Ando meio cansada dos meus textos. Sempre muito bem estruturadinhos… Sempre muito analíticos… Sempre diretos… Sempre tentando contornar qualquer aparente subjetividade e juízo de valor ao longo do desencadeamento das ideias… Esforço meio besta, se parar para pensar sobre. Não é como se eu não tivesse plena noção de que a ciência é altamente permeada por subjetividade do início ao fim, e que optar por tal forma engessada de escrita (ou por qualquer outra), no fim das contas, não deveria representar garantia de absolutamente nada para o meu leitor. Muito disso nunca fez muito sentido, mas confortava a mim mesma mentalmente dizendo que “tudo bem”, pois isso “faz parte do jogo” da comunicação. Muito de tudo tem sido “parte do jogo”, aliás… E, veja bem, não estou aqui tentando dizer que os textos que escrevi até o momento não foram profundamente honestos, nem nada nesse sentido. Foram muito. Foram mesmo. Foi um esforço gigantesco tentar dar sentido a um monte de ideias que atormentam minha cabeça dia sim e dia também, abrindo mão de muitas das minhas divagações para tentar me fazer inteligível para o meu leitor, esse outro alguém, do outro lado de alguma tela, que eu sequer sei quem pode ser. E, também, “tudo bem”, pois não é isso condição sine qua non de estar em relação? Então, encaro isso como estar em relação com esse tal sujeito leitor.
Os textos foram altamente honestos, isso eu garanto. Mas eu cansei de travessões. E de muitas outras coisas...
Eu amava tanto travessões! Uma vez uma professora do ensino médio me perguntou por que eu sempre enchia meus textos de travessões, e eu, muito ingenuamente, respondi: “é que gosto de abrir parênteses”.
Então, por que não parênteses?
Porque não.
Abrir um travessão, na minha cabeça, era quase como se eu saltasse do canto da página com o dedo indicador levantado, tal qual o professor Tiburcio do Rá-Tim-Bum, desse meu close, e desaparecesse de cena assim que o travessão de fechamento fosse colocado, retomando uma linha de raciocínio anteriormente posta.
Outra coisa que eu gostava muito eram as reticências, até que minha inclinação ao uso foi podada por aquela mesma professora, quando me disse que eu “precisava finalizar os argumentos que eu começava”. Ela estava certa, obviamente. Eu sempre as usava de maneira equivocada ao final dos parágrafos, como recurso para “criar um suspense”, a fim de manter meu leitor interessado no que eu teria a dizer na sequência. Isso me fez ganhar tanto medo de usá-las, que eu passei a evitá-las mesmo quando eram pertinentes.
Inclusive, eu acredito muito na possibilidade de que, eventualmente, eu também tenha utilizizado os travessões que eu tanto amava de forma equivocada, justamente por imaginá-los como sendo esse tal efeito “visual” de jump, que acho extremamente icônico.
Outro vício de escrita que sempre me perseguiu, é começar frases com “E”. Na frequência com que eu faço e da forma como eu faço, também não deve ser o melhor uso desse recurso.
E muitos outros “vícios”…
Aprendi a evitar todos esses “erros”. Aprendi a escrever exatamente dentro daquilo que era esperado, daquilo que era “o melhor jeito”. Notas altas em redações vieram; uma aprovação na universidade com a qual sempre sonhei, também — aprovação que se deu, em grande medida, justamente pela discrepância na minha nota da redação no vestibular. E, olha só! Eu usei travessão de novo. Mas eu estou cansada de travessões e acho que nem preciso explicar muito o motivo.
Todo mundo está cansado de travessões, em tempos de chatGPT e demais modelos massivos de linguagem (LLMs).
