“Há apenas um problema filosófico realmente sério: o absurdo de nos importarmos tanto com a vida, em um mundo que continuaria girando perfeitamente bem se todos nós desaparecêssemos amanhã.”
— Albert Camus
Eu acho de uma estranheza absoluta o fato de que tudo pode acontecer exatamente ao mesmo tempo, em todo lugar.
Enquanto você lê estas linhas, há alguém ancorado no ápice de sua mais bela e redentora história de amor, enquanto, no mesmo microssegundo, outra alma despenca no vazio de uma perda irreparável ou desaba de avião em algum canto esquecido do mundo.
É assim que a vida funciona, nessa desordem genuína. As coisas simplesmente acontecem do puro nada, à revelia de quem somos ou do que sentimos.
Não importa. Não importa como está o seu dia, o peso que você carrega no peito, o que você faz da sua vida, se o seu coração transborda bondade ou se esvazia em trevas, se você sorri ou chora até secar as lágrimas. A imensidão lá fora não se curva à sua dor.
Ame o mundo. Odeie o mundo. O universo não distingue uma coisa da outra. Para ele, ambas têm exatamente o mesmo peso: nenhum.
Não há resposta, nem precisa haver, e ele nem sequer precisa se justificar por ser assim. Foi criado por um Deus ou surgiu por conta própria?
O que isso muda, afinal? Por que diabos importaria? Na prática, ele continua sendo a mesma força fria e indiferente de sempre.
Às vezes, eu imagino que toda a nossa civilização não passa de uma pequena fogueira acesa às pressas sobre raízes tão antigas que já esqueceram até o nome da própria terra.
Quando o meu mundo desabou pela primeira vez, quando eu fiquei no fundo do poço, eu juro por tudo o que havia em mim que eu esperava alguma mínima compreensão do mundo.
Queria que o tempo desacelerasse, que o céu parecesse mais cinza, mais pesado, que o mundo ao redor reconhecesse o meu luto.
Mas um sol radiante nasceu no dia seguinte, como se nada — absolutamente nada — tivesse acontecido. Foi uma das epifanias mais dolorosas da minha vida, perceber o quão irrelevantes são as nossas maiores angústias diante da engrenagem do mundo.
O ser humano tem uma necessidade quase infantil de acreditar que ocupa o centro de toda e qualquer história. Mas basta erguer os olhos por tempo suficiente para perceber que somos apenas um detalhe irrelevante numa paisagem. Nós não somos absolutamente nada.
Tudo e todos que você ama estarão mortos daqui a cem anos. E eu aposto que, independentemente de quem você seja, em duzentos anos ninguém se lembrará de você — e, se você for famoso, pior ainda.
Talvez sobrem alguns registros, um nome em uma página, um perfil em uma rede social, mas serão apenas carcaças de uma ideia, uma projeção vazia; ninguém nunca jamais saberá quem você foi de verdade, com suas contradições, medos e desejos mais íntimos.
A gente cresce ouvindo que o mundo nos deve, que somos especiais, que o universo conspira a nosso favor, que fomos escolhidos para algo grandioso.
Mas não fomos.
Pensamos:
“Por que eu estaria nesse mundo se não fosse para ser alguém extraordinário? O universo me escolheu, eu ganhei a corrida e estou aqui”.
Sinto lhe informar, mas quem escolheu colocar você no mundo provavelmente só buscava alguns minutos de prazer antes de dormir.
Nunca aceitaremos a vida.
Acredito que a nossa maior tragédia talvez tenha sido justamente nunca aceitar a indiferença desse mundo.
Afinal, nós fomos infinitamente mais indiferentes à natureza do que ela jamais foi conosco. Não suportamos viver em um universo que simplesmente existe, então decidimos transformá-lo em algo que nos pertencesse.
Cercamos a terra, cercamos o horizonte, transformamos o solo que pisamos em mercadoria e criamos civilizações inteiras onde somos obrigados a pagar para existir em um planeta que, na teoria poderia ser de todos.
Tudo isso foi necessário, dizem. Afinal, sem toda essa ruína, sem essa pilha de cadáveres e cercas, não estaríamos aqui hoje.
Se o universo pudesse raciocinar sobre nós, talvez ele preferisse ignorar que existimos. Restaria a ele, no máximo, a grande pergunta do por que uma espécie capaz de tocar as estrelas, nunca deixou de encontrar maneiras de destruir a si mesma.
E, olhando de verdade para o que deixamos para trás, eu me pego pensando se, no fim de tudo, não teria sido muito melhor assim.
Se a gente nunca tivesse chegado até aqui.
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