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Cabelo-nuvem · Oct 15, 2025

Diário de viagem: Pacoti outra vez

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Lançamento de quadrinho e inauguração de museu

Saí do meu antigo emprego para ser artista em tempo integral. Foi uma decisão meia doida, desrecomendada pela maioria das pessoas que me aconselharam, que depois que eu tomei foi elogiada como coragem. Essa doidice minha foi muito bem calculada, e de coragem tinha muita insegurança. O tempo passa, e agora já faz mais de dois anos.

No início do ano fui convidada a transformar uma música em história em quadrinhos. Noda de Caju, uma canção tradicional do forró cearense, composta por Luís Fidelis, que fala de um amor que se parece com uma dor de dente. O primeiro convite para compôr um álbum foi também minha primeira adaptação em quadrinhos e minha primeira publicação capa dura. Que luxo! Esse álbum, uma coletânea de canções-quadrinho, reuniu 10 quadrinistas cearenses para desenhar letras do compositor Luís Fidelis e foi lançado duas semanas atrás em Pacoti, Ceará, na Mostra SESC HQ.

Ver o álbum impresso, todo em cores, a minha história com um rosa apaixonado e um amarelo suculento feito caju maduro, meu nome estampado com a minha biografia de artista, foi coisa importante e especial que me deixou feliz e incrédula. Mas não aconteceu no vazio. Tudo o mais que envolveu o lançamento do livro foi importante e especial.

Pacoti, a pequenina cidade onde o lançamento aconteceu, uma cidade de nome fofo e engraçado, é meio que da minha família. Ou melhor dizendo: minha família é de Pacoti. Minha mãe, minhas tias e meus tios nasceram lá. Minha avó e meu avô moraram lá bons anos, na rua de trás, a rua do cartório e da cadeia, onde tiveram 10 filhos e onde meu avô foi o farmacêutico da cidade. Eu nunca morei ali, mas ouvia muitas histórias da princesinha da serra e de vez em quando (raramente) ia visitar. Na minha infância e adolescência, eu não via muita graça na cidade. Hoje, quando vou a Pacoti, sinto que estou voltando.

A viagem teve um percalço no planejamento: tinha uma data e depois precisou ser remarcada. Na nova data, minha mãe, que queria muito me acompanhar na mostra, prestigiando a filha e a sua cidade natal, não pôde mais ir, e minha tia Nieta se encarregou com orgulho e esmero de representar a família. Só que eu ainda tinha combinado com uma amizade de longa data de vir me visitar aqui em Recife bem na nova data da mostra. Embananada com a remarcação, perguntei se Gab não toparia ir comigo a Pacoti. Topou. Somos amigues há 20 anos, nos unimos pelos quadrinhos, elu trabalha no SESC em São José dos Campos, então fazia até sentido ter a sua companhia na viagem.

Mas o que uma cidade de 12 mil habitantes tem que sediar um evento de quadrinhos? Por que não fazer logo em Fortaleza, com suas 2,5 milhões de pessoas? Alemberg Quindins, do SESC Ceará, defende a descentralização da arte, da cultura, do fazer quadrinhos. Bora inverter a pergunta: por que tem que ser em Fortaleza? Por que não olhar para um Ceará com horizonte mais amplo que a capital? Quando deslocamos o olhar para os interiores, tanto mais pode brotar. Mário Mendez, um dos maiores nomes da caricatura brasileira, é natural de Baturité, ali do ladinho de Pacoti. Levi Jucá, um pacotiense apaixonado, resgatou essa história e escreveu a biografia “Mendez: Mestre da Caricatura”, como processo de promoção da memória e arte do Maciço de Baturité.

Na entrada da cidade, três bonecos recebem a gente na capital cearense dos quadrinhos: Reco-reco, Bolão e Azeitona. Alguns metros depois, foi inaugurado durante a mostra o jumentinho Wanderley. Junto dos gatos, cachorros e pássaros da cidade, personagens que vão criando o folclore de Pacoti. Alemberg mesmo comentou na mesa de abertura: em Pacoti, praticamente cada pé de porta tem um cachorro, e cada quadrinista ali presente conseguiria enxergar um personagem em cada cachorro. Os pássaros também são muitos. Na pousada que ficamos, bem ao lado da mesa do café-da-manhã, uma casinha de madeira era servida com banana para os visitantes. De vez em quando um passarinho voava ao redor e os quadrinistas da mesa faziam: ooooohhhh. Eu na maioria das vezes estava de costas ou distraída, mas tive meu momento de sorte e vi um lindíssimo pássaro pousar, com penas nas cores vermelha, verde e azul.

