RSS Amplifier

Bernardo.nxt · Jul 13, 2026

Estamos criando registros de vidas que não vivemos

0
Sign in to vote or save

Bernardo.nxt · Bernardo.nxt

Dia desses, estava navegando por aí, vendo um daqueles vídeos sobre destinos imperdíveis, lugares que “todo mundo precisa conhecer”.

Como era de se esperar, a França apareceu lá, imponente.

Ué, Bernardo, algum problema com a França? Nenhum. É um país fascinante, claro.

Mas o foco era ela, a Torre Eiffel. Que grande idealização, parece que existe uma necessidade quase magnética de estar lá. Não porque ela é a realização de um sonho, mas sinto que, pela necessidade de cumprir um protocolo social.

Eu me peguei pensando: eu realmente quero ver essa torre? Ou eu apenas quero ser a pessoa que esteve lá, que provou para os outros (e talvez para mim mesmo) que alcançou aquele marco?

Na verdade, quando desço da superfície e pergunto pro meu eu mais honesto, a resposta é imediata: eu não acho nada demais.

E, ainda assim, sinto esse impulso estranho de ter que ir, tirar umas fotos, validar minha existência naquele cenário e, logo depois, esquecer que ele existe.

Parece que vivemos sob uma ditadura do “não ficar de fora”. As pessoas realmente aproveitam as próprias viagens, ou elas estão apenas amando a “ideia” de estar vivendo aquela vida perfeita que a vitrine digital impõe?

Eu me reconheço muito nesse padrão, e isso me assusta. Quantas vezes não corri atrás de algo que todo mundo desejava, seja um objetivo, uma conquista, uma viagem — e, quando finalmente cheguei, me senti completamente vazio?

Esse senso de “todo mundo foi, eu preciso ir” é, no fundo, uma forma de esconder que, talvez a gente não saiba nem o que nós queremos.

“Viajar é a pressa de ver para esquecer, a angústia de registrar para não ter que viver.”

Jean Baudrillard, em América

A gente idealiza tanto que ignora boa parte da realidade. Penso na Disney, por exemplo: fotos impecáveis nas redes, sorrisos, mas, no bastidor, três horas de fila e um cansaço de ter que esperar pra ir até ao banheiro.

Projetamos no outro lado do mundo o que nos falta aqui dentro. Olhamos para uma paisagem distante e dizemos: “nossa, o lugar mais lindo do mundo”, enquanto ignoramos a beleza crua e real da nossa própria rua, da nossa cidade, do nosso cotidiano.

Dias atrás, tirei essa foto por acaso em um lugar do interior próximo à minha cidade. Veja como é algo totalmente comum e, ao mesmo tempo, parece um cenário de um belo piquenique ou filme.

As fotos serão sempre vazias se a gente não estiver inteiro dentro dos momentos.

Eu tenho essa briga constante comigo mesmo. Eu amo registrar, amo a estética da memória, a textura de uma foto. Mas percebo que, às vezes, a câmera me atrapalha.

No final de semana, fui para um chalé no interior. Um lugar de paz. Mas, em vez de apenas respirar, eu passava metade do tempo calculando um bom ângulo, ajustando a luz e o enquadramento. Eu estava lá, mas não estava “por inteiro”.

É a mesma sensação daqueles finais de ano, tentando capturar os fogos de artifício. A foto fica linda, perfeita e profissional.

Mas, na tentativa de eternizar o momento, eu perdi o momento. Eu vi os fogos através de uma tela, e não com os meus olhos.

Nossos antepassados eram mais sábios, mesmo que sem querer.

As fotos deles eram tortas, desfocadas, com sorrisos estranhos e desajeitados, mas tinham “alma”. Tinham vida. Hoje, queremos a perfeição técnica, e até usamos imagens editadas com inteligência artificial para parecer algo que não é.

Estamos criando registros de vidas que não vivemos, apenas para alimentar uma narrativa que, lá no fundo, sabemos que é falsa. Registrar é um ato de amor à memória, mas registrar o que não foi vivido é, no fim das contas, a mais pura tolice.

Eu definitivamente não quero ser apenas um turista de paisagens vazias. Se é pra conhecer o mundo, que eu não seja mais um espectador da própria vontade herdada de outras pessoas. Quero me sentir um explorador, não um colecionador de selos em um passaporte.

Estou pensando em uma nova forma de registrar: cada lugar que eu visitar será a base para um mini-diário. Não só fotos, mas escrita.

Quero registrar o que senti, o que o lugar me provocou, a melancolia de uma tarde chuvosa em um país estrangeiro, a alegria de uma descoberta inesperada. Transformar a viagem em um livro, em um relato pessoal.

Imagino meu filho, no futuro, lendo essas páginas. Mais do que ver a Torre Eiffel ou qualquer outro ponto turístico, ele vai ler o que eu pensava, como eu amava, e como eu via o mundo.

Isso, para mim, é o verdadeiro registro. É a minha “escrevivência” espalhada pelo mapa, provando que eu estive lá, que eu senti, e que eu não me perdi totalmente atrás da lente da câmera.

✍️ Leia meu e-book, Escrevivência — um guia pra quem quer escrever e se entender no processo.

Escrevivência

Read the original on bernardonxt.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.