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Nenhuma pista · Aug 25, 2025

Sobre histórias que resistem ao tempo

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Bito Teles · Nenhuma pista

Não faz muito tempo, há pouco mais de um ano, eu estava lançando a pre-venda com financiamento coletivo do meu livro O Trovão e o Rio. O fato de eu não ter feitos muitos disparos desta News no período não significa que estive em silêncio, mas não vou me alongar, nem ocupar o seu precioso tempo com desculpas esfarrapadas. Não vou. Mas falarei aqui sobre o tempo, esse danadinho. Bora?

No último dia 18 de novembro terminei de escrever um novo livro. “Tempo presente” é o nome provisório. Essa versão da história demorou 3 anos para chegar ao fim, desde quando escrevi a primeira linha. Mas a primeira versão desse “universo” eu escrevi aos 9 anos. “O Mistério da Lagoa” resistiu 35 anos. O manuscrito original de 1989 foi preservado pela minha mãe e vocês podem ver um pouco abaixo.

Já o manuscrito original de 2024 teve vários suportes: escrita direto no computador (boa parte), escrita com caneta digital no tablet (pequena parte) e escrita com caneta no caderno (parte ainda menor). O primeiro impresso original eu dei de presente de aniversário para meu irmão, porque falo nesse livro coisas que são também do mundo dele, de um jeito ou de outro.

[De “O Mistério da Lagoa", o título provisório virou “Cápsula do Tempo"… e depois para “Tempo Presente”, que é o que permanece. Escrevi na praia, lavanderia, avião, quarto de hotel e onde mais fosse possível]

[Gabriel, na praia, lendo a versão que imprimi e depois dei de presente para meu irmão]

A capa ainda é provisória e fiz para poder proporcionar aos leitores e leitoras beta um agrado a mais. Ainda falta um pouco para que o livro seja publicado de fato. Vamos dar tempo ao tempo. =D

Uma pausa para recomendar a News e o livro que “vem aí” do Ricardo Mendes, A Casa da Memória. Textos que misturam reflexão, dicas e relatos pessoais que criam uma trama excelente para quem quer começar a escrever ou já está na estrada há mais tempo!

Vai lá prestigiar ;) - mas só depois de terminar de ler aqui, hein?!

A CASA DA MEMÓRIA

O que acho curioso - o que me motivou a voltar a escrever aqui pra vocês - é que boas histórias resistem ao tempo. Escrevi aqui sobre como é o meu processo de criação e escrita, mas acho que nunca falei sobre um elemento fundamental do meu processo criativo que eu chamo de “mapa de histórias”.

Eu já falei aqui sobre alguns processos de estruturação e arquitetura de conteúdo ajudam muito as pessoas de pensamento caótico como eu. O mapa de histórias é justamente esse modelo de documento que vai estruturar sua memória.

O meu mapa é uma linha do tempo que corre na horizontal comentada, que tem três camadas paralelas (já já apresento elas). E é dividida em colunas de acordo com “fases da vida” (também explico melhor adiante, confia!).

Isso vai exigir um pouco de esforço pra você, pessoa leitora. E talvez você nunca possa considerar o seu mapa “pronto”, porque várias memórias vão seguir aparecendo quando você menos espera. Eu uso o Miro para manter a minha atualizada. Já tive alunos que preferiram fazer em formato de mapa mental e teve gente que preferiu trabalhar com um blocos de texto e tópicos, com esquema de cor, uma beleza.

Vamos ao passo a passo:

  1. Trace a sua linha do tempo:

    Aqui é fácil, né? Mais ou menos. A sua história começa bem antes do dia que você nasceu. No meu caso, por exemplo, em 1950 já tem história, que foi quando meu pai nasceu… mas já resgatei fragmentos do fim dos anos 1800, por exemplo. E a linha pode se esticar para além de 2025. As histórias que você sabe que vai viver podem ser bem importantes para você.

  2. Aponte os grandes marcos da sua vida:

    Aqui você pode pensar no básico: infância, adolescencia, jovem adulto, velhice. Mas também pode pensar nas mudanças de cidade, marcos críticos como acidentes ou mortes na família, por exemplo. Nascimento dos pais, dos avós, imigração da família… ixi! É tanta coisa que você vai ver que os marcos em si já podem ser substrato importante para muitas histórias.

  3. Agora vamos para as camadas:

    Se os marcos apontados formam a espinha dorsal do seu mapa de histórias, as camadas serão a musculatura que vai dar força para seu processo. É aqui que você vai encontrar pérolas para fazer um par de brincos ou mesmo um belo colar.

    1. As suas primeiras memórias

      Esse é um exercício muito legal de fazer. Normalmente surgirão aqui algumas das coisas mais marcantes da sua vida. Eu, por exemplo, tenho 4 memórias bem antigas e acho que servem para exemplificar. A minha memória mais antiga é uma cena. Eu sentado em cima do piano na casa da minha avó me divertindo enquanto ela tocava alguma coisa para mim. Essa relação com a minha avó Aninha apareceu no livro O Tutu Amarelo e o Bolo de Chocolate. Outra memória dessa época - por volta dos 5 anos, também envolve minha avó Aninha. Se eu soubesse desenhar, seria capaz de reproduzir perfeitamente a cena em que recebemos a notícía da sua partida prematura. A tristeza que tomou conta de casa e o choro do meu irmão mais velho me deram a dimensão do que era a morte pela primeira vez. Tem muito deste sentimento nesse livro novo que “vem aí”.

