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Bernardo.nxt · Apr 22, 2026

Às vezes, a vida precisa ser desconfortável mesmo.

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Essa semana eu estava conversando com um amigo que tinha acabado de começar em um emprego novo.

Essa semana eu estava conversando com um amigo que tinha acabado de começar em um emprego novo.

Uma semana longe de casa e ele já estava desmoronando, desabafando que queria largar tudo.

Ele dizia que precisava de “tempo”, que queria focar em um projeto autoral, algo que finalmente mudasse o jogo da vida dele.

E ele foi lá e fez. Pediu demissão.

Só que o tempo passou. Uma semana, duas, um mês inteiro de liberdade total. E aí veio o balde de água fria. Ele me procurou de novo, mas dessa vez o tom era de derrota:

“Que saco... agora eu tenho o tempo que queria, mas não sinto vontade de fazer nada. Sinto que ‘está bom assim’.”

Eventualmente, o dinheiro apertou e ele voltou para o CLT. Um mês depois? O ciclo recomeçou:

“Preciso sair daqui, não aguento mais, quero fazer algo melhor.”

É contraditório? Demais. Mas a verdade é que eu já me vi nesse espelho um milhão de vezes.

Acredito que seja uma questão de dor. Quando ele está trabalhando, a pressão do chefe e o peso do despertador criam um desconforto insuportável. A água bate na bunda e, só então, ele começa a nadar desesperadamente em direção à “mudança”. O incômodo é o único combustível dele.

Mas basta uma dose mínima de conforto — um dia inteiro no sofá, o silêncio de uma manhã sem compromisso — para que toda aquela “grande motivação” evapore. O desejo de construir algo novo cede ao prazer anestésico de simplesmente adiar a vida.

Eu me pergunto quantas vezes eu só fiz o que precisava ser feito nos acréscimos do segundo tempo.

É aquela mania de esperar a doença chegar pra cuidar da saúde, ou de arrastar um relacionamento tóxico até a mente ficar em ruínas, só pra ter certeza de que não dá mais. Ou até esperar a dívida virar uma bola de neve pra finalmente admitir que precisa levar a vida a sério.


O problema nunca foi a chuva

O meu maior problema com o conforto é que ele funciona como uma morfina. Ele não cura o problema, só te faz esquecer que o problema existe enquanto a infecção se espalha.

Eu adoraria ser aquela pessoa que diz frases do tipo:

“Se tem solução, resolva; se não tem, relaxe”.

Mas, na prática, a gente sabe que a mente humana é mais sombria que isso. A gente não relaxa, a gente se acomoda no morno, esperando a água ferver para só então tentar pular da panela.

Havia um homem que morava numa casa antiga, dessas cheias de pequenos problemas.

O teto tinha uma mancha escura no canto da sala. Nada alarmante, só uma sombra de umidade.

No primeiro dia de chuva, caiu uma gota. Ele olhou, pegou um balde e colocou embaixo.

“Depois eu vejo isso.”

A mancha cresceu um pouco. Na segunda chuva, duas goteiras, então ele trocou o balde por uma bacia maior.

O vizinho comentou:

— Isso aí vai dar problema.

Ele respondeu rindo:

— Relaxa, é só uma infiltraçãozinha.

Meses passaram, a mancha virou uma rachadura. A rachadura virou infiltração espalhada. A infiltração virou parte do teto cedendo aos poucos.

Mas ainda não era desconfortável o suficiente. Ainda dava pra conviver, ainda dava pra colocar mais um balde.

Até que numa madrugada de tempestade, o teto desabou. Não caiu uma gota, caiu a sala inteira.

Ele ficou parado, no meio dos escombros, encharcado, com a água escorrendo pelo corpo, pensando na primeira goteira.

Veja, o problema nunca foi a chuva. Foi ter decidido agir só quando já não dava mais para ignorar.

É nesse vazio que surge o que os antigos chamavam de akrasia; aquele estado de paralisia onde, mesmo sabendo o que é melhor para você, você age contra a sua própria razão.

Você vê a mancha no teto, sabe que a sala vai inundar, mas a vontade de ignorar o problema fala mais alto que a lógica.

Essa trava toda não é só preguiça, é uma resistência interna que tenta nos manter estagnados. É ela que te faz querer dar meia volta no meio do caminho, tentando te convencer de que o descanso é melhor que o triunfo.

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Escolha a sua dor antes que ela escolha você

E a única forma que eu encontrei de não ser refém desse ciclo é aprender a me desconfortar de propósito.

Foi parar de esperar a conta atrasar para sentir o peso do dinheiro, e começar a olhar para o extrato todo dia como se fosse um soco no estômago. Foi não esperar o corpo pifar para entender que você está morrendo um pouco a cada escolha ruim.

Eu criei uma “dor de estimação”. Um incômodo que eu escolho, para não ter que aguentar o incômodo que a vida me impõe.

Se você tem um projeto, uma ideia, um sonho... não espere ter “tempo”. O tempo é o cemitério das boas intenções.

O segredo é manter um pouco daquela pressão do chefe, daquela urgência da conta atrasada, mesmo quando está “tudo bem”.

Porque o conforto é um mentiroso. Ele te diz que você tem o resto da vida, enquanto a vida está passando pela janela.

A solução é a consciência de que, se você não se cutucar com a ponta da faca de vez em quando, vai acabar dormindo em cima de um formigueiro.

Ou você escolhe a sua dor, ou ela escolhe você. E vencer a sua própria preguiça é libertador.

Ontem, minha cabeça tentou me convencer a desistir.

Eu tinha um compromisso de fazer um trabalho artístico de graça, mas quanto mais perto da hora, mais aquela vontade de ficar em casa apertava.

No caminho, cada esquina parecia uma desculpa pronta pra dar meia-volta. Fui na marra, empurrando o corpo contra a vontade.

Foi só começar a fazer que o peso sumiu. O travamento virou movimento e as coisas fluíram sem eu nem perceber.

Na volta, o cansaço era diferente, não era aquela exaustão de quem está se arrastando, mas o alívio de quem venceu a própria teimosia. A vitória não foi o que eu fiz lá, mas o fato de eu ter encarado o desconforto e cumprido o que eu disse que ia fazer.


✍️ Escrever é o jeito que encontrei de transformar o meu 'não saber' em destino. No meu e-book, Escrevivência, compartilho como a escrita pode ser o seu par de asas quando o chão insiste em sumir.

Escrevivencia

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