“O problema de colecionar saudades é que chega uma hora em que o passado vira o único lugar onde o ar ainda é respirável.”
— Vozes da minha cabeça.
O estranho de crescer é que eu sinto que nada nunca será tão bom como do jeito que já foi um dia.
Quando mais novo, eu tinha um grupinho de amigos que eu considerava como se fossem da família. Era tão bom ver todo mundo junto, todo mundo se divertia pra caramba e nunca havia tempo ruim.
Mas com o tempo, inevitável, cada um foi para um lado, e no fim todo mundo se separou.
Até que após muitos anos, do puro nada, eu tive uma ideia:
— Vou dar um jeito de encontrar cada um! Vou refazer o grupo, agora mais maduro, e vai ser muito foda.
Passei um dia inteiro procurando o contato de todos, fiz esforços que eu nem sabia que tinha pra reunir todos mais uma vez, até que chegou o grande dia.
Só que, mesmo as pessoas se reencontrando, elas já não eram mais as mesmas. E os únicos assuntos que se sustentavam entre nós eram a própria nostalgia, os velhos tempos. Foi muito estranho ver uma coisa que era tão boa se transformar em algo tão inexplicável.
Você pensa que vai resgatar algo do seu passado que te fez muito bem, achando que vai sentir exatamente a mesma coisa de antes. Mas a resposta é o simples nada. Você não sente nada. E ironicamente, acaba sendo o primeiro a ir embora.
Tenho um medo genuíno de que minha vida seja um eterno ciclo de fases boas que já aconteceram, nas quais eu não dei importância na época, e agora tento resgatar. E o pior de tudo é saber que, mesmo que eu consiga resgatar e viva exatamente a mesma coisa, eu já não sinto o que sentia antes.
Eu odeio as minhas belas memórias, porque elas não deveriam mentir.
Se foi tão bom, por que parece que nada nunca mais será? Por que não poderá mais ser?
Tudo bem a vida mudar, o que me preocupra é a felicidade nunca acompanhar essas mudanças.
Então, sinto que nada do que eu faça ou tente fazer parece voltar a ter aquele gosto leve que tinha antes.
Não falo nem só pelo grupo de amigos, mas pela vida no geral. O meu eu da atualidade até se diverte com bastantes coisas, mas no fundo do fundo, eu não consigo escapar. Não consigo escapar do sentimento de que falta algo, de que cada vez vai ficar pior.
É como se antes a vida tivesse mais tempero, e agora eu sinto que tô comendo uma comida sem sal, um café que muitas vezes é amargo demais pra mim.
Então, por mais que eu sinta que posso voltar ao passado, não consigo de jeito nenhum voltar no tempo.
Olhar pro calendário de 2017 e perceber que já se passaram 10 anos... caramba, é estranho.
E a questão em si nem é sobre o tempo — meio que dane-se se hoje é dia 3 ou 4 de 1900 ou de 2026. O que me incomoda está além do tempo; está na mudança.
Afinal as pessoas mudaram tanto ou fui eu quem mudei até demais? Talvez um pouco dos dois. Não sei dizer, e talvez nunca saiba.
Mas eu só sei que sinto saudades da minha vida antes de eu começar a sentir saudades.
Saudades de simplesmente estar lá. Sem precisar me esforçar para estar minimamente presente na minha própria vida.
No resumo do resumo, acho que sinto falta de ser leve outra vez.
Escrever sempre foi o meu jeito de aliviar o peito e colocar a casa em ordem por dentro.
Se você também usa as palavras para dar conta do que sente, juntei minhas reflexões em um e-book sobre esse processo.
Se quiser dar uma olhada, tá por aqui:

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