RSS Amplifier

Bernardo.nxt · Mar 25, 2026

E se o sentido da vida for encher balões?

0
Sign in to vote or save

Bernardo.nxt · Bernardo.nxt

Eu sinto que sou só um espírito preso num esqueleto de carne, equilibrado numa rocha que voa pelo vazio a uma velocidade que eu nem consigo imaginar.

É bizarro. Eu sou um monte de átomos que, do nada, resolveu ter consciência e começar a se perguntar: “que porra eu tô fazendo aqui?”.

Minha existência é uma loucura por si só. Não faz o menor sentido e, mesmo assim, eu gasto meus dias tentando achar uma lógica nesse caos.

Por que eu sou assim? Por que eu faço as coisas que eu faço?

Será que esse “eu” aqui dentro é real, ou eu só fui sendo montado pelo que aconteceu comigo? Sou eu de verdade ou só uma versão moldada pra caber no mundo?

Sinceramente? Eu cansei de procurar sentido.

É exaustivo. Eu acho uma resposta, me convenço por cinco minutos, e logo depois ela parece vazia, boba. Aí eu jogo fora e começo tudo de novo. É um ciclo que não para e eu não sei mais como lidar com isso.

Dá pra olhar pra esse vazio e pensar que a vida é uma merda porque nada faz sentido. Ou dá pra rir da cara do universo e pensar que a vida é foda justamente por isso: porque nada importa de verdade.

Mas no fundo, a real é que eu sinto medo. A morte me assusta, mas a vida me assusta muito mais. A incerteza acaba comigo, eu acordo e durmo sem ter certeza de absolutamente nada.

Não importa quem eu sou ou o que eu faço. Posso cruzar com alguém vivendo uma vida oposta, mas nosso destino é um só. Somos dois passageiros dividindo o mesmo navio fantasma, flutuando sem direção, enquanto a gente finge desesperadamente que o porto existe.

Lembro de Dostoievski e aquela infeliz frase:

“Juro a vocês, senhores, que ter muita consciência é uma doença; uma verdadeira e perfeita doença.”

E é isso que eu sinto. Por que eu penso tanto? Por que eu insisto em buscar um “porquê” em algo que não tem explicação nenhuma? Propósito, sonho, ambição... as pessoas falam disso como se fosse a salvação, mas pra mim às vezes parece um fardo.

Eu só queria conseguir desligar. Queria ter menos consciência, menos desejos, menos cobrança interna. Eu queria só... ser. Sem precisar de um motivo, se é que isso é possível.

Agora, imagine uma realidade em que a vida realmente tem um sentido. Um gabarito oficial.

Imagine que você finalmente fica cara a cara com o que quer que esteja por trás de tudo isso. Seja o Deus em que você acredita, o Absoluto ou apenas o silêncio gelado do cosmos. Você respira fundo e pergunta:

— Qual é a razão de toda essa loucura?

E a resposta vem, curta e grossa:

— O sentido da vida é encher balões.

​Você trava.

— Encher balões? Tipo... de aniversário?

​— Sim, diz o Criador. — Assopra, dá o nó, próximo. Esse é o seu propósito cósmico.

​Aí você ganha uma segunda chance. Você volta para a Terra e vira o maior mestre de festas infantis que o mundo já viu.

Você gasta os pulmões, cumpre a meta, enche bilhões de balões. Você está literalmente vivendo o seu destino. E, no meio do milésimo balão, você para, olha para aquele pedaço de látex esticado e pensa: “E daí?

​Mesmo com o propósito na mão, a sensação de vazio continua ali, te cutucando. Porque no fundo, ter um sentido “pronto” é tão estranho e sem sentido quanto não ter nenhum.

Você vira apenas um funcionário do destino, um escravo de uma tarefa que você não escolheu. Ter uma resposta divina não cura a nossa estranheza; só transforma o mistério em uma obrigação burocrática.

É o eco moderno de Sísifo. Ter uma função para a vida toda sem ter escolhido o roteiro é o ápice do absurdo. Se o sentido vira obrigação, a vida vira um turno de trabalho.

Para imaginar Sísifo feliz, precisamos vê-lo não como um escravo conformado, mas como o dono do seu próprio tédio.

O nó da minha questão é que a minha consciência é uma máquina de fabricar dúvidas que nunca se satisfaz. O meu “porquê” não tem fim.

Se o sentido fosse encher balões, eu me pegaria perguntando: “Mas por que balões?”

Se a resposta fosse que o universo precisa de ar represado, eu ainda insistiria: “Mas por que o ar?”

No fundo, eu não quero uma resposta final; eu quero o meu direito de continuar perguntando.

Eu procuro um sentido para ter o que fazer enquanto a minha hora não chega, mas a verdade é que, se eu encontrasse a resposta definitiva hoje, a minha vida provavelmente perderia a graça no mesmo instante.

O mistério é o que me mantém acordado. Eu insisto na busca porque ela é a única coisa que me faz sentir, de verdade, que sou o dono da minha própria história.

Para mim, o sentido não é um destino onde vou desembarcar um dia, mas o “porquê” que eu escolho sustentar agora. Não se trata de grandes missões ou propósitos heróicos; é sobre o que me faz levantar da cama e enfrentar essa estranheza toda que me rodeia.

​“O mistério da existência humana não está em apenas viver, mas em encontrar algo por que viver.”

— Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamazov)

Atualmente eu estou crente de que a vida é um mar de experiências boas e ruins, e vivê-la e encaralas quando preciso é o que me causa sensações de superação e felicidade, e isso é o suficiente pra eu me sentir bem. Ajudar os outros ou fazer algo por eles também faz eu me sentir bem.

Eu continuo porque quero ver o bem no rosto de quem eu amo. Porque eu olho para a minha gata e, naquele silêncio do quarto, o universo para de parecer tão assustador e infinito.

Essa é a minha definição de ter um motivo pra viver.

Gosto de expressarar minhas ideias atraves da arte, por isso eu escrevo. Escrever é, antes de tudo, um ato de teimosia diante do silêncio do universo.

Quando a gente percebe que é apenas um conjunto de átomos habitando uma rocha à deriva, a primeira reação é o medo, mas a segunda é a criação.

Quando coloco uma ideia no papel, eu deixo de ser apenas um espírito assombrado pela própria finitude para me tornar o arquiteto de uma pequena ordem. É como se, no meio desse mar de experiências boas e ruins, o ato de criar fosse o único chão firme que eu consigo construir com as próprias mãos.

A beleza mais profunda da arte não está na estética, mas no seu poder de nos tornar suportáveis para nós mesmos. Ela nos permite olhar para o abismo e, em vez de pular, pintá-lo, escrevê-lo ou cantá-lo, transformando o que era angústia em algo que possa ser suportável.

É o jeito mais honesto que encontrei de dizer: “Eu estive aqui, eu senti isso e, de alguma forma, eu sobrevivi ao mistério”.

No fim, a arte é o que me permite fechar os olhos à noite sem que o peso da existência me esmague, porque sei que enquanto houver expressão, haverá sentido — mesmo que eu tenha que inventá-lo todos os dias, do zero.

✍️ Leia meu e-book, Escrevivência — um guia pra quem quer escrever melhor e se entender no processo.

Ler

Read the original on bernardonxt.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.