Eu olho em volta e vejo pessoas com caminhos tão desenhados, paixões que parecem vir de fábrica.
“Eu quero ser engenheiro”, “quero ser criador de conteúdo”, “quero ser médico”.
Parece que algumas pessoas nascem com um encaixe perfeito para o mundo, como se o peito delas pulsasse de verdade por uma única coisa.
O meu problema é que eu ainda não achei esse pulsar. Nada parece fazer meu coração barulhento o suficiente a ponto de eu querer entregar uma vida inteira em troca.
Se eu olhar para trás, o histórico é bom. Sempre fui o aluno exemplar, aquele que tirava as melhores notas e colecionava elogios. Sempre tive facilidade com tecnologia, já competi em campeonatos online, já tentei criar, inventar, fazer de tudo um pouco. E fiz.
Mas a sensação é sempre a mesma: eu me dou bem. Sou aquele cara de quem as pessoas dizem “ele entende disso”, mas nunca o cara de quem dizem “ele é fora de série”.
E quando eu falo em ser extraordinário, não estou falando de perfeição — até porque isso não existe.
Falo daquela assinatura única. Aquilo que você faz de um jeito tão teu que, se você não estiver ali, fica um vazio que ninguém consegue preencher. Sabe o substituto imediato? Eu sinto que sempre sou substituível.
É bizarro, porque todo mundo elogia a versatilidade, mas a minha parece rasa. É como se eu jogasse em um time de futebol e soubesse ser o zagueiro, o meio-campo e o atacante, mas não passasse de um jogador mediano em cada uma dessas posições.
Sempre me considerei inteligente. E o pior de ser inteligente é perceber, cedo demais, o quanto isso sozinho não serve para absolutamente nada.
A vida não quer saber quem você é por dentro; ela quer saber o que você entrega.
O mundo é prático. Não basta eu saber da minha capacidade se eu não a transformo em matéria. E dói ver pessoas que eu, na minha arrogância silenciosa, não achava tão brilhantes assim, me superando em tantas áreas. Elas simplesmente foram lá e fizeram.
Isso é arrogância minha, ou sou só um cara inteligente que sabota a si mesmo por não se mexer? (O que, se você parar para pensar, é uma forma bem requintada de burrice).
Fica difícil me levar a sério. Ok, eu sou inteligente, já provei isso para mim mesmo em vários momentos. E agora? O que vem depois? O que eu faço com o que está na minha cabeça?
Por que as pessoas que eu julgava estarem “atrás” agora parecem estar sempre à minha frente?
Eu odeio a ideia de me sentir superior. Detesto essa postura em qualquer situação e sempre a combati. Mas, se eu for revirar o fundo do meu estômago, no lugar mais cruel e honesto de mim, eu sei que carreguei esse sentimento em segredo por muito tempo. E o peso disso é sufocante.
Não nasce de uma vaidade barata, mas do medo desesperado de descobrir que o meu suposto brilho nunca passou de uma ilusão.
Lembrei-me do grito do Homem do Subsolo, de Dostoievski, que de tanto pensar e se isolar, concluiu:
“Juro-vos, senhores, que possuir uma consciência excessiva é uma doença, uma doença real e completa”.
Ele explicava que as pessoas normais, os homens de ação, vão em frente feito touros enfurecidos diante de um obstáculo. Mas o homem consciente inventa um laboratório inteiro de justificativas para ficar parado diante do muro.
Ele se convence de que o muro é legítimo, de que a inércia é o único caminho inteligente. E qual é a minha diferença para ele? Olhando no espelho, nenhuma.
Sempre achei essa passagem brilhante, mas hoje acho assustadora.
Eu sou um homem do subsolo, engolido pela minha própria lucidez.
E a culpa de eu me sentir assim, muito provavelmente, vem do eco do que me ensinaram a ser. Eu passei a vida ouvindo:
“Ah, ele é tão inteligente.”
“Ele é tão calmo.”
“Ele é tão obediente.”
Cresci tentando gabaritar esses critérios. E essas frases, que pareciam elogios inofensivos e bonitos na infância, viraram uma espécie de prisão mental.
Criaram uma expectativa tão alta que agora eu passo os meus dias tentando alimentar um fantasma, precisando me sentir especial o tempo todo só para acreditar que eu ainda existo e sou o suficiente.
Olhando para tudo isso, percebi que esse peso no estômago não era só delírio meu. A psicologia até dá um nome para o nó: a síndrome do aluno nota dez — ou o fardo da criança prodígio.
O mecanismo é dolorosamente simples. Quando a gente cresce sendo elogiado pelo que é (inteligente, talentoso, calmo), passa a vida com medo de agir.
A mente entende que fracassar em um projeto significa deixar de ser especial. Aí, a gente paralisa. A inteligência vira uma gaiola e a versatilidade vira um escudo; preferimos não tentar nada de corpo e alma só para salvar o próprio histórico.
Eu olhava para as pessoas ao meu redor e sentia uma inveja profunda: elas simplesmente não pensavam tanto. Viam uma oportunidade, apontavam e iam. O pensamento delas acontecia no movimento, sem esse receio paralisante de parecerem idiotas no começo.
Comigo, não. Minha mente funciona como uma máquina de calcular o erro. Eu sofria por antecipação com o cansaço, a frustração e o julgamento alheio. Minha autocrítica ficou tão afiada que passei a desistir antes de começar, porque já tinha encenado o fracasso inteiro na cabeça.
Nunca foi preguiça. Eu não agia porque, enquanto não tentasse de verdade, minha capacidade continuava sendo potencialmente perfeita.
Eu ainda podia ser o cara genial que faria algo extraordinário se quisesse. Mas no momento em que eu fosse lá e fizesse, o resultado seria real, palpável e sujeito a falhas. O meu ego sempre preferiu a ilusão de um gênio intocado ao risco de encarar a própria realidade.
Fiquei tão especialista em prever o tombo que acabei desaprendendo a caminhar.
E hoje, olhando para os lados, me pego pensando... e se eu tivesse me permitido ser só mais um idiota tentando?
Se eu tivesse sustentado o erro pelo tempo suficiente para ver o que vinha depois? Fica um silêncio estranho aqui dentro. Esse gosto de quem salvou o histórico, mas passou os anos assistindo à própria vida acontecer na teoria.
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