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BIANA · May 31, 2026

Cybersyn e os dilemas da técnica moderna

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BIANA · BIANA

arte: magdiel // releitura da sala de operações da Cybersyn

A “metáfora da faca” circula pelo meio tech de forma mais frequente do que eu gostaria de admitir. Ela costuma ser formulada da seguinte maneira: “uma faca pode ser usada para cortar pão ou para matar alguém; a culpa não é da faca, mas de quem a usa”. Em geral, essa analogia é mobilizada para defender a ideia de que o problema não está na tecnologia em si, mas nos usos que se faz dela.

Langdon Winner em seu ensaio “Do Artifacts Have Politics?”, argumenta que artefatos podem incorporar formas de poder e autoridade, e que tecnologias se tornam meios para resolver questões políticas. Ele defende essa posição com a história das pontes de Robert Moses, onde, segundo Winner, alguns viadutos construídos em Long Island foram projetados baixos o suficiente para impedir a passagem de ônibus e, como os ônibus eram utilizados principalmente pelas populações pobres e negras de Nova York, isso teria dificultado seu acesso a determinadas praias e áreas de lazer local. O caso foi posteriormente debatido por historiadores, mas o ponto central não é apenas se a história ocorreu exatamente dessa forma ou não, e sim o princípio teórico que Winner extrai dela: uma decisão técnica aparentemente banal, como a altura de uma ponte, pode produzir efeitos duradouros de exclusão social.

Além disso, Winner afirma que algumas tecnologias são “fortemente compatíveis” com determinadas formas de poder. Seu exemplo clássico é a energia nuclear. Uma sociedade baseada em usinas nucleares necessita de especialistas altamente treinados, sistemas rígidos de segurança, vigilância constante, burocracias complexas e controle centralizado. Mesmo que se deseje uma gestão completamente horizontal e descentralizada, a própria natureza da tecnologia empurra a organização social em direção à centralização, porque o material radioativo é extremamente perigoso e vazamentos podem afetar milhões de pessoas; além de o funcionamento exigir conhecimento altamente especializado e a manutenção depender de protocolos rígidos e contínuos. Assim, surge a pergunta “seria possível administrar milhares de toneladas de material radioativo por meio de assembleias locais abertas e decisões espontâneas?”. Talvez sim, mas, na concepção do autor, a tecnologia cria fortes pressões na direção oposta.

Embora o argumento de Winner tenha sido posteriormente criticado por atribuir às características dos artefatos um papel por vezes excessivamente privilegiado na explicação das formas de organização política, a questão que ele formula permanece relevante, pois, em vez de assumir que qualquer tecnologia pode servir indistintamente a qualquer projeto social, Winner chama atenção para a necessidade de investigar como infraestruturas e arquiteturas técnicas participam da constituição de arranjos específicos de organização social, favorecendo determinadas formas de autoridade e participação em detrimento de outras. Assim, aqui eu tomo tal argumento como um tipo especial de convite a examinar como escolhas inscritas no desenho de plataformas, protocolos, sistemas de circulação e demais infraestruturas técnicas participam da coprodução de mundos sociais específicos.

E é a partir disso que eu gostaria de compartilhar algumas reflexões que tenho feito sobre a Cybersyn.

O projeto Cybersyn, desenvolvido no Chile entre 1971 e 1973, é ao mesmo tempo um dos experimentos mais ambiciosos de planejamento socialista mediado por tecnologia e um caso-limite para pensar se a técnica moderna e inscrita no sistema capitalista pode ser simplesmente “redirecionada” politicamente para o socialismo.