O grande acontecimento era o lançamento do álbum “Retrato”, a coletânea de músicas de Luís Fidelis quadrinizadas, e o artista deu um show na praça enquanto folheávamos os quadrinhos no telão. Dei autógrafos de montão, e peguei de quase todos os artistas que compunham o álbum. Que satisfação estar ao lado de tanta gente talentosa e generosa. Eu acho que tem muitas chances de você já conhecer a música, mas caso não, o próprio Luiz Fidelis pode te cantar.

Ministrei uma oficina de zine para os alunos da cidade, coisa que adoro. Apresentei algumas zines da minha coleção e expliquei a diversidade de formatos e possibilidades. Ensinei a dobra mais simples, a zine de bolso que transforma uma folha de papel em livreto, e pedi que criassem a partir de um tema que lhes interessasse. Teve zine desenhada, zine de colagem, zine de música e zine inspirada em zine que eu tinha levado. Quem ali pode se tornar uma futura zineira? Fiquei curiosa.

Enquanto os estudantes faziam as suas zines, fiz a minha também, porque não resisti ao convite de Alemberg.

No último dia da programação, um evento que num olhar de leigo pareceria não ter a ver com quadrinhos: a inauguração do Ecomuseu de Pacoti. Uma inauguração tão aguardada, preparada, celebrada. É que no prédio em que foi inaugurado um dia funcionou uma cadeia, por muitos anos. Com sete celas, foi lugar de privação de liberdade. Desde o 1º de abril, e não é mentira, estava em reforma para se transformar em lugar de cultura, ecologia e arte. Levi, a pessoa doida a ter a ideia de transformar cadeia em museu, como ele mesmo falou no seu discurso, foi atrás de outro doido pra topar essa maluquice e encontrou Alemberg. O museu, todo banhado e cheiroso com a recém-reforma, com piso de ladrilho hidráulico elegante e portas abertas, não seria nunca confundido com prisão. No pátio dos fundos, um mural da cidade feito pelo Guabiras, quadrinista cearense excelente que fez as tirinhas do jornal O Povo da minha infância. Na verdade eram três murais: a vista da cidade, uma tirinha sobre a rota do café na serra e uma mesa de café pintada na cisterna, com tapioca, cuscuz, queijo, presunto, café e um gatinho arranhando a beira da toalha. Na tirinha, uma homenagem a Theo, uma criança que acompanhou toda a reforma do prédio com olhar curioso e protetor e trabalhou como ajudante voluntário e enxerido, assistiu a todos os discursos de inauguração de camarote na primeira fileira. Ele já tem o título de guardião do ecomuseu e um crachá pendurado no pescoço. Levi agradeceu todo o empenho da comunidade na reforma. Os vizinhos que rapidamente se prontificaram a aguar as plantas, recolher o lixo e varrer a calçada durante as obras. Pessoas que doaram seu tempo e depositaram esperança naquele espaço. Em certo momento, alguém falou: “Antigamente, eu morava na rua da cadeia. Agora eu moro na rua do museu”.

Minha tia, emocionada, pegou na minha mão. Ela se lembrou de como eles falavam isso mesmo, que moravam na rua da cadeia.

As cores foram resgatadas da fachada original, como mostram o letreiro elegante
Todas as cores que a fachada já teve, preservadas na fachada atual

Depois de um chorinho e das falas todas, demos a volta no prédio pra ver a inauguração de fato na frente. Eu tinha assinado o livro de visitas no número 30 e já tinham mais de 200 assinaturas. Na placa da fachada, um versinho de Alemberg:

Desta casa de cultura
Vês que bela geografia
Memória e meio ambiente
Formando ecologia
Convivendo organicamente
Trazendo sabedoria

É que esse termo “ecomuseu” não é eco de eco-friendly, mas de construir em conjunto com a comunidade e o território uma preservação do patrimônio. Não é uma contemplação de obras desvinculadas da terra, nem é um prédio que desconversa com o entorno. É tudo junto. No momento das falas de apresentação, não faltaram cachorros circulando para prestigiar o evento, depois apreciando a exposição junto aos demais visitantes e inaugurando a fachada com capricho.

