Ontem fui visitar minha irmã mais nova, e ela me contou com aquele peso e alegria no olhar, que agora tem 8 matérias na escola.
Uma parte de mim, movida por uma nostalgia, já pensou:
Época boa, que saudade.
Mas esse sentimento de nostalgia durou pouco. Logo veio aquele nó no estômago de quem lembra exatamente como era o estresse daquela época.
Nos primeiros anos do fundamental, eu era o “menino de ouro”. Só tirava notas altas, ganhava muitos elogios das professoras, era aquele orgulho da família.
Tudo parecia fazer sentido.
Mas aí chegou o 9º ano, o Ensino Médio, e a minha mente resolveu acordar.
Comecei a questionar tudo ao redor, e a escola foi a primeira da lista. Minhas notas não apenas caíram, elas despencaram.
O interesse sumiu, e a rotina era um eterno déjà vu de tédio: o professor ditava o tema, você caçava a página do livro, transcrevia para o caderno e, semanas depois, vomitava aquilo numa prova para provar que a sua memória de curto prazo ainda funcionava.
Era um ótimo treinamento para ser uma fotocopiadora humana.
O que me matava era a utilidade (ou a falta dela) daquilo tudo.
Português e Matemática? Essenciais, uso todo dia.
Mas por que eu era obrigado a tentar decifrar as leis da termodinâmica ou a composição química de uma estrela morta por quatro horas na semana? Tudo porque, talvez, um dos quarenta alunos da sala resolvesse virar astrofísico?
E enquanto isso, a matéria que eu realmente amava, Filosofia, era tratada como o “prato de entrada” que ninguém quer comer.
Tinha um único período de 45 minutos por semana. As aulas se resumiam a responder por que a filosofia era importante. Era só para cumprir tabela; nunca passava disso.
Assuntos fascinantes eram reduzidos a frases de para-choque de caminhão para não ofuscar o brilho das fórmulas de física que eu esqueceria dez minutos após o sinal bater.
Eu não podia aprender o que me interessava porque precisava “ser alguém”,
— Como se eu já não fosse ninguém ali sentado.
E ainda tinha o bônus: professores que, em vez de ensinarem a matéria, perdiam a aula inteira naquela briga política de direita contra esquerda.
Como ter interesse com tudo isso? Como levar a sério um sistema que te obriga a decorar a tabela periódica mas não te ensina a pensar por conta própria?
E não é culpa dos professores. Eles estão só seguindo o roteiro de um sistema que já morreu. O problema é como a coisa toda funciona.
Hoje, vejo os stories da minha prima que está no 3º ano. É a turma toda fazendo trend de dancinha, inclusive os professores. Eu dou risada, é engraçado, mas no fundo sinto um frio na barriga.
Se na minha época, sem essa tecnologia toda, o ensino já era um deserto de sentido, o que sobrou para agora?
Que tipo de educação essa geração está recebendo? Meu medo é que o “analfabetismo funcional” vire a regra, e não a exceção.
“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.
— Darcy Ribeiro
Eu li o texto do Bernardo e uma parte me chamou muita atenção: quando ele diz que a escola treina pessoas para decorar e repetir.
Porque essa talvez seja a maior tragédia do sistema educacional moderno.
A escola não forma pessoas burras, ela forma pessoas desinteressadas.
E isso é muito mais perigoso, porque um aluno curioso pode aprender qualquer coisa. Mas um aluno que perdeu a curiosidade dificilmente volta a aprender de verdade.
Eu percebi isso quando comecei a escrever no Substack.
Aqui no Substack eu recebo mensagens de pessoas de 30, 40, às vezes 50 anos dizendo algo curioso:
“Eu voltei a gostar de estudar depois de adulto.”
Repare na frase. “Voltar.”
Isso significa que em algum momento da vida essa vontade existia.
Toda criança é curiosa. Toda criança quer entender o mundo. Ela pergunta tudo, desmonta objetos, quer saber como as coisas funcionam.
Mas depois de alguns anos dentro da escola acontece algo estranho. A curiosidade desaparece, o aprendizado vira prova e o conhecimento vira nota.
E quando algo que deveria ser prazeroso vira obrigação… o cérebro naturalmente cria rejeição.
Talvez por isso tanta gente termine a escola com a sensação de que odeia estudar.
Quando na verdade o que ela odeia é a forma como foi obrigada a estudar.
Eu mesmo só comecei a aprender de verdade depois de sair da escola. Foi fora dela que comecei a estudar economia, filosofia, escrita, comportamento humano.
Não porque alguém mandou, mas porque eu estava genuinamente interessado. E talvez esse seja o maior paradoxo do sistema educacional.
Ele passa mais de 12 anos tentando ensinar pessoas a aprender…e consegue fazer muita gente sair de lá acreditando que não gosta de aprender.
Quando finalmente me livrei da escola, não senti uma grande alegria ou conquista. Não teve festa nem discurso, eu não fiz nem formatura.
Minha formatura real aconteceu anos depois, sozinho, quando abri um livro porque eu quis e vi que o mundo era muito maior do que aquela sala de aula. A escola me deu o papel; a vida me devolveu o interesse.
É bizarro pensar nisso. Você passa anos sendo treinado para odiar o esforço de entender as coisas. Depois, gasta o dobro do tempo tentando recuperar a vontade de saber que o sistema quase apagou.
Hoje, quando sento para ler de madrugada, sem ninguém me cobrando nota ou prazo, percebo que aprender não tem nada a ver com aquela decoreba.
A curiosidade é o motor do aprendizado — e não sobrevive onde tudo é imposto pelo dever.
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