      Um pouco mais velho, entre 6 e 7 anos, resgato a memória do dia em que aprendi que cheiro era uma coisa que existia… e que eu não sentia. Isso também virou história e que se mistura com outra que contei aqui nessa news. E foi também nessa época que vivi a minha maior glória, a maior vitória que uma criança poderia alcançar naquela época: aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas, sozinho. Saí correndo e gritando “eu conseguiiiiii” pela velha casa de Amoreiras para um público de zero pessoas. Grande momento. Enfim… veja que não precisam ser histórias completas ou complexas. Essas primeiras memórias têm um valor simbólico importante e muitas vezes retratam situações universais, o que é um ótimo material para escrever ficção.

    2. As histórias que contam sobre você

      Nem tudo sobre a infância são as suas memórias. Boa parte são as histórias que contam sobre você. Por exemplo, tem a história clássica na minha família, que foi quando eu me tornei torcedor do Vitória. Veja bem. Quase toda a minha família torce para o Bahia e eu era o mais novo e ninguém me levava para a Fonte Nova. Meu tio Hélio, o único rubro-negro até então, me fez uma proposta. “Se você for Vitória, eu te levo pra Fonte Nova”. Uai! Na hora! Ganhei a camisa, aprendi o hino e me tornei vitoriano de coração por um semestre. Isso foi no início em 1987. Lá pelo meio do ano, depois que o Bahia venceu a Catuense na final do baianão, minha mãe conta que eu estava no banco de tras do carro e pergunto: “Mãe, a gente pode trocar de time?”. Minha mãe, a maior tricolor que já existiu, responde com um brilho no olhar: “Sim, filho. Pode”. E eu emendo sem respirar: “Mas mesmo se já mudou uma vez?”. Minha mãe, com a pedagogia que lhe era particular, me faz refletir: “Porque, filho? Você quer trocar de time? Não quer mais torcer pro Vitória?”. Acolhido pela voz serena de dona Ana Regina, decreto: “Sim, mãe. É que eu cansei de perder”. Isso tudo segundo ela própria, claro. Eu não me lembro dessa história. Mas eu não canso de repetí-la, porque é maravilhosa. Certamente você vai ter histórias desse tipo, coisas que contam sobre você, sobre o que você fez, o que falou, como se comportou… tanto na infância como na vida adulta. “Ah! Você lembra quando o Bito jogou o carro dentro do rio na Chapada Diamantina?”. Essa meu pai não cansa de contar kkkkk

      Normalmente são histórias com mais cara de história, mais prontas, porque são elaboradas, são repetidas muitas vezes e vão sendo lapidadas ao longo do tempo.

    3. As histórias que você viu acontecer

      Por fim, mas não menos importante, são as histórias que você viu (ou ouviu). Você não foi o protagonista ou mesmo coadjuvante necessariamente, mas consegue perceber o efeito que elas geram nos outros ao serem repetidas. Os famosos causos que não cansamos de repetir de amigos, familiares ou estranhos com quem esbarramos nas ruas. No livro A Maleta do Meu Pai, de Orhan Pamuk (que li na tradução do Sergio Flaksman), pela Companhia das Letras, tem uma frase ótima que reflete essa camada:

      “O escritor que se recolhe e antes de mais nada empreende uma viagem para dentro de si mesmo haverá de descobrir ao longo dos anos a regra eterna da literatura: é preciso ter o talento de contar as próprias histórias como se fossem histórias dos outros, e contar as histórias dos outros como se fossem suas, porque é isso a literatura.”

Pronto. O caminho é esse. Com isso você já tem um bom material para começar.

Uma coisa importante é que,a não ser que você pretenda escrever uma biografia, o seu mapa será apenas uma fonte e você poderá contar histórias suas como se fossem de outras pessoas, ou mesmo contar histórias que você viu acontecer como se fossem com você. Poderá também misturar acontecimentos de épocas diferentes, pegar emprestado daqui e dali de acordo com a necessidade.

Boa sorte na criação do seu mapa! Ah! E se você não quiser fazer o mapa todo, mas tem vontade de começar a escrever, reproduzo a fala de Flannery O’Connor, citado pela Anne Lamott no seu belíssimo Palavra por Palavra (tradução de Marcello Lino), editora Sextante:

“Comece pela infância. Qualuqer pessoa que sobreviveu à infância tem material suficiente para escrever pelo resto da vida.”

Sabe onde você pode encontrar histórias que eu resgato ou invento? Lá na Livroteca Story Time. Obras criadas ou editadas por nós e entregamos em todo Brasil. Você pode conhecer nossos livros, nossos serviços, e fazer nosso dia dos pais ainda mais feliz!

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