A abertura ficou por conta d’Os Chorões do Bacamarte, grupo de Chorinho de Palmácia, cidade vizinha. Ao fundo, mural de Guabiras com a entrada da cidade, com destaque para o periquito-cara-suja pousado na moldura
O crítico de arte

Quando entramos, primeiro tem um hall de entrada. No alto da parede estão pintados galhos de visgueiro, uma árvore presente na região com alguns pés centenários encontrados em expedições de estudantes, e passarinhos nativos, de autoria de Lucivaldo, artista pacotiense especialista em natureza. Na parede, uma gaiola vazia com a portinhola aberta. Ali, ninguém fica preso.

Olha o periquito-cara-suja de novo! Foto: Ribamar Neto

Em uma das salas, a exposição com originais do Mendez e o acervo da gibiteca. Na outra, pinturas de Pacoti e um vislumbre de sua fauna e flora. Uma pintura do cartão postal da cidade por Ana Pimenta. Uma enorme pintura de Lucivaldo com 14 pássaros diferentes da região. Logo encontrei o pássaro tricolor que eu tinha visto de perto. Seu nome: o pintor da serra. Que charme! Tinha um bela coleção de cartões telefônicos e pôsteres da fauna e flora nativa. Conversando, descobrimos que os pôsteres faziam parte do acervo pessoal de Mendez. A estagiária da exposição ainda comentou que a gente não devia saber o que eram os cartões telefônicos, porque éramos muito novas. Eu e Gab nos entreolhamos e rimos, porque a gente tinha usado bastante orelhão e pensamos que a gente provavelmente tinha o dobro da idade da garota. Fizemos as contas e dito e feito.

Pássaros e visgueiro da Serra de Baturité, de Lucivaldo Oliveira, 2016. Consegue identificar o pintor da serra?

É muito lindo presenciar o nascimento de um equipamento artístico e cultural, fruto de trabalho coletivo e de um sonho. A gente fica pensando em tudo o que um museu representa e tudo o que pode brotar ali. As pessoas que vão deixar de passar com medo do lado da cadeia pra entrar curiosas no museu, encontrando ali um acervo histórico construído por elas. E olha só: a inauguração do ecomuseu aconteceu bem no dia de São Francisco de Assis, o santo padroeiro dos bichos e da natureza, no dia 4 de outubro, que nem ia ser a data original mas meio que teve que ser. Várias coincidências juntas são o quê?

Além do livro que participei, ganhei dois outros que me deixaram muito encantada. O primeiro, um livro de memórias de infância de Alemberg, tão ingenuamente caprichado, um livro escrito e desenhado pelas mãos do Alemberg criança. O outro, uma antologia de fanzines fortalezenses da década de 90, Seres Urbanos, me ganhou na forma e no conteúdo. E bem o que eu tô decidindo pesquisar!

Cheguei em casa pensando nas próximas coisas que quero desenhar, as próximas oficinas que quero ministrar, e na viagem já rascunhei o texto de uma futura zine. Li o livrinho de Alemberg, tão esperançoso e inventivo, e vi que ele realmente guarda muito do seu eu criança. Pode ser esse o grande segredo, né? Pensei na minha cabeça que é bem esse tipo de pessoa que eu quero ser. Doida.

Lembrei ainda que minha mãe tinha me presenteado com duas pinturas do Lucivaldo um tempo atrás. Eu enrolei as telas e guardei, estava com a cabeça em outros ares. Cheguei em casa e depois de desfazer um tantinho da mala, mas não muito, fui atrás das pinturas que eu tinha guardado em algum lugar no meu guarda-roupa. Minha cabeça ainda estava em Pacoti e no Ecomuseu. Encontrei enroladinhas numa prateleira. Desenrolei devagar, curiosa com o que ia encontrar, e ali estavam dois passarinhos que me acompanharam da viagem até em casa: o pintor da serra e o o cara-suja.

Passarinhos de Lucivaldo e souvenires do Ecomuseu
Gab e eu no Sítio São Luís
O desenho que estava fazendo no momento da foto anterior
Tia Nieta e eu, no nosso novo lugar favorito de Pacoti

Tenho muito a agradecer às minhas companhias Gab e tia Nieta, que foram as pessoas perfeitas pra me acompanhar naqueles 5 dias, aos demais quadrinistas do álbum, ao Raymundo Netto pelo convite, ao Levi e ao Alemberg, ao pessoal do SESC, aos cachorros, gatos e passarinhos.

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