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Bernardo.nxt · Jun 5, 2026

Ninguém está atrasado. Mas quase todo mundo acredita que está.

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Bernardo.nxt · Bernardo.nxt

Ultimamente eu tenho me sentido sem tempo. O que é curioso, porque olhando para a minha idade, eu deveria ter décadas pela frente.

Mas a ansiedade não sabe fazer contas. E o nosso tempo, é uma grande contradição, bonita e violenta.

Deixa eu te fazer uma pergunta: quanto tempo você aguenta passar lendo este texto?

Eu passei as últimas quatro horas aqui, sentado, escrevendo cada linha para que você a consuma em oito minutos. Talvez menos. Olha o abismo que existe entre o criar e o consumir.

Mas, se a gente puder pausar o cronômetro por um instante...

Você lembra da última vez em que você não se sentiu bem?

Eu estava exatamente assim esta semana. Uma gripe forte, daquelas que pesam no corpo todo. Sensação de exaustão, dor nas articulações, a cabeça latejando, um verdadeiro horror.

E parece que, quando o corpo adoece, o que a gente mais deseja é que o tempo voe. Que passe num piscar de olhos, como se pudéssemos pular a parte dolorosa da vida. Quando você está na merda, sua maior vontade é acelerar o mundo.

Mas a ironia é exata: quando você está bem, o único desejo é que o tempo pare. É querer puxar o freio de mão da existência e morar naquele milésimo de segundo para sempre.

Olha que negócio bizarro. Estar mal é querer que o tempo corra; você quer pressa. Estar bem é implorar para que ele estacione; você quer calma.

Mas o tempo ignora os nossos estados de espírito. Ele simplesmente passa.

O que são trinta anos para alguém condenado a uma cela ou enfrentando uma doença terminal? É uma eternidade no inferno.

E os mesmos trinta anos para alguém que encontrou a plenitude, a felicidade? Passam como um sopro.

Hoje em dia, a gente carrega um peso enorme nas costas. Uma pressão silenciosa e esmagadora para “ter logo uma vida”.

Eu preciso casar logo.

Eu preciso encontrar alguém especial.

Eu preciso carimbar o passaporte.

Eu preciso ter filhos cedo porque... bem, porque me disseram que preciso.

É assim que o mundo funciona, ou pelo menos foi esse o roteiro que tentaram nos vender.

As coisas ficaram tão distorcidas que parece que você tem a obrigação de estar com a vida completamente resolvida até os 35 anos. E se não estiver, você é um completo fracasso.

Imagine alguém vivendo no ano de 1600. Será que essa pessoa sofria com essa ansiedade crônica?

Nossa, preciso viajar, preciso trocar de carro, preciso acumular patrimônio. (Acho que no máximo, ela pensava em um cavalo mais bonito).

Provavelmente não existia essa neurose pelo amanhã. Mal existiam estruturas sólidas, as casas eram rudimentares. Aquela pessoa vivia, com sorte, até os 50 anos.

Mas será que dentro dessa brevidade ela se sentia tão atrasada quanto nós nos sentimos hoje? Será que ela era mais feliz na sua ignorância do futuro?

Agora, olha para nós em 2026.

Você nasce e cai de paraquedas no ápice da era da informação. Temos o conhecimento do mundo na palma da mão. E o que fazemos com esse milagre?

Em vez de usarmos isso para voar, nós nos afundamos. Estamos tristes, cronicamente perdidos e sufocados pela sensação de que o tempo está acabando — mesmo sabendo que a medicina e a tecnologia nos dão o dobro de expectativa de vida dos nossos antepassados.

Essa angústia foi plantada muito fundo na nossa mente, o famoso mito da linha de chegada antes dos trinta.

Esses dias, minha mulher desabafou comigo. Estava com o olhar triste, dizendo que se sentia terrivelmente atrasada porque ainda faltavam dois anos para concluir a faculdade. Ela tem 24 anos.

Quando você ouve de fora, pensa: “Mas ela é tão jovem!”. Sim, ela é.

Mas ela já carrega esse fantasma. E, para ser sincero, eu não sou nem um pouco diferente dela em várias áreas da minha vida. Olha o diagnóstico da nossa geração: somos jovens apressados e profundamente tristes.

E eu me pergunto, e depois?

A gente romantiza tanto os 30 anos e a ideia de “ter tudo sob controle”, que eu tenho um medo real de pisar nessa idade, olhar ao redor e pensar:

— É só isso? Será que agora estou completo?

— Você se sente completo?

Digamos que você consiga gabaritar o sistema e conquistar tudo aos trinta. E agora? O tempo não para ali. O que você faz com os quarenta anos seguintes?

Qual é o próximo roteiro a ser seguido quando o principal já foi queimado na largada?

Sei que isso pode soar um pouco duro, mas a verdade é que nossa relação com o futuro ficou absurda. A gente não se programa mais para uma vida longa.

A velhice foi riscada do mapa dos nossos desejos. Os 50, os 60 anos parecem não existir; viraram sinônimo de um cenário onde seremos infelizes ou descartáveis. Então a ordem é correr. Correr até o pulmão falhar. Produzir enquanto o corpo é jovem, porque depois... depois você é invisível.

Naquele dia, eu disse a ela que tudo tem o seu próprio tempo. Poucos dias depois, precisei resolver um compromisso na cidade e acabei puxando conversa com um senhor na fila.

Com o sorriso mais limpo e genuíno do mundo, ele me contou que estava prestes a completar 60 anos e estava se formando em Direito.

Ele exalava uma felicidade pura. Não havia nele o peso de achar que era velho demais, ou de que o diploma chegava tarde. Ele estava, simplesmente, vivendo o seu momento com dignidade e satisfação.