A Cybersyn foi um projeto desenvolvido durante o governo de Salvador Allende, no Chile, com o objetivo de apoiar a coordenação das empresas integradas à Área de Propriedade Social, setor da economia que reunia as empresas incorporadas ao controle estatal durante o processo de transição ao socialismo proposto pela Unidade Popular. Concebida em colaboração com o ciberneticista britânico Stafford Beer, a iniciativa buscava utilizar redes de comunicação, coleta de dados e modelos cibernéticos para aprimorar a circulação de informações entre fábricas e órgãos de planejamento. Por meio de uma rede nacional de telex, o sistema permitia o envio regular de indicadores produtivos e a identificação rápida de problemas, buscando reduzir a dependência de estruturas burocráticas lentas e altamente hierarquizadas. Seu elemento mais conhecido foi a Operations Room (Opsroom), uma sala de operações projetada para visualizar informações econômicas e apoiar processos de tomada de decisão. A ilustração do Magdiel que acompanha este texto faz referência direta a esse ambiente, cuja estética futurista se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis da experiência chilena. Assim, a Cybersyn constituiu uma experiência singular de articulação entre planejamento econômico, teoria cibernética e imaginações socialistas sobre coordenação, participação e controle — experiência que muito deveria nos interessar hoje.

A documentação primária e a melhor historiografia mostram que a experiência chilena não pretendia construir um sistema de planejamento econômico baseado em uma centralização hierárquica rígida. Stafford Beer, Fernando Flores e parte da equipe apostavam em coordenação distribuída, sinais de exceção, autonomia relativa das unidades produtivas e até mecanismos de retroalimentação popular. Ainda assim, para que o sistema funcionasse, era necessário transformar a complexidade da vida econômica em informações que pudessem circular pela rede. Dados produzidos nas fábricas precisavam ser selecionados, convertidos em indicadores padronizados, reunidos em relatórios e apresentados de forma inteligível aos responsáveis pela tomada de decisão. Em outras palavras, processos sociais complexos e diversos eram traduzidos em sinais administráveis, passíveis de monitoramento, comparação e intervenção.

É exatamente aí que começo a remoer a seguinte questão: quando colocamos tecnologias de coordenação e controle a serviço de um projeto socialista, estamos transformando apenas quem exerce o controle ou também a própria forma como o controle é organizado? Em outras palavras, basta socializar o comando, ou é preciso questionar as formas técnicas de coordenação, monitoramento e gestão herdadas da sociedade capitalista?

As fontes oficiais chilenas são decisivas para começar a dar contornos a este problema. O programa básico da Unidade Popular vinculava a transição socialista ao controle político e econômico pelo “pueblo organizado”, à área estatal da economia e à planificação geral. No primeiro Mensaje Presidencial de 1971, Allende insistia que o obstáculo central não estava na técnica em si, mas na ordem social e institucional existente. Lida retrospectivamente, essa formulação permite recolocar algumas das questões centrais da teoria crítica da tecnologia. A Cybersyn oferece uma versão historicamente situada da aposta em utilizar a técnica para fins socialistas, enquanto autores como Postone, Kurz, Gorz e outros nos convidam a perguntar se a técnica moderna já incorpora formas de abstração, temporalização e racionalidade administrativa constituídas no interior da sociedade produtora de mercadorias.

Minha intenção neste texto não é tratar a Cybersyn como prova da impossibilidade de uma apropriação socialista das formas técnicas de coordenação características da modernidade capitalista. O que quero é mostrar que essa experiência torna visível uma tensão estrutural entre socialização do comando e permanência de formas abstratas de mediação; entre participação operária e filtragem informacional; entre promessa de autonomia e intensificação da racionalidade de desempenho; e entre infraestrutura estatal e dependência de formas técnicas produzidas no interior do capitalismo mundial — questões que me angustiam, principalmente, levando em consideração nossa miserável conjuntura de ascenso das IAs e o otimismo de alguns setores ao redor dela.

O documento programático da Unidade Popular, aprovado em 1969 e publicado em 1970, diagnosticava o Chile como uma formação capitalista dependente do imperialismo, defendia a transferência do poder dos grupos dominantes para trabalhadores, camponeses e setores progressistas das camadas médias, e vinculava a transformação econômica à área estatal e à planificação geral conduzida pelo “pueblo organizado”. O mesmo programa imaginava os Comitês de Unidade Popular como “expressões germinais” de poder popular, o que importa aqui porque fixa, desde o início, uma tensão entre mediações estatais e formas populares de iniciativa política.

