“Eu preferiria manter minhas ilusões, pois elas frequentemente são mais gentis do que a verdade.”
— Franz Kafka
Eu sempre tive dificuldade em lidar com a realidade. Muitas vezes vivi em ilusões que eu mesmo criava, só para não encarar tudo de ruim que havia lá fora.
Uma das vezes mais marcantes que eu me lembro de ter feito isso foi quando eu fui junto da minha mãe buscar um exame no hospital, era uma Cintilografia Óssea da minha avó. Na hora, nem quisemos esperar. Abrimos o envelope ali mesmo, e então veio a notícia:
Sim, o câncer deu positivo nos ossos.
Isso foi o bastante pra eu ter dois pensamentos.
O primeiro era: A vida é muito injusta. Por que tudo isso? Ela vai morrer.
O segundo, já se apresentou um pouco mais positivo: Tudo bem. Vamos superar, eu confio em Deus e ela vai melhorar.
Mas sabe quando você, por mais que tente engolir uma ilusão boa de que ficará tudo bem, no fundo sente aquele gostinho de “isso nunca vai acontecer”? É, é sempre muito doloroso.
Eu menti para mim mesmo quando disse que ainda gostava de coisas que, no fundo, já tinham me esgotado.
Quando tentei acreditar que certas relações ainda eram as mesmas, mesmo percebendo que algo ali já tinha mudado fazia tempo.
Disse a mim mesmo que não me importava com certas coisas... e passei horas pensando nelas. Disse que amanhã eu ia mudar, que agora seria diferente, que dessa vez eu ia fazer tudo certo.
E minto às vezes até quando eu olho para mim mesmo e digo: “eu estou bem”. Mesmo sabendo que não estou.
Essa é outra das mentiras que eu mais contei e conto em toda a minha vida. É olhar para o caos espalhado pela sua vida e pela sua cabeça… e não saber nem por onde começar. Então você apenas repete para si mesmo:
Eu estou bem. Tá tudo bem.
Demonstrar fraqueza, querer gerar preocupação ou importunar alguém... Eu sempre guardei tudo pra mim, não mentindo só pra mim mesmo, mas também para as outras pessoas à minha volta.
Eu sou assim há muito tempo. Sempre acabo correndo para uma ilusão gentil, porque muitas vezes não consigo suportar a realidade. Quando eu digo que sou alguém forte, uma boa pessoa e que sou feliz, não sei até que ponto eu mesmo acredito nisso. Não sei se é uma ilusão, ou se é uma verdade.
Mas as coisas sempre têm esse gosto na minha mente, essa dualidade.
Eu sou forte ou fraco? Sou feliz ou triste? Sou verdadeiro ou minto pra mim mesmo até nisso?
É estranho, mas eu