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Nenhuma pista · Oct 13, 2025

Acordei Poeta

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Hoje cedo me mandaram uma mensagem me felicitando pelo Dia Mundial do Escritor.

Hoje cedo me mandaram uma mensagem me felicitando pelo Dia Mundial do Escritor. Nem sei se é mesmo, mas fiquei feliz com a lembrança. Principalmente porque dia desses me peguei lendo um livro que bagunçou as estruturas por aqui e aí juntei a fome com a vontade de escrever. Bora?


Acordei poeta. Mas, como assim, se não escrevo poemas? Não sei, estou escrevendo para tentar entender o fato de que acordei poeta. Não que eu nunca tenha escrito poemas. Nossa! Escrevi muitos e tantos e tão qualidade tão duvidosa que é difícil até de conceber que tive tempo e coragem para tanto. Mas há quase 25 anos não crio versos. Isso... mas acordei poeta.

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Acordei poeta, mas não sei mais como fazer versos. Só prosa. Então não sou poeta. Certo?

Imediatamente fui transportando para tempos antigos da minha existência, antes mesmo de eu conhecer Florbela, Cecília e Vinícius tão intimamente a ponto de chamá-las pelo primeiro nome. Eu tinha 13 ou 14 anos e achei um caderno de uma prima que copiava poesias que gostava. Talvez ela também as criasse, mas sempre assumi que fossem de outra pessoa. Copiei para mim as poesias, sem saber de quem eram e algumas delas recitei como se fossem minhas. Mal sabia contar os decassílabos (não prestava atenção às aulas, já que as ondas do mar eram magicamente mais interessantes)... mas lá estava eu tomando posse de sonetos perfeitos. Havia algo ali que mexeu comigo e me tornei poeta. Poesia dos outros, mas ainda assim poesia.

Acordei poeta e percebi que, o que havia lá, ainda há aqui. O pensamento vem ritmado, floreado e parece que tudo me interessa, sobretudo as coisas inúteis e frívolas. O riacho escondido na mata que vi pela janela de dentro do metrô lotado. A bagagem esquecida, rodando na esteira eternamente no aeroporto. Até a louça suja dentro da pia ganha contornos tais que garfo e faca se enroscam de modo sensual, enquanto a colher, largada no canto, transborda a água como se chorasse.

Ser poeta então, para além do que se escreve - e como se escreve - tem mais a ver com o espírito, com a lente que se olha o mundo. Ser poeta é usar óculos feitos de metáforas, hiperboles e metonímeas.

Acordei poeta. Levantei da cama, apalpei a mesa de cabeceira buscano auxílio para ver melhor. Os óculos de grau haviam caído, derrubados pela gata na madrugada. Alcancei os óculos de metáfora e os vesti de novo sem perceber.

Não pretendo tirá-los tão cedo.


O livro que li e que me inspirou a mandar essa News econômica foi Vamos Comprar um Poeta, texto divertido e ligeiro que me arrancou sorrisos verdadeiros. Afonso Cruz brilhou muito nessa queixa ao utilitarismo e a vida baseada em dados.

Para mim, o que vale mesmo são os beijos e abraços dados… só isso mesmo.

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