No primeiro Mensaje Presidencial ao Congresso, em 21 de maio de 1971, Allende formulou a “via chilena ao socialismo” como democrática, pluralista e libertária. Mais decisivo para o enquadramento teórico que trago aqui é outro ponto do discurso: Allende afirma que “las dificultades no están en la técnica” e que o que impede a realização dos ideais é o “modo de ordenación de la sociedad”, os interesses que a regem e as compulsões institucionais da dependência. Essa formulação oficial enuncia com clareza o problema: se o bloqueio é concebido como social e institucional, bastaria reorientar a técnica para outros objetivos, ou seria necessário questionar as formas históricas de racionalidade, abstração e coordenação nela sedimentadas?

O contexto político rapidamente endureceu. Allende assumiu em novembro de 1970; em 1971 avançou a nacionalização do cobre; ao mesmo tempo, documentos oficiais norte-americanos posteriormente desclassificados mostram uma política de pressão e desestabilização destinada a impedir a consolidação do governo da Unidade Popular. Em outubro de 1972, a greve dos caminhoneiros tornou-se um ponto de inflexão, onde, em 10 de outubro já havia cerca de 12 mil caminhoneiros paralisados, número que cresceu rapidamente para dezenas de milhares, em um cenário de boicote, desabastecimento e polarização social. Em 11 de setembro de 1973, o golpe militar liderado por Augusto Pinochet encerrou violentamente a experiência da Unidade Popular. Naquele mesmo dia, Salvador Allende morreu durante o bombardeio e a tomada do Palácio de La Moneda, enquanto o projeto político que sustentava a Cybersyn era destruído pela força. Com isso, chegaram ao fim tanto a experiência chilena de transição ao socialismo quanto o experimento cibernético que a acompanhava.

Mas a história da Unidade Popular não se resume ao conflito entre o governo e as forças que atuaram para derrubá-lo. O período também foi marcado por profundas transformações nas relações entre trabalhadores, empresas e Estado. Como mostra Elisa de Campos Borges em “O governo de Salvador Allende no Chile: atuação dos trabalhadores e a organização de novas relações de trabalho”, a expansão da área estatal e a reorganização industrial ampliaram expectativas de protagonismo entre os trabalhadores, ao mesmo tempo em que produziram disputas em torno das formas legítimas de representação, decisão e autoridade. Nesse contexto, parte importante da historiografia tem destacado a tensão entre a transformação conduzida pelo governo da Unidade Popular e as iniciativas de auto-organização que emergiam nos locais de trabalho, especialmente nos cordones industriales e em outras experiências de controle operário. Essa tensão é particularmente importante para compreender a Cybersyn. O projeto nasceu justamente no encontro entre a necessidade de coordenar, em escala nacional, uma economia em rápida transformação e a emergência de formas de participação popular que nem sempre se acomodavam aos canais institucionais e administrativos do Estado.

Fernando Flores, engenheiro, filósofo e ministro das Finanças no governo do presidente chileno Salvador Allende, entrou em contato com Stafford Beer em julho de 1971, quando a expansão da área social de propriedade criava problemas de coordenação industrial que o aparato estatal chileno não sabia resolver com os instrumentos existentes. Em novembro de 1971 Beer já redigia notas sobre “a organização efetiva do Estado” com referência específica ao controle industrial; em março de 1972 o projeto ganhou o nome Cybersyn, enquanto em espanhol passou a circular como SYNCO, “Sistema de Información y Control”. Em dezembro de 1972 Allende visitou a Operations Room; em setembro de 1973 o golpe interrompeu o experimento.

Cybersyn não foi um único dispositivo, mas um arranjo de subprojetos. Medina em “Cybernetic Revolutionaries” sintetiza que o sistema articulava quatro componentes: a rede de telexes Cybernet, o software estatístico Cyberstride, o simulador econômico CHECO e a Operations Room; a isso se somava o projeto Cyberfolk, nunca implementado, que imaginava “medidores algedônicos” de satisfação popular (dispositivos ou sinais projetados para avaliar, em uma escala contínua de “dor”/insatisfação e “prazer”/satisfação, reações a estímulos ou políticas). A chave conceitual de Beer era a cibernética organizacional e o Viable System Model, que procurava combinar autonomia local, coordenação por níveis de recursão, sinais de exceção e resposta adaptativa à complexidade.