Mas, sabe o que é mais triste? É que o problema não me parece ser apenas o uso repetitivo de travessões nos textos gerados pelas LLMs. Eu também sempre usei muito e repetidamente os travessões, e nunca vi isso como um problema — não significa que não fossem. O problema, para mim, é apenas um constante sentimento de que, apesar de repetidos, os meus travessões (e os de todo mundo), tinham “vida”. Era aquele tal jump no canto da página, era o efeito “visual” que ele causava. Essa era a “alma” do travessão, ao meu ver — e aqui eu não estou querendo entrar em uma grande discussão filosófica sobre essência e aparência, até porque já gastei bons anos no início da graduação detida neste tipo de questão para, muito confiantemente, me permitir suspender no decorrer deste texto essa racionalização sobre a percepção humana e sobre a experiência direta.
Talvez tudo isso já esteja soando ridículo para o meu leitor a esta altura, mas preciso desabafar que, para mim, que sempre tive essa relação — e, diria, essa negociação árdua— com a escrita, é sim um pouco ofensivo esse uso literalmente sem noção de travessão por parte das LLMs. Porque, quando lembro dos travessões, das vírgulas, dos pontos e vírgulas, das reticências, dos “E” iniciando as frases, das repetições de palavras, e de vários outros recursos que eu já tive que negociar com os textos que escrevi ao longo da vida, tendo a pensar que ali, talvez, fosse justamente onde eu dava “vida” para eles. Quase como Gepeto criando seu boneco de madeira e, ao terminar, perceber que “estava vivo”. Sim, essa era eu escrevendo um texto. Mas a analogia não poderia ser pior, uma vez que os próprios investimentos humanos nas chamadas “inteligências” “artificiais” são constantemente associadas à história do Pinóquio.
E, sei lá…
Sabe que, logo que as LLMs começaram a se popularizar, eu realmente as considerava um excelente recurso para revisar textos? Pois é... Eu pensava: “bom, essa negociação com o texto, que sempre foi tão árdua, agora pode ser mediada!”. Nunca tive problema em submeter meus textos à revisão humana, nem mesmo tive ressalvas com as sugestões automáticas dos softwares processadores de texto, então, logicamente, não deveria ter motivos para rejeitar uma revisão feita por essa tecnologia. Então, como mágica, as palavras “certas” e os recursos “certos” eram “perfeitamente” colocados em sequência ao longo das linhas. A sensação de fluidez era, à primeira vista, realmente impressionante. Não precisar negociar mais com o texto parecia um alívio. Poupava um tempão!
Pouco depois, li o artigo “Um espectro ronda a escrita: o espectro da inteligência artificial” do professor Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio e da mestranda Bárbara de Abreu Freitas, ambos da FEUSP — um ótimo artigo, por sinal. No texto, eles conjecturam sobre como o advento das LLMs influenciaria a escrita ao antecipar palavras, abordando a escrita como essa coisa que nasce entre a expressão, a dúvida, o intervalo e a correção (que é, efetivamente, o exercício do pensar). “O que sobra da escrita como conhecemos?” é o que tentam responder no artigo. No texto, eles sugerem que os processos educativos teriam que dar conta desta nova demanda, e sugerem que a saída poderia se dar através do ensino de uma “escrita conjunta” ou “reescrita” com as IAs.
Não muito depois da leitura deste texto, os feeds das “redes sociais de foto e video” que frequento ficaram inundados de posts e legendas visivelmente feitos com IAs generativas. Textos que, de forma igualmente visível, sequer mereceram esse tal “processo de reescrita”, que os pesquisadores da FEUSP que citei sugeriram. Simplesmente, começou a ficar insuportável, e não só para mim, uma vez que, ao mesmo tempo, vi as “redes sociais de texto” (microblogging) que frequento ficarem repletas de reclamações sobre tal fenômeno. Digamos que elas “resistiram” — e, por aí, vocês já podem imaginar que eu não estou falando sobre o Threads. Quem diria que meu formato de rede social favorito seria, talvez por sua própria dinâmica, um pólo de “resistência” ao avanço desenfreado dos textos gerados por LLMs…
Ficou insuportável, e está insuportável. Mas quando mais me doeu, foi quando tive o desprazer de ver um pesquisador fazer uma apresentação inteira de uma pesquisa autoral, que realizou ao longo de anos, utilizando “apenas um prompt” — e entusiasmado por isso.