A percepção do tempo é uma lente individual. E essa lente muda completamente a cor da nossa existência.

Uma hora estamos acelerados, atropelando os dias. Em outra, arrastando os pés. Queremos que as semanas voem, depois imploramos por um domingo eterno.

Até quando vamos viver nesse pêndulo?

Quando é que vamos aceitar que o tempo, o calendário, as metas de produtividade e essa cobrança por um propósito inabalável são convenções que nós mesmos criamos para nos aprisionar?

Por que eu fui educado para me sentir sem tempo? Logo eu, Bernardo, que — se Deus permitir — ainda tenho décadas inteiras de ar nos pulmões? Por que eu aceito a ficção de que preciso de paredes, quatro rodas e um status específico em certa idade?

Se a nossa vontade de acelerar o tempo é o sintoma de que estamos mal, então a verdade cruel é que estamos mal o tempo todo.

Pelo menos eu, raramente me pego experimentando uma plenitude real. Daquelas de acordar e dizer:

“Que bom, hoje é segunda-feira. Vou sugar cada gota de vida que esse dia tem para me dar.”

Não. Eu sou o oposto disso. Eu olho para a segunda-feira e penso:

“Início de semana, tudo lento, que passe logo, que venha logo a sexta.”

Estamos torcendo para a vida passar mais rápido. Estamos pagando para que os nossos dias acabem logo. E eu te pergunto: quem, estando genuinamente feliz, torce para o tempo acabar? Quem?

Do jeito que a carruagem anda, eu não sei onde vamos parar. Eu só sei que estou exausto de viver com o pensamento apressado. De ter que gerenciar mil demandas ao mesmo tempo e me chicotear por não alcançar uma perfeição que nem existe.

Um dos maiores desperdícios da nossa existência é passar pelo tempo sem nunca habitá-lo. Você perde a vida tentando consertar o que já morreu ou antecipar o que sequer nasceu.

A cabeça vira um motor desregulado, uma engrenagem que engole os segundos para alimentar uma pressa que nem é sua. E nessa pressa de devorar o mundo, você acaba sendo o único banquete.

Lembro agora da história de Ivan Ilitch, o personagem de Tolstói que é, na verdade, o espelho de todos nós. Ele passou anos e anos da sua juventude correndo atrás de dinheiro, de status, de construir a família perfeita...e a literatura nos mostra que ele venceu a corrida.

Conseguiu tudo muito cedo, acumulou uma vida confortável, estabilidade na carreira, respeito.

Mas a existência tem um senso de humor trágico. Quando ele finalmente alcançou a linha de chegada, decorou a casa dos sonhos e pôde olhar para o que construiu... a vida lhe puxou o tapete. Uma queda boba, uma doença súbita, e ele se foi. Sem tempo de despedida.

(...) Quando me lembro do meu passado, vejo que tudo o que era bom na infância desapareceu. Depois, no colégio, houve ainda algo de bom, mas à medida que avançava nos anos, o tempo corria mais depressa, e as alegrias eram cada vez mais raras.

A vida inteira foi uma descida contínua, enquanto eu imaginava que estava subindo. E assim foi. Aos olhos dos homens eu subia, mas, na mesma proporção, a vida ia sumindo debaixo dos meus pés...”

Liev Tolstói, em A Morte de Ivan Ilitch

O que fica depois que a poeira da leitura baixa é o eco do ‘e se?’.

E se, em vez de passar a vida inteira correndo para um futuro que ele não pôde habitar, Ivan tivesse caminhado um pouco mais devagar?

E se ele tivesse se permitido saborear o café da manhã, o silêncio das tardes, os dias comuns sem a neurose do que os outros iam pensar?

Será que no seu último suspiro, naquela cama, ele teria sentido um pouco mais de paz? Será que o estresse diminuído não teria mantido o seu coração batendo por mais tempo?

Enquanto escrevo isso, sinto aquela velha urgência herdeira da ansiedade sussurrar no meu ouvido:

Diga a eles que o tempo é curto, mande eles correrem!”

Mas não vou fazer isso. A realidade nua e crua é que temos tempo.

E ele é exatamente como deveria ser. Você está vivendo o que está vivendo hoje porque precisou atravessar cada tempestade e cada dia de sol para ancorar exatamente aqui.

Teve dia bom, teve dia péssimo. Teve euforia, luto, saúde, doença, perdas e encontros. Mas cada fragmento de experiência exigiu o seu próprio tempo para te moldar. Para te trazer até esta linha. Para te fazer presente.

O que precisamos é nos conscientizar desse espaço que temos e tentar, o máximo que pudermos, desapegar dessa alucinação coletiva de que estamos atrasados.

Afinal, atrasados em relação a quem? Aos amigos do colégio? Aos estranhos do feed do Instagram? Aos nossos pais?

A vida não é uma corrida de cem metros. Você não precisa de um inventário completo de conquistas aos trinta anos.

Você não precisa de um carro do ano, de viagens internacionais constantes ou de um cargo de chefia até meia idade para validar sua existência. Essa foi a maior mentira que eu já cultivei e tentei engolir. É uma ilusão.

Olhando para o mundo como ele está hoje, manter a mente sã, o coração limpo e conseguir dormir em paz ao deitar a cabeça no travesseiro já é uma vitória gigantesca.

Pessoas têm trajetórias completamente diferentes. Cada alma carrega uma bagagem que só ela entende e caminha no ritmo do fôlego que lhe foi concedido.

Como dizia Gandalf:

“Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.”

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Escrevivência

Read the original on bernardonxt.substack.com

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