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Bernardo.nxt · Jun 1, 2026

Ser famoso é a forma mais solitária de nunca estar sozinho

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Bernardo.nxt, O Estrangeiro · Bernardo.nxt

Ser famoso deve ser estranho.

Porque, ao mesmo tempo que parece incrível ser reconhecido, também parece cansativo nunca mais conseguir existir em paz.

Imagina querer sair pra jantar com alguém, conversar, passar um tempo junto… e toda hora alguém te parar pra pedir uma foto.

E eu nem acho isso ruim, pelo contrário. É carinho, reconhecimento, significa que a pessoa acompanha algo seu. Só que eu acho que deve chegar um momento em que você começa a sentir falta do anonimato.

De fazer coisas simples sem sentir que está sendo observado. Ir no cinema, tomar um café, sentar num parque. Só existir sem parecer que você está “ligado” o tempo inteiro.

E eu penso muito nisso porque eu sempre admirei essa ideia de reconhecimento. Sempre quis ser visto de alguma forma, acho que quase todo mundo quer.

A gente quer sentir que aquilo que cria chegou em alguém.

Só que existe uma parte disso que pode não ser tão legal, o fato de que:

Quanto mais pessoas te acompanham, menos espaço parece existir pra você mudar.

Imagina eu ter postado alguma coisa há cinco anos, que hoje eu já nem concordo mais. Uma opinião idiota, uma briga, qualquer coisa impulsiva.

Aí, daqui dez anos alguém encontra aquilo e transforma numa definição permanente de quem eu sou.

Parece cansativo viver sabendo que qualquer versão antiga sua pode voltar o tempo todo, e agora, te condenar.

Tenho cerca de quatro mil e quinhentos seguidores, o que nem é tanta coisa comparado à internet em geral. Mas mesmo assim eu já sinto uma pressão muito maior do que sentia antes.

Toda hora chega mensagem, comentário, resposta, gente querendo conversar. E eu gosto disso, de verdade. Algumas trocas são muito boas, e tem textos meus que geraram conversas que eu provavelmente nunca teria fora da internet.

Só que, ao mesmo tempo, eu comecei a perceber que nunca consigo alcançar tudo.

Sempre fica alguém sem resposta, sempre fica alguma mensagem acumulada. E isso começa a gerar uma sensação estranha de dívida constante.

Como se eu estivesse sempre devendo atenção pra alguém.

E talvez seja aí que eu comecei a perceber uma coisa meio triste sobre reconhecimento: quanto mais pessoas chegam, mais difícil fica manter a mesma presença que fez elas chegarem até você.

Eu gosto de escrever quando aquilo vem de forma natural. Quando nasce de uma inquietação real, de uma vontade sincera de colocar algo pra fora.

Só que ultimamente eu comecei a me perguntar, em que momento isso virou uma pressão?

Essa semana eu sentei pra escrever e percebi que não estava escrevendo porque queria. Eu estava escrevendo porque sentia que precisava postar alguma coisa.

Isso me assustou um pouco, porque antes era só um hobby meu, um lugar onde eu organizava pensamentos.

Agora parece que existe uma expectativa invisível o tempo inteiro. E junto disso vem outra coisa que me incomoda bastante: ser interpretado sem contexto.

Esses tempos eu fiz um texto sobre minha gata ter fugido. E muita gente simplesmente decidiu que eu era irresponsável sem saber absolutamente nada da situação.

E isso mexe comigo porque eu percebo como é fácil as pessoas criarem uma versão sua baseada em um único pedaço da sua vida. A internet meio que acostuma as pessoas a esquecer que existe alguém completo por trás de um texto pequeno.

Então eu fico pensando, se com pouca audiência isso já acontece… imagina com milhões.

Será que em algum momento você para de enxergar as pessoas individualmente porque simplesmente não consegue mais? Será que você vai ficando mais frio sem perceber?

Porque eu honestamente não sei se a cabeça acompanha o crescimento.

E talvez essa seja a parte mais contraditória de tudo isso: eu ainda quero crescer.

Ainda quero que mais pessoas leiam o que eu escrevo, e quero viver disso de alguma forma.

Mas, ao mesmo tempo, eu tenho medo do que isso faria comigo por dentro.

Então, se me perguntam se algo mudou desde que eu comecei no Substack, desde que eu saí de zero pessoas pra quatro mil e quinhentas acompanhando o que eu escrevo… mudou sim.

Hoje eu me pressiono muito mais. E o pior talvez seja perceber que a pressão não veio das pessoas, veio de mim mesmo.

E no fundo, essa cobrança interna nasce de um medo antigo, daqueles que a gente tenta mascarar com a busca por relevância: a ideia de ser comum.

E eu não falo em ser medíocre, mas sim de mais um como bilhões.

Acorda, trabalha, estuda, treina, dorme... repete o mesmo ciclo no dia seguinte, na semana seguinte..

Há quem diga que nascemos para ser extraordinários. Crescemos ouvindo que podemos ser únicos, inesquecíveis, memoráveis.

Mas com o passar dos anos, a vida nos lembro algo brutal: a maioria de nós será gente normal, com dias bons, dias maus e uma existência que não vai parar nos livros de História.

E é nesse ponto que entra a fama.

Talvez não seja a ideia de todo mundo ser famoso. Mas tenho certeza que a ideia de todo mundo é ser lembrado.

E é uma linha tênue que separa um do outro.

Acho que ninguém quer olhar para a própria vida e sentir que foi apenas mais uma entre bilhões.

Queremos acreditar que houve algo especial em nós.

Alguma marca.

Alguma diferença.

Nem que seja numa escala minúscula.

E talvez por isso tanta gente viva cansada. Porque transformar a própria existência em algo extraordinário exige uma performance constante.

Você precisa produzir.

Evoluir.

Crescer.

Mostrar que está indo além.

Como se simplesmente viver já não fosse suficiente. E honestamente?

Acho que uma das maiores violências silenciosas da modernidade foi fazer as pessoas sentirem vergonha de serem comuns.

E a pergunta que fica depois de tudo isso é uma só:

A ideia de ser comum te assusta?

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Escrevivência

Read the original on bernardonxt.substack.com

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