Você já se pegou comprando um livro, salvando um post ou assistindo a um vídeo com a certeza absoluta de que aquela seria a resposta que mudaria a sua vida?
É uma sensação reconfortante. A gente sente que, só por estar consumindo aquilo, já está resolvendo o problema. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, a gente só está ganhando tempo.
Cheguei à conclusão de que, por mais que eu ame ler e me encontre em muitos livros, eles nunca serão capazes de substituir as minhas próprias experiências.
Durante muito tempo, sinto que eu preferia os livros às pessoas. Era mais seguro. E por causa disso, passei anos tentando entender a vida como quem monta a caixa de um quebra-cabeça antes mesmo de começar a jogar.
Eu li sobre propósito antes de trabalhar.
Li sobre disciplina antes de criar hábitos.
Li sobre criatividade antes de ter coragem de criar qualquer coisa.
O resultado disso foi um paradoxo curioso: eu acumulava conhecimento, mas continuava profundamente carente de experiências verdadeiras. Sentia-me um especialista em mapas que nunca tinha pisado na rua.
Esta semana assisti Gênio Indomável, e uma conversa específica do filme ficou martelando na minha cabeça.
Will, o protagonista, é um gênio enciclopédico. Ele leu praticamente tudo. Sabe responder qualquer pergunta, citar autores obscuros, discutir arte, filosofia e história com uma precisão cirúrgica. Mas existe um vazio imenso nele que nenhum livro consegue preencher.
Em um dos momentos mais marcantes do filme, Sean, o psicólogo, destrói a armadura intelectual de Will mostrando que conhecer algo teoricamente é o oposto de vivê-lo.
Ele diz:
(...) Se eu te perguntar sobre arte, você provavelmente vai me dar o resumo de cada livro de arte já escrito. Michelangelo... sabe muito sobre ele: a obra dele, as aspirações políticas, a relação com o Papa, as inclinações sexuais, tudo. Mas você não sabe qual é o cheiro da Capela Sistina. Você nunca esteve lá olhando para aquele teto lindo.
(...) E se eu te perguntar sobre o amor, você provavelmente vai me recitar um soneto. Mas você nunca olhou para uma mulher e se sentiu totalmente vulnerável...
(...) Você é um órfão, não é? Você acha que eu sei o quanto a sua vida tem sido difícil, como você se sente, quem você é, só porque eu li Oliver Twist? Isso resume você?
Pessoalmente, eu não tô nem aí para tudo isso, porque quer saber? Eu não posso aprender nada com você que eu não possa ler em algum livro.
Essa cena dói porque ela expõe a nossa própria covardia.
Will usa sua inteligência arrogante para afastar as pessoas, exatamente como faz com a Skylar, a garota de quem ele gostava.
Ele faz isso porque tem pavor da rejeição. É infinitamente mais fácil e seguro debater filosofia e humilhar estudantes de Harvard em um bar do que admitir que ele tem medo de amar, de se entregar e ser abandonado.
No fundo, como levar a sério alguém que é um gênio enciclopédico, mas um analfabeto emocional?
Você pode estudar a perda durante anos, mas isso nunca será igual à dor de perder alguém. Pode ler sobre amor, coragem ou medo, mas essas palavras só deixam de ser conceitos abstratos quando passam a fazer parte da sua história, impregnadas na pele.
Gosto de pensar que a vida é como aprender a andar de bicicleta. Você pode assistir a cem vídeos, decorar um manual inteiro de mecânica ou entender toda a física por trás do equilíbrio sobre duas rodas. Ainda assim, nenhuma dessas coisas vai impedir a primeira queda.
Existem conhecimentos que não são transmitidos por palavras; eles só aparecem depois do primeiro tombo, com o joelho ralado.
Lembro-me bem de uma época em que eu me sentia mal e acreditava, piamente, que a solução para a minha angústia estava na próxima informação.
Eu lia livros para tentar decifrar minhas dúvidas, consumia reflexões prontas para diminuir meus medos e assistia a vídeos esperando encontrar a motivação que me faltava para agir.
E não me entenda mal. Eu ainda acredito, do fundo do coração, que compartilhar conhecimento pode transformar vidas. Eu mesmo tento fazer isso aqui toda semana.
O problema real começa quando o conhecimento deixa de ser uma ferramenta e passa a ser um esconderijo.
Percebi que, muitas vezes, eu não estava consumindo conteúdo para crescer. Estava consumindo para me proteger.
E, com isso, eu adiava a conversa difícil, o primeiro passo prático, a possibilidade iminente de errar. No fundo, eu esperava que algum autor, em alguma página perdida, me fizesse sentir magicamente pronto para viver.
Só que esse dia nunca chega, porque o casulo da teoria é confortável demais.
Romper isso exige coragem. E o grande estalo no final do filme é que Will só “ganha” o seu destino quando decide largar o emprego seguro e analítico na cidade e diz que vai “atrás de uma garota”.
Ou seja: quando ele decide parar de ler sobre a vida e aceita o risco de começar a vivê-la, com toda a bagunça que vem junto disso.
Existem perguntas existenciais que nenhum autor, por mais genial que seja, vai responder pra você. Elas pertencem exclusivamente à sua trajetória.
Em algum momento, por mais doloroso ou assustador que pareça, você precisa fechar o livro.
Não porque ele deixou de ser útil ou bonito. Mas porque chegou a hora de você sujar as mãos e escrever algumas páginas que ninguém mais no mundo pode escrever por você.
Como bem resumiu Clarice Lispector em A Descoberta do Mundo:
“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho. E viver é uma experiência que não se aprende nos livros, mas sim quebrando a cara na própria vida.”
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