Uma das coisas que mais me fascina ao observar os artistas que admiro é a maestria com que eles dominam a sublimação.
Mas Bernardo, afinal, o que é isso?
Em termos simples, sublimação é a arte de canalizar uma energia que te puxa para baixo e usá-la como combustível para criar algo que te coloque de pé.
É transformar o vazio, a melancolia ou aquele silêncio incômodo em uma pintura, um texto, uma fotografia ou qualquer outra forma de expressão que livre a gente do peso de carregar tantos mundos sozinhos.
Quando você se expressa e coloca algo novo no mundo, o peso que era só seu ganha um propósito maior. Criar passa a ser o que alimenta a alma e, curiosamente, o que devolve a vontade de estar aqui.
But I'm a creep
Um exemplo perfeito, e talvez um dos mais melancólicos dessa alquimia é a música “Creep”.
Você pode nem conhecer a discografia do Radiohead, mas as chances de já ter ouvido essa música são enormes.
Tudo começa no início dos anos 90. Thom Yorke, ainda um desconhecido, estava obcecado por alguém que ele considerava “perfeita demais” para a sua realidade.
Em vez de vestir uma máscara de autoconfiança, ele preferiu ser brutalmente autêntico. Ele quebrou o próprio silêncio, assumiu a inadequação e gritou para o mundo o quanto se sentia deslocado.
É quase irônico: um momento de fragilidade extrema e absoluta falta de pertencimento foi o que gerou um dos maiores hinos de uma geração.
Uma música que eles nem sabiam se era boa o suficiente acabou sendo a única coisa que o mundo queria ouvir.
E no fim, aquele desconforto do Thom foi o que deu à banda o chão necessário para eles pararem de tentar se encaixar e finalmente começarem a criar do próprio jeito.
Isso mostra que a arte não serve para romantizar o sofrimento, mas para dar um destino a ele. A sublimação não apaga a dor e nem finge que ela é algo bom; ela é, na verdade, uma forma honesta de alívio.
É o ato de construir algo com as pedras que um dia te atingiram. É aprender que, seja no caos ou na paz, sempre existe algo belo esperando para ser resgatado.
A dor sempre transforma
Muitas vezes, os nossos melhores trabalhos nascem justamente dos nossos piores dias. Será que seríamos os mesmos sem as nossas feridas?
Sinto isso desde que decidi fazer da arte o meu trabalho. A produção se tornou o meu jeito de buscar a vida, de traduzi-la e, principalmente, de extrair beleza do que antes parecia ser apenas uma grande confusão.
E sendo bem sincero com você, eu olho para trás e sinto um orgulho imenso de tudo o que escrevi e construí aqui.
Mas a verdade é que a grande maioria dos textos que mais tocaram vocês nasceram de momentos em que as coisas não estavam nada bem para mim.
Eu precisei passar por cada uma dessas quedas, por cada silêncio ensurdecedor e por cada dor, para conseguir chegar até aqui e ter o que dizer.
Hoje, entendo que isso se trata de aprender a amar o processo por inteiro.
Minhas dores não são mais apenas cicatrizes; elas são parte da minha identidade. Elas são a matéria-prima do meu trabalho.
“No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.”
— Albert Camus
✍️ Leia meu e-book, Escrevivência — um guia pra quem quer escrever melhor e se entender no processo.

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