Aprendi em 20 anos que muitas vezes a vida vai ser feia, e você terá que se acostumar com isso.
Acabei de pegar um ônibus para voltar para casa. Já tinha colocado a minha melhor playlist e estava na maior alegria do mundo quando, e com só 10 minutos de viagem, vejo duas ambulâncias por causa de um acidente feio entre dois carros.
Veja bem: alguém acordou hoje, tomou seu café, talvez até estivesse ouvindo uma boa playlist também. E simplesmente do nada já não está mais em um bom dia, em uma bela vida. E nem falo só do custo de um carro, mas do custo da saúde e de uma vida inteira.
Graças a Deus coisas assim não me aconteceram. Mas só de ver o quão fácil e rápido isso é, já me dá um certo medo de que alguma hora possa ser comigo, ou pior, com uma pessoa importante para mim.
Por muitas vezes a vida é feia, e os problemas estouram do nada, principalmente quando eu finalmente me sinto bem.
Escrevo isso ainda de dentro do ônibus, voltando de uma viagem de dois dias.
E acredite: passei a semana inteira ótimo, transbordando saúde. Foi só botar o pé no degrau do embarque, na ida, para começar uma dor de cabeça insuportável.
Passei os dois dias mal, com a viagem completamente arruinada. E qual é a grande ironia? O mal-estar sumiu passeando pelo corpo pouco antes de eu ter que juntar as malas e entrar nesse maldito ônibus de volta.
Parece piada né? no exato momento em que eu decido sair da rotina e aproveitar, o corpo resolve sabotar.
Parece que as coisas ruins acontecem de propósito, do absoluto nada, só para me atrapalhar.
E não, esse não é um texto mandando você ser estoico e não ligar para isso. Porque eu não consigo ser assim. Eu ligo, e muito.
O lado ruim é que o caos sempre escolhe a situação mais inoportuna. Dias atrás resolvi ir para um local espiritual, saí de lá bem e renovado, mas no caminho de casa meu carro estragou. É até engraçado: se eu tivesse ido ao mercado, tudo bem ele estragar.
Mas justo na saída de um evento espiritual? É sério isso, universo?
A gente vai para um lugar desses buscando uma armadura contra o mundo, achando que vai voltar flutuando, intocável. Mas o mundo não quer saber se você meditou, rezou ou se conectou com o sagrado. O prego no pneu e o motor fundido não respeitam a sua paz.
A verdade é que a gente passa a vida tentando criar ilusões de controle. Construímos templos, buscamos retiros, compramos carros melhores ou colocamos fones de ouvido para nos isolar do barulho lá fora, tudo na tentativa desesperada de blindar a nossa mente.
Mas a realidade é uma força bruta e indiferente às nossas pequenas buscas por equilíbrio. O universo não negocia tréguas só porque decidimos cuidar da alma.
Essa quebra de expectativa me dói porque revela a minha maior fragilidade, a de estar, o tempo todo, exposto ao imprevisível.
Quero a calmaria a qualquer custo, mas acabo esquecendo que a própria engrenagem da existência é feita de atrito.
(...) A vida não foi feita para ser confortável. Mal resolvemos uma contradição, uma nova dificuldade se levanta no horizonte. O homem que deseja a paz absoluta deseja, no fundo, a cessação da própria vida.
Viver é estar em guerra constante com o acaso, e amadurecer é aceitar que cada trégua dura apenas o tempo de respirar para o próximo combate.”
— Friedrich Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano
Anatomia de um amadurecimento
Mas bem, a parte boa de ser calejado pelos problemas e pelas imprevisibilidades da vida é se tornar alguém mais forte. Se abalar menos pelas coisas é o que eu tenho feito.
Parece que tanta coisa ruim já aconteceu que eu acabei acostumando. Agora nada me surpreende muito. É triste dizer isso, mas é a verdade. Hoje estou dando menos importância para os problemas porque sei que eles sempre vão existir; você resolve um e aparecem cinco.
Mas acho que parte da felicidade é isso: o quão bom é ter problemas e conseguir resolvê-los também. Só para sentir aquela paz depois, logo antes de o próximo vir.
Até porque os problemas parecem se revezar. Mal você resolve a pane do carro, o computador decide quebrar. Quando finalmente se livra de uma dor de cabeça, acorda com gripe. É a mesma lógica cruel de quando conquistamos algo planejado por anos: bastam alguns dias de satisfação para que a cabeça já encontre um motivo inédito para se preocupar.
No começo isso parece cruel, dá a sensação de que estamos correndo atrás de algo impossível. Mas talvez exista uma certa paz em aceitar isso.
Porque se os problemas nunca acabam, então a felicidade não pode estar na ausência deles.
Talvez parte da felicidade esteja justamente no processo de resolvê-los.
Existe algo satisfatório em olhar para um caos e colocá-lo em ordem. Em passar por uma fase difícil e perceber que você conseguiu sobreviver. Em resolver aquilo que parecia impossível na semana passada.
A vida é feia às vezes, injusta muitas vezes, e imprevisível quase sempre.
Mas amadurecer é entender que a vida não nos deve dias perfeitos. Ela apenas nos oferece desafios diferentes.
E, de alguma forma estranha, cada problema resolvido nos dá alguns minutos de paz. Alguns minutos de orgulho. Alguns minutos em que podemos olhar para trás e pensar:
“Ok. Esse eu venci!”
Antes do próximo aparecer, é claro.
Memórias de guerra (e de paz)
E já que eles vão aparecer, eu decidi parar de apenas apanhar do acaso e criei uma tática pra lidar com esse ciclo sem enlouquecer:
É o que eu chamo de “Documentar os Dias de Guerra”.
A nossa mente é mestre em esquecer o tamanho das nossas vitórias, mas guarda com precisão cirúrgica o peso dos nossos tombos.
Por isso, passei a registrar o caos superado. Quando um problema que parecia o fim do mundo é resolvido, seja uma conta impossível paga, uma dor de cabeça desgastante resolvida ou o motor de um carro consertado, eu anoto o desfecho.
Escrevo em algum canto ou tiro uma foto simbólica daquele momento de calmaria. Faço isso para criar um arquivo visual e tátil de que eu sou um sobrevivente.
Quando o próximo problema estoura e a ansiedade tenta me convencer de que eu não vou dar conta, eu abro esse arquivo. É a prova real, contra os meus próprios medos, de que eu já saí de labirintos muito piores.
(...) “A felicidade não é a ausência de problemas, mas a capacidade de lidar com eles. O homem não necessita de uma existência sem tensões, mas do esforço e da luta por um objetivo que valha a pena.
No final, o que nos traz paz não é termos tido uma jornada fácil, mas sabermos que fomos mais fortes que o caos que enfrentamos.”
— Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido
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