Mas, ainda sobre as redes sociais, essa inundação de “textos robóticos” começou a me cutucar em um lugar especialmente incômodo. Isso porque eu sempre tive uma relação muito complicada com redes sociais, de modo geral. Há três dias atrás viralizou um vídeo meu e, mais uma vez, me peguei me perguntando se amo ou odeio redes sociais. No fundo, eu sei que essa é uma pergunta idiota, porque amor e ódio sequer são sentimentos opostos; antes o contrário. Mas, o ponto é que as redes sociais, para mim, sempre foram um abismo olhando de volta. O que sobre mim quero mostrar para as pessoas? O que de mim quero esconder delas? O que quero simplesmente preservar? Que tipo de relação quero estabelecer com desconhecidos? Que tipo de relação devo estabelecer com desconhecidos? Até que ponto aquilo que eu mostro efetivamente é aquilo que sou? E demais questões do tipo, que devem ser comuns para muita gente. Questões que rodam, rodam, e retornam para a tal questão filosófica sobre essência e aparência, da qual, nos últimos dias, cansei um pouco de pensar sobre.
Vejam só, a ciência é uma coisa TÃO subjetiva, que a minha escolha pela antropologia digital veio justamente dessa relação de amor/ódio pelas redes sociais. E é irônico que, com essa enxurrada de textos de gerados por LLMs nas redes, de repente me veja sentindo falta daquilo com que eu sempre odiei me confrontar: o meu leitor, do outro lado de alguma tela, que sequer sei quem pode ser — e que, a esta altura, pode ser ninguém, se eu quiser. Ao rolar o feed e ler textos gerados por “inteligências” “artificiais”, não estou lendo alguém. Da mesma forma, se eu quiser, posso fazer com que ninguém me leia, e ainda assim estar postando ativamente. Posso despejar apenas palavras “perfeitamente” alinhadas, criando frases incomodamente fluidas, que nunca efetivamente partiram de mim. Nesse contexto, penso que até mesmo a “reescrita com a IA” me parece uma questão incômoda— embora um problema menor, obviamente. Preservam-se as ideias, talvez, mas o texto parece/é morto. Sem “alma”, seja lá o que “alma” for a essa altura. A única coisa que sinto é que os travessões robóticos não causam o efeito que, até pouco tempo atrás, foi responsável pela minha obsessão por travessões. Talvez porque talvez não tenha nada para ver “pulando no canto da página”, afinal. Talvez porque a página pareça/esteja vazia.
Usar redes sociais em 2026 me deprime por motivos diferentes daqueles que me deprimiam anteriormente. Se antes, em meio a uma negociação e outra com um texto durante sua escrita, eu achava uma excelente ideia “pedir sugestões para o DeepSeek” de como fazer uma boa negociação e “bom uso” das palavras e recursos, hoje sinto uma aversão profunda e altamente irracional. Sinto que até mesmo essa negociação inocente arrisca tirar a vida dos meus textos, a tal ponto que o simples uso do travessão de minha parte passou a me incomodar. Aqueles travessões que eu tanto amava, agora estão sendo evitados — não neste texto, como talvez puderam notar. E tudo isso me entristece também.
E, novamente, sei lá…
Neste texto não quis dar respostas, até porque eu nunca as tive de fato. Considere este, caro meu leitor, um texto “apaixonado”. Eu só precisava mesmo escrever um texto qualquer e despretensioso do início ao fim, dando vazão à minha atual frustração — e dando espaço para todos os meus “vícios” de escrita que, por muitos anos e de forma injusta, foram arduamente contidos. Porque, veja bem, se hoje os textos “perfeitos” das LLMs me soam tão incômodos e ofensivos por parecerem/serem vazios e sem vida, talvez, agora, finalmente, seja um bom momento para deixar esses “erros de escrita” fluírem livremente pelas páginas e serem aquilo que até hoje acreditei que não poderiam ser: acertos.
BIANA (Bianca Fernandes)
Pesquisadora e mestranda em antropologia digital pela Universidade de São Paulo. Integrante do projeto organica.social e da Rede pela Soberania Digital.
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