Se o projeto era tecnologicamente ousado, ele também era materialmente modesto. Como mostra Sebastian Vehlken, a Cybersyn dependia de tecnologias relativamente simples como redes de telex, computadores de capacidade limitada, interfaces desenhadas por projetistas industriais e um extenso trabalho manual de preparação gráfica, de modo que sua originalidade estava menos em uma suposta sofisticação computacional do que na articulação entre telecomunicações, estatística, modelagem organizacional, cibernética e design da informação. O próprio desenho da Operations Room refletia essa preocupação, pois buscava produzir uma visualização capaz de reduzir a complexidade da economia a um conjunto de sinais inteligíveis para a tomada de decisões. Como observa Vehlken, a operação fundamental do sistema consistia em filtrar, selecionar e hierarquizar informações, destacando apenas aquilo que exigia intervenção e convertendo a heterogeneidade dos processos produtivos em indicadores comparáveis e visualmente administráveis. Isso é importante para a questão que me levou a escrever este texto, pois, o problema não reside apenas nos dispositivos empregados, mas na forma de inteligibilidade produzida pela cadeia de operações que transforma acontecimentos concretos em dados, os dados em modelos, os modelos em alertas e os alertas em decisões. A questão colocada pela Cybersyn não é apenas quem controla a informação, mas também quais procedimentos de abstração tornam a realidade social legível para a gestão e quais aspectos dessa realidade necessariamente escapam ou são subordinados a essa tradução.

Ao mesmo tempo, seria um equívoco reduzir a Cybersyn a uma forma de centralização tecnocrática. Beer defendia um sistema baseado na gestão por exceção, no qual apenas desvios considerados relevantes deveriam ascender aos níveis superiores de coordenação, evitando a concentração de todos os dados em um centro de comando. Do mesmo modo, Raúl Espejo, engenheiro chileno e um dos membros centrais da equipe da Cybersyn, em suas reflexões posteriores, enfatiza a noção de variety engineering e a tentativa de substituir formas rígidas de administração burocrática por mecanismos de regulação distribuída. A própria Operations Room foi concebida menos como uma cabine de controle onisciente do que como um espaço para a interpretação coletiva de situações que demandassem intervenção. Ainda assim, a passagem da centralização para a coordenação distribuída não elimina automaticamente os problemas colocados pela crítica da abstração, pois, para que o sistema funcionasse, continuava sendo necessário selecionar informações, definir indicadores, estabelecer limiares de relevância e decidir quais acontecimentos mereciam ser transformados em sinais passíveis de circulação e intervenção. Em outras palavras, mesmo quando o objetivo é ampliar a autonomia local e distribuir capacidades de decisão, permanece a questão de como a realidade social é traduzida em informação administrável. O problema, dessa forma, não se reduz à localização do poder decisório, mas envolve os próprios procedimentos pelos quais certos aspectos do mundo se tornam visíveis, comparáveis e governáveis, enquanto outros permanecem fora dos circuitos formais de coordenação.

Embora Beer tenha defendido que os trabalhadores participassem não apenas da utilização do sistema, mas também da construção dos modelos que alimentavam a Cybersyn, as evidências reunidas por Eden Medina sugerem que essa dimensão permaneceu bastante limitada na prática. Em suas entrevistas com participantes do projeto, a autora encontrou pouca evidência de envolvimento efetivo dos operários nos processos de modelagem das fábricas. Em geral, os engenheiros trabalhavam diretamente com diretores, gestores e técnicos, e alguns deles descreveram retrospectivamente o processo como uma abordagem marcadamente tecnocrática e conduzida de cima para baixo. O próprio Raúl Espejo reconheceria mais tarde que o componente participativo da Cybersyn avançou pouco além do plano das discussões e intenções iniciais. Um indício revelador aparece já no prefácio de Cybernetic Revolutionaries, onde Medina relata a dificuldade de encontrar trabalhadores que sequer se lembrassem do projeto, ao passo que localizou numerosos engenheiros, técnicos e administradores envolvidos em sua implementação. Para a autora, essa assimetria não é acidental, mas sugere os limites efetivos da incorporação dos trabalhadores à experiência.

