Eu realmente não sei o que significa ser homem.
Durante boa parte da minha vida, ouvi sempre a mesma frase, dita de maneiras diferentes:
“Você precisa virar homem.”
“Seja homem.”
“Isso não é atitude de um homem.”
Depois de tantos anos ouvindo isso, eu só consigo fazer uma única pergunta: o que diabos é ser homem?
O que essa palavra realmente significa? Existe algum momento da vida em que alguém simplesmente se torne um? Ou passamos a vida inteira tentando alcançar uma ideia que ninguém nunca soube explicar?
Meu único exemplo paterno na vida foi o abandono. Meu pai foi embora quando eu tinha três anos e nunca mais esteve presente. Nunca tive alguém para olhar e pensar: “é assim que um homem age”.
Fui criado pela minha mãe e pela minha avó, duas mulheres extraordinárias, e não existe um único segundo da minha vida em que eu me arrependa disso. Eu as amo profundamente.
Mas havia uma ausência que elas, por mais que quisessem, não poderiam preencher. Eu sentia falta de uma referência masculina, e tudo aquilo que o mundo chamava de “coisa de homem”, eu precisava descobrir sozinho.
E não é que elas não soubessem me ensinar, é que a masculinidade parecia algo que se aprendia no olhar de um pai. Algo que eu nunca tive a chance de aprender.
É engraçado pensar que, a maioria dos homens parece crescer tentando descobrir como conversar com mulheres.
Quantos vídeos eu já não vi com títulos assim:
“Como ter assunto infinito com as mulheres.”
No meu caso, aconteceu justamente o contrário. Eu fui criado por duas mulheres. Minha mãe e minha avó foram as pessoas com quem aprendi a enxergar o mundo.
Conversar com mulheres nunca foi um desafio para mim, sempre foi muito natural. Eu sabia ouvir, sabia falar, e sabia permanecer em silêncio, quando era preciso.
Mas, no mundo dos homens, eu simplesmente não sabia existir.
Eu não sabia sobre o que conversar. Não entendia o tipo de humor, as referências, a maneira como eles se aproximavam uns dos outros. Era como entrar em uma sala onde todos falavam uma língua que eu nunca tinha aprendido. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tido muitos amigos.
Lembro dos churrascos de família. Os homens ficavam reunidos, falando de cerveja, futebol, carros ou qualquer outro assunto que, aparentemente, eu deveria dominar. Eu olhava para aquilo e me perguntava, é isso?
É isso que significa ser homem?
Será que existe uma lista de interesses obrigatórios que transforma um menino em um homem? Será que basta aprender a falar sobre essas coisas para finalmente fazer parte daquele grupo?
Então eu tentei.
Aprendi a conversar melhor com homens. Aprendi a beber cerveja, mesmo odiando o gosto no começo. Aprendi a falar sobre carros, futebol e tantas outras coisas que pareciam fazer parte desse universo.
Mas, quando terminei de aprender tudo isso, a pergunta continuava exatamente onde sempre esteve.
E agora? Por que, mesmo fazendo tudo o que diziam que um homem fazia, eu ainda não conseguia me sentir um?
é que quase todos os exemplos de masculinidade que encontrei ao longo da minha vida me afastavam, em vez de me inspirarem.
Meu pai foi o primeiro deles, justamente pela ausência.
Depois veio a internet. As notícias. As histórias.
Em quase toda violência que eu via, quase toda crueldade, quase todo abuso, havia um homem envolvido. Era inevitável olhar para tudo isso e me perguntar como uma palavra que deveria representar maturidade, responsabilidade e caráter parecia, tantas vezes, estar associada ao seu oposto.
Durante muito tempo, achei que ser homem significava ser completamente independente. Então parei de pedir ajuda. Passei a esconder o que sentia, tentei resolver tudo sozinho. Achava que carregar o peso em silêncio era um sinal de força.
Depois me disseram que o valor de um homem está no seu trabalho.
Então eu trabalhei. Mas, depois de conseguir um trabalho, disseram que aquele ainda não era bom o suficiente. Que eu precisava de uma profissão mais respeitada. Mais digna, e mais masculina.
Era como correr atrás de uma linha de chegada que mudava de lugar toda vez que eu chegava perto.
Passei anos tentando caber nessas expectativas que nem sequer eram minhas.
As pessoas me cobraram para “virar homem”. Mas nenhuma delas, absolutamente nenhuma, foi capaz de explicar o que isso significava.
Como alguém pode passar a vida tentando se tornar algo que ninguém consegue definir?
Talvez seja por isso que tanta gente viva com a sensação constante de estar em dívida consigo mesma. Porque passou anos perseguindo uma ideia que nunca teve forma, nunca teve contorno e, talvez, nunca tenha existido.
Ouvi também que os homens precisavam falar mais sobre o que sentiam. Que precisávamos aprender a pedir ajuda, dividir o peso, parar de guardar tudo para nós.
Mas bastava eu fazer exatamente isso para ouvir a mesma resposta de sempre.
“Pare com essa frescura, homem que é homem, não chora.”
E eu nunca consegui entender quem foi que decidiu isso. Quem estabeleceu que existe uma emoção permitida e outra proibida? Quem resolveu que lágrimas anulam a masculinidade de alguém?
Se eu perder alguém que amo, eu deixo de ser homem porque chorei? Se alguma coisa me destrói por dentro, eu preciso fingir que estou inteiro para continuar merecendo esse título?
Qual é o sentido de uma masculinidade que exige que o homem deixe de ser humano para poder ser reconhecido como homem?
Tentei erguer as minhas próprias paredes, resolver cada problema em absoluto silêncio e carregar o mundo nas costas para provar que não precisava de ninguém.
Afinal, tinham me dito que era exatamente essa autossuficiência cega que definia a força de um homem. E, ainda assim, a resposta nunca veio. Quanto mais eu me isolava no papel que esperavam de mim, menos eu entendia o que, afinal, eu estava tentando me tornar.
Existe uma frase de fight Club que sempre volta à minha cabeça:
“Nós não temos uma Grande Guerra. Não temos uma Grande Depressão. Nossa grande guerra é espiritual. Nossa grande depressão é a nossa vida.”
A maior batalha que eu já enfrentei nunca foi contra outra pessoa. Foi contra uma ideia. Contra uma imagem de homem que parecia existir em todos os lugares, menos na realidade.
O pior de tudo é perceber que os meus valores nunca combinaram com essa ideia de masculinidade que me apresentaram.
E olhando para o mundo, às vezes parece que nós reduzimos a masculinidade às coisas mais superficiais que existem.
É curioso pensar que fomos capazes de construir máquinas que cruzam continentes em poucas horas, criar tecnologias que conectam pessoas do outro lado do planeta e colocar satélites no espaço... mas ainda discutimos se um carro faz ou não “barulho de homem”.
Eu já estive em um almoço onde um rapaz foi tratado com desprezo simplesmente porque dirigia um carro silencioso. E o mais estranho não era a piada, era perceber que aquelas pessoas realmente acreditavam que aquilo dizia alguma coisa sobre quem ele era.
Se esse é o tipo de homem que esperam que eu seja, sinto dizer que nunca vou querer ocupar esse lugar.
Às vezes eu me pergunto como chegamos ao ponto de transformar gostos pessoais em provas de masculinidade. Como se um motor barulhento pudesse dizer mais sobre um homem do que a maneira como ele vive e trata as pessoas.
Também ouvi falar que, ser homem é um exercício de provisão — ser o pilar que sustenta a família.
Mas, na solidão das minhas paredes, onde sou apenas eu, esse conceito vira um fantasma. Se a masculinidade depende de ser útil a terceiros, onde ela habita quando a casa está silenciosa? Será que minha identidade é apenas uma promessa para um futuro em que estarei casado e com filhos, ou ela pode existir agora, crua e independente?
Olhando de fora, tudo isso parece um mundo problemático. E acredito que seja.
Um lugar onde aparência vale mais do que essência, onde símbolos importam mais do que atitudes e onde o medo de parecer menos homem é tão grande que muitos deixam de ser, simplesmente, pessoas.
Hoje, eu gostaria de acreditar que existe algo verdadeiramente virtuoso em ser homem.
Não no sentido que costumam vender por aí, mas no sentido mais simples da palavra: ser alguém íntegro.
Alguém que protege quando pode proteger.
Que ajuda quando pode ajudar.
Que honra a própria palavra.
Eu moro sozinho, pago as minhas contas. Assumo as consequências das minhas escolhas e cuido da minha própria vida.
Mas nenhuma dessas coisas me faz homem. Da mesma forma que uma mulher também pode fazer exatamente tudo isso.
Uma mãe protege seus filhos.
Uma filha cuida dos pais.
Uma esposa pode sustentar uma casa inteira.
Então proteger, cuidar, trabalhar, honrar a palavra e assumir responsabilidades talvez nunca tenham sido qualidades masculinas.
Elas sempre foram qualidades humanas.
Se todas as virtudes que eu admiro podem existir em qualquer pessoa, então por que insistimos tanto em tratá-las como se pertencessem exclusivamente aos homens?
Talvez a resposta para “o que é ser homem?” nunca tenha estado nas coisas que fazemos. Talvez ela tenha sido escondida, durante tempo demais, atrás de expectativas que nunca fizeram sentido.
Sei que, na prática, a rotulagem externa não muda quem sou.
Mas, na essência, importa-me ser reconhecido como homem pelas minhas próprias virtudes e pela forma como enxergo o mundo — e não pelo valor de mercado ou pelo manual de instruções que nos impuseram sobre o que um homem ‘deve’ ser.
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