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Nenhuma pista · Aug 7, 2025

Sobre escrita, literatura e paternidade

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Dia dos pais tá chegando e essa semana resgatei várias boas memórias sobre o tema.

Dia dos pais tá chegando e essa semana resgatei várias boas memórias sobre o tema. Eu nem vou me desculpar pelos longos hiatos dessa minha news, já que presumo que a escassez seja algo que ajude a valorizar os e-mails que envio.

E hoje é dia de falar de como me tornar pai transformou a minha relação com a escrita. No final, ainda compartilho uma história inédita com vocês. Bora?


Quando descobrimos que Vanessa, minha esposa, estava grávida do Gabriel, reativei o meu modo blogueiro e criei o blog O Filho que Eu Quero Ter. Foi uma experiência muito legal que durou mais ou menos três anos de atualizações em que compartilhei crônicas sobre a paternidade. Produzi séries muito legais, como por exemplo as crônicas de “Como nasce um torcedor”… não cheguei a fazer sucesso, mas tive alguns convites de marcas para participar de eventos, mas a exposição recorrente da imagem do meu filho passou a me incomodar, então decidi tirar o blog da tomada. Ser cronista da paternidade foi uma grande farra e é uma pena que eu tenha perdido a maioria dos textos que produzi na época.

Um tempo depois, mais uma barriga grande, mais um bebê chegando, e era a vez de Lia balançar as estruturas da gente. Uma gravidez difícil que fez crescer em mim a vontade de “gerar” alguma coisa também… e foi assim que surgiu o meu primeiro livro publicado, O Menino que Aprendeu (e ensinou) a Olhar. E essa foi uma grande coisa que desenrolou tooooodo um rolê da nossa família com a literatura que você pode ver aqui nesse post.

O fato é que, sem dúvida, a paternidade foi um grande marco na minha vida. Dois marcos, na verdade… Gabriel e Lia, cada um em seu tempo, foram fundamentais para moldar a pessoa que sou hoje. Eles são fim, são princípio e são meio para quase tudo o que faço. A minha identidade é constituída também por eles.

E foi fazendo essa reflexão que me lembrei de uma história que criei depois de uma oficina que ministrei. Os meus alunos tínham que se apresentar usando um objeto que carregavam sempre consigo, algo que os pudesse representar, e um deles falou: “Eu não carrego nada comigo, porque eu perco tudo. Sou muito esquecido…” Na sequência, no entanto, falou que estava sempre com uma mochila com as coisas da filha. Compartilhou um pouco mais de detalhes com a turma e isso me inspirou a escrever o texto abaixo.

Fica de presente de dia dos pais =D


O mundo em uma mochila

Bito Teles

A escola de vocês não deve ter sido tão diferente da minha. Os corredores, os lanches, uniformes e livros didáticos... quase tudo variações sobre um mesmo tema. Os amigos também, presumo que sim. O atleta, a brincalhona, os artistas de caneta BIC e o esquecido. Sim, esquecido, meio atrapalhado, que deixa um rastro de coisas pelo caminho ou às vezes não tem nada nas mãos para marcá-lo. Eu tive um amigo assim. Meu melhor amigo, o Bedo, com quem fiz alfabetização e me formei do segundo grau. Bito e Bedo, os inseparáveis.

Em dia de educação física ele aparecia de calça jeans. Em dia prova, esquecia a caneta. Sempre surpreendido pela data da entrega dos trabalhos marcadas meses antes. Eu estava sempre lá para salvar a pele dele. Bedo esquecia a mochila no ponto de ônibus, a bola de futebol ao lado do banco da praça, e só não esquecia a cabeça por aí porque estava grudada no pescoço, era o que dizia sua mãe quase sempre na hora de deixá-lo na escola, só de meia, porque havia esquecido os sapatos no hall do elevador.

Com o passar dos anos, Bedo foi se adaptando. De tanto esquecer tudo, passou a reduzir ao mínimo as coisas que carregava consigo. Uma caneta da mais barata, um caderno de 24 matérias, e a carteira muito fina, somente com cartão do transporte, o dinheiro para o lanche do dia e uma cópia autenticada do RG. Menos coisas, menos riscos.

Eu admirava seu estilo de vida simples, leve e descompromissado, e fomos amigos para sempre até que forças diversas desviaram nossos caminhos. Fiquei muitos anos sem vê-lo depois da formatura do segundo grau. Não consegui encontrá-lo para mandar o convite do casamento, nem para contar a novidade quando descobri que iria ser papai. O tempo foi passando, mas jamais esqueci do meu amigo.

Na semana passada tive o prazer de levar minha filha para um parque que fica longe da nossa casa. Mas era um lugar ótimo, ao lado de um haras, com muita área livre para brincadeiras. Consegui um lugar para sentar num banco bem em frente à caixa de areia, observando os movimentos aleatórios das crianças enquanto brincam. Sempre fico hipnotizado vendo crianças brincarem. Tanto que nem percebi quando alguém sentou-se ao meu lado.

- Bito? - ouvi a voz grave falar meu nome e não reconheci de primeira. Mas o rosto de Bedo não havia mudado nada!

- Se esqueceu de envelhecer também meu amigo? Quanto tempo! - Respondi com empolgação!

- Você também não mudou nada. Só a careca que está mais evidente. Bom te ver.

Bem nessa hora minha filha chegou choramingando, dizendo que havia caído areia em seu olho. Bedo virou para o lado, tirou de sua mochila uma garrafinha de água e ofereceu para que a Lia lavasse o rosto.

Agradeci e não pude deixar de notar que era a primeira vez em 30 anos que eu via Bedo usando uma mochila. Seguimos papeando sobre como estavam as coisas, o que havíamos feito e deixado de fazer, sem a cobrança por termos perdido contato. Na nossa época não havia internet, grupo do Zap ou coisas do tipo que nos deixam amarrados para sempre. Acontece.

Alguns minutos passaram e minha filha voltou.

- Papai, to com fome!

Eu não havia levado nada para o lanche. Esqueci de separar. O plano então era lanchar hamburger na saída.

- Toma, eu trouxe um biscoito. Se seu pai deixar, pode comer. - Bedo ofereceu o pacote quando consenti, e Lia saiu em disparada com os recheados na mão. Se esqueceu de agradecer.

- Puxa! Água, biscoito... que mais você trouxe aí? - Perguntei em tom de deboche, mas com olhar admirado.

Ele riu e puxou a mochila para perto. Foi revirando por cima enquanto citava os itens: “um pouco de tudo. Tem um livro, fone de ouvido, frutinhas secas, duas mudas de roupas de criança, uma caderneta de saúde, caneta, um tablet, capa de chuva, livro de colorir, giz de cera, uma farmacinha básica, e uma injeção de adrenalina.”

Parou de listar quando viu minha cara de interrogação, mas então prosseguiu para explicar.

- Todas as tardes venho neste parque com minha filha. Aquela ali, ao lado do cavalo. Ela está no espectro autista - Disse ele apontando para a direção da caixa de areia, mas com olhar para além dela, mais para o fundo. - As sessões de terapia são longas, então trago algumas coisas para me entreter. Também preciso trazer as coisas para ela. Nunca sabemos o que pode acontecer, aí é bom estar preparado.

Enquanto falava, Bedo não percebia que meu semblante mudava. O deboche transformou-se em interrogação. A interrogação virou orgulho.

Meu melhor amigo Bedo, o esquecido. O menino que andava sem nada nas mãos para não perder, carrega agora o mundo inteiro dentro da sua mochila. Acho que é porque hoje tem uma razão para lembrar.


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