembra alguém eu imediatamente trato de comprá-lo para o próximo aniversário. São presentes coringa, porque todo mundo meio que tem algo a escrever, mesmo quando acha que não tem (talvez seja essa a pessoa que mais precise de um caderno!). Cadernos com pauta, sem pauta, pontilhados, artesanais, de receitas, todos são ótimos presentes. Os artesãos do papel criam coisas lindas e aceitam encomendas personalizadas também. Vale dar um pulinho na feirinha de artes especial de Natal que estão rolando na sua cidade.
9. Um material de artes
Nós somos pessoas e contradições, né? Eu demorei muito pra ter coragem de me apresentar como artista, e por outro lado digo sem titubear que todo mundo é artista. Só precisamos das ferramentas, de tempo e espaço. Parece simples, mas é difícil conciliar os três. Então que talvez começar dando as ferramentas? Canetinhas marcadoras, livros de colorir, um kit de bordado ou crochê. Pode parecer um presente inusitado se o presenteado não for ululantemente versado em arte, mas esse presente é também um convite para experimentar um novo hobby.
10. Uma planta
Uma plantinha de sombra, um arranjo de flores para perfumar a casa, uma orquídea florida para embelezar a estante, um buquê colhido num jardim privado que você precise pular um muro. Cuidado: não é um presente para todo mundo e você não quer ser cúmplice de um plantícidio. Saiba ler seu presenteado e identificar se para ele toda erva daninha é flor. Pode ser ainda que o presenteado não tenha um jarro de flores, nesse caso vale incluir no presente.
11. Um livro
Esse é o meu presente favorito. Já dei muito livro, novo, usado, meus, dos outros, inéditos, repetidos, premiados, limitados, artesanais, esgotados. Gosto de presentear com meus livros favoritos, ou o favorito do ano, ou o meu próprio livro. Um passeio na livraria do bairro ou no sebo de sua preferência também rende ótimas indicações e descobertas para presente.
12. Um calendário 2026
Pra começar um novo ano com bons ventos, que tal um calendário inteiramente ilustrado para passear pelo Recife em 2026? Impresso na minha própria impressora e encadernado localmente, esse calendário foi todo desenhado a mão e está prontinho para receber mais mãos com lembretes, recados, compromissos e expectativas. Você também pode colorir! Este é o meu lançamento do momento, fresquinho do meu ateliê, e está disponível em 3 cores: branco, marfim e verde-claro. Na minha lojinha também tem quadrinhos, zines, prints, adesivos. Aproveita que ainda dá tempo de chegar antes do Natal pelos correios! (cruzando os dedos) E se você é daqui de Recife ou de Fortaleza, fala comigo que podemos combinar a entrega em mãos.
Esses são alguns dos presentes que eu gosto de dar. Não fui muito específica, pra também não tirar a graça de ligar os pontos entre o presente e a pessoa. Sair pra passear por lojas atrás de um presente pra alguém e garimpar itens que lembram uma pessoa é também aprofundar nossa relação com ela. Ou garimpar músicas, palavras, fotos. Quando eu era adolescente eu gastava um tempo considerável fazendo presentes para minhas amigas. Fazia cartões elaborados, com desenhos e textos, fazia pelúcias, fazia vídeos, fazia playlists e escrevia looongas dedicatórias em livros. Sinto saudades de ter esse tempo, penso nele como um dos meus marcadores de felicidade. Ter tempo pra demonstrar meu carinho pelas pessoas. Ter tempo para presentear.
Também são os presentes que eu gosto de ganhar. Se você está lendo isso e estava preocupada com o que me dar de Natal, são 12 dicas certeiras! Eu vou amar qualquer uma que você escolher. Vale lembrar que presentes não são obrigatórios. É uma graça pra fazermos com prazer, e sempre tem outro ano pra presentear. Mas se você conseguir o tempo, o dinheiro e a ideia, corre o risco de dar um presente que a outra pessoa vai gostar. E aí está o perigo: você pode descobrir que dar um bom presente é até mais gostoso do que receber.
Obrigada por ter chegado até aqui, até o fim dessa lista e até esta última edição da newsletter nesse ano que passou como uma ventania. Eu ainda não comecei a pensar seriamente em retrospectiva, mas num apanhado rápido vejo que os 12 meses que passaram pareceram durar meia dúzia. Eu tinha me comprometido a enviar uma edição da news por mês, o que eu quase consegui e estou muito satisfeita. Espero que vocês tenham se divertido lendo meus relatos, minhas zines, meus quadrinhos. Agradeço a quem lê e quem comenta, quem compartilha e responde por email e quem lê no seu cantinho. Aceito correções, sugestões, recomendações! Eu não sou tão boa gestora das mensagens aqui porque fico muito envergonhada de ler o que vocês respondem e perceber que vocês leram mesmo o que eu escrevi. E gostaram! Sempre fico incrédula. Obrigada, minha gente. Eu gosto de estar aqui e compartilhar essa curadoria da minha vida. Ainda não alcancei o formato da newsletter que eu imagino dentro da minha cabeça, tenho vontade de compartilhar processos e fazer tutoriais, por exemplo. Me contem se tem algo que vocês gostariam de ver por aqui. Esse retorno vai ser um presente pra mim.
Abraços festivos,
Jana
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.