A própria Operations Room torna visível outra camada do problema. Como mostra Medina, seu desenho foi explicitamente inspirado nos gentlemen’s clubs britânicos, eliminava teclados para evitar associações com o trabalho de datilografia e incorporava pressupostos bastante específicos sobre quem ocuparia aquele espaço e como as decisões seriam tomadas. O resultado era uma sala futurista que condensava simultaneamente aspirações de modernidade socialista e convenções de gênero e autoridade herdadas de seu tempo.

Para os propósitos deste texto, o interesse desses aspectos não está apenas em apontar uma contradição histórica, mas em observar como escolhas aparentemente técnicas carregam pressupostos sobre seus usuários legítimos.

Tomada em conjunto, a experiência da Cybersyn parece resistir tanto às leituras que a apresentam como uma solução exemplar para os problemas da coordenação socialista quanto àquelas que a reduzem a uma forma sofisticada de tecnocracia. Sua importância talvez resida justamente nessa ambivalência. Ao mesmo tempo em que buscava ampliar a autonomia local, distribuir capacidades de decisão e criar novos mecanismos de participação, o projeto dependia de operações contínuas de seleção, modelagem, visualização e interpretação da realidade social. O que a experiência chilena coloca em evidência é, portanto, um problema mais profundo do que a simples distribuição do poder decisório, porque evidencia como formas específicas de coordenação técnica participam da constituição da própria realidade que pretendem organizar. Em outras palavras, não basta apenas perguntar quem decide ou a partir de onde se decide, mas é preciso também se ater aos processos pelos quais determinados aspectos do mundo se tornam objetos de cálculo, comparação, conhecimento e intervenção, enquanto outros permanecem marginais e irrelevantes para o sistema.

Talvez seja justamente aí que resida a atualidade da Cybersyn. Não porque o projeto ofereça um modelo pronto para o presente, nem porque tenha resolvido os dilemas da relação entre tecnologia e emancipação, mas porque tornou visível uma questão que continua a nos acompanhar. Se a técnica não é uma faca neutra à espera de um uso político, o debate não pode se limitar à propriedade ou ao controle dos sistemas de informação. É preciso interrogar também as formas de racionalidade inscritas nas infraestruturas técnicas, os modos de percepção e coordenação que elas favorecem e os horizontes de ação coletiva que tornam possíveis.

Meio século depois, quando governos, empresas e movimentos sociais voltam a depositar expectativas transformadoras em sistemas capazes de processar quantidades sem precedentes de informação, a experiência chilena adquire uma relevância renovada. A ascensão da inteligência artificial recoloca, em novos termos, questões que a Cybersyn já permitia entrever. Quais aspectos da vida social podem ser convertidos em dados sem perdas significativas? Quais formas de conhecimento são privilegiadas quando a realidade passa a ser mediada por modelos computacionais? E, sobretudo, até que ponto a democratização dos fins é suficiente quando os próprios meios de conhecer, representar e coordenar o mundo carregam pressupostos históricos específicos? Nesse sentido, a herança mais valiosa da Cybersyn talvez não seja uma resposta, mas uma pergunta que ainda não conseguimos responder enquanto sociedade: que formas técnicas seriam compatíveis com projetos socialistas e emancipatórios sem simplesmente reproduzir, sob novos objetivos políticos, as formas de abstração e coordenação legadas pela modernidade capitalista?

BIANA (Bianca Fernandes)

Pesquisadora e mestranda em antropologia digital pela Universidade de São Paulo. Integrante do projeto organica.social e da Rede pela Soberania Digital.

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