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Bernardo.nxt · Apr 28, 2026

Você não precisa estar bem pra criar algo incrível

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minhas melhores coisas vieram dos meus piores dias

Uma das coisas que mais me fascina ao observar os artistas que admiro é a maestria com que eles dominam a sublimação.

​Mas Bernardo, afinal, o que é isso?

​Em termos simples, sublimação é a arte de canalizar uma energia que te puxa para baixo e usá-la como combustível para criar algo que te coloque de pé.

É transformar o vazio, a melancolia ou aquele silêncio incômodo em uma pintura, um texto, uma fotografia ou qualquer outra forma de expressão que livre a gente do peso de carregar tantos mundos sozinhos.

​Quando você se expressa e coloca algo novo no mundo, o peso que era só seu ganha um propósito maior. Criar passa a ser o que alimenta a alma e, curiosamente, o que devolve a vontade de estar aqui.


But I'm a creep

Um exemplo perfeito, e talvez um dos mais melancólicos dessa alquimia é a música “Creep”.

Você pode nem conhecer a discografia do Radiohead, mas as chances de já ter ouvido essa música são enormes.

​Tudo começa no início dos anos 90. Thom Yorke, ainda um desconhecido, estava obcecado por alguém que ele considerava “perfeita demais” para a sua realidade.

Em vez de vestir uma máscara de autoconfiança, ele preferiu ser brutalmente autêntico. Ele quebrou o próprio silêncio, assumiu a inadequação e gritou para o mundo o quanto se sentia deslocado.

​É quase irônico: um momento de fragilidade extrema e absoluta falta de pertencimento foi o que gerou um dos maiores hinos de uma geração.

Uma música que eles nem sabiam se era boa o suficiente acabou sendo a única coisa que o mundo queria ouvir.

E no fim, aquele desconforto do Thom foi o que deu à banda o chão necessário para eles pararem de tentar se encaixar e finalmente começarem a criar do próprio jeito.

Isso mostra que a arte não serve para romantizar o sofrimento, mas para dar um destino a ele. A sublimação não apaga a dor e nem finge que ela é algo bom; ela é, na verdade, uma forma honesta de alívio.

É o ato de construir algo com as pedras que um dia te atingiram. É aprender que, seja no caos ou na paz, sempre existe algo belo esperando para ser resgatado.


A dor sempre transforma

Muitas vezes, os nossos melhores trabalhos nascem justamente dos nossos piores dias. Será que seríamos os mesmos sem as nossas feridas?

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​​Sinto isso desde que decidi fazer da arte o meu trabalho. A produção se tornou o meu jeito de buscar a vida, de traduzi-la e, principalmente, de extrair beleza do que antes parecia ser apenas uma grande confusão.

E sendo bem sincero com você, eu olho para trás e sinto um orgulho imenso de tudo o que escrevi e construí aqui.

Mas a verdade é que a grande maioria dos textos que mais tocaram vocês nasceram de momentos em que as coisas não estavam nada bem para mim.

​Eu precisei passar por cada uma dessas quedas, por cada silêncio ensurdecedor e por cada dor, para conseguir chegar até aqui e ter o que dizer.

​Hoje, entendo que isso se trata de aprender a amar o processo por inteiro.

Minhas dores não são mais apenas cicatrizes; elas são parte da minha identidade. Elas são a matéria-prima do meu trabalho.

​“No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.

— Albert Camus


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