“Minha vida foi cheia de terríveis infortúnios, a maioria dos quais nunca aconteceu.”
— Michel de Montaigne
Ontem eu saí pra dirigir só pra dar uma relaxada. Peguei o carro e saí sem rumo, e acabei parando num bairro bem parado.
Estacionei perto de uma praça e de uma igrejinha, eram umas 18:50, aquela hora aqui já começa a escurecer.
Desliguei o motor, abri os vidros e fiquei ali, mexendo no celular.
Eu estava totalmente relaxado, no meu mundo, até que do nada vi um vulto pelo canto do olho.
Quando bati o olho no retrovisor, o gelo: tinha um cara colado no carro, com a mão já na direção da maçaneta.
Naquele milésimo de segundo, a minha paz virou um pânico.
Só pude pensar:
“— Fudeu, é um assalto.”
Minha mente virou um tribunal de suposições em alta velocidade.
“— Será que ele se confundiu de carro? Mas logo aqui? Será que quer informação? Mas precisa invadir meu espaço desse jeito?”
Antes mesmo de qualquer palavra ser dita, eu já tinha traçado o pior cenário possível. O coração batia na garganta.
Quando a mão finalmente puxou a maçaneta e a porta abriu, o meu reflexo encontrou apenas o rosto do meu avô.
Ele estava caminhando por ali, reconheceu meu carro e, na maior naturalidade do mundo, veio me dar um “oi”.
Por fora, eu fiquei aliviado. Mas por dentro, eu estava tentando me organizar depois de ter vivido mil tragédias imaginárias em dez segundos.
Essa situação me trouxe de volta aquela frase clássica: “Nós não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos.”
Lembrei de quando eu era criança e qualquer estalo na madeira do guarda-roupa era, sem dúvida, um fantasma. A lógica sempre perdia para o medo, podia ser a gata, podia ser o vento, mas a minha escolha instintiva era o sobrenatural.
O problema é que a gente cresce, mas a “habilidade” de criar paranoias só se sofistica.
"A maior parte dos males que sofremos são frutos de nossas próprias ideias."
— Fiódor Dostoievski
Desenvolvi uma habilidade maldita de arquitetar tragédias em cima de fatos minúsculos. O problema é que eu raramente sofro pelo que acontece; eu sofro pelo que imagino que possa contecer.
Hoje, se alguém demora pra nos responder, a gente cria um roteiro de rejeição.
Se aparece uma mancha nova na pele, o diagnóstico da nossa cabeça é sempre o mais fatalista.
Se o chefe chama pra uma conversa sem adiantar o assunto, a gente já começa a atualizar o currículo no caminho do corredor.
A minha cabeça é como um daqueles alarmes de carro mal regulados. Qualquer vento mais forte, qualquer gato que pula no capô, e o bicho começa a berrar como se tivessem explodindo o vidro.
O alarme não sabe diferenciar um ladrão de verdade de um abraço inesperado. Ele só sabe fazer barulho. E o pior é que, depois que a sirene dispara dentro do peito, não adianta ver que era só o seu avô, o corpo já inundou de adrenalina, o estrago químico já foi feito.
A gente vive com esse sistema de segurança no volume máximo, pronto para reagir a uma invasão que quase nunca acontece. Passamos o dia desarmando alarmes falsos, e o preço disso é uma exaustão que não faz o menor sentido, já que, tecnicamente, nada aconteceu.
É um estado de “quase-tragédia” permanente. É o e-mail que não chega, o olhar atravessado no elevador, o barulho estranho no motor do carro.
Tudo vira um presságio. E gastamos um fôlego absurdo tentando desarmar bombas que nem sequer foram fabricadas. É uma vida vivida no condicional, um ensaio eterno para um desastre que nunca estreia.
Hoje, morando sozinho, o silêncio da madrugada ainda tenta me pregar peças. Mas aprendi a jogar verdades simples contra esses monstros de papel:
“É só o vento”. “É só a casa acomodando”.
A percepção é um músculo. Se você não controla o que projeta, acaba vivendo em um mundo que é muito mais assustador do que a realidade jamais ousaria ser.
A nossa imaginação é uma ferramenta incrível para criar arte, mas é uma arma perigosa quando usada para prever o futuro.
No escuro de casa ou no meio da multidão, a gente precisa aprender a abaixar a guarda contra as nossas próprias mentiras, antes que elas se tornem a nossa única verdade.
Talvez o homem vindo em direção ao carro seja só um avô com saudades. Talvez o silêncio da casa seja só a paz. E talvez, só talvez, a gente possa simplesmente respirar sem esperar a próximo tragédia.
A vida acontece no agora, e o presente é quase sempre mais generoso do que as cobranças que a gente cultiva nos pensamentos.
✍️ Leia meu e-book, Escrevivência — um guia pra quem quer escrever melhor e se entender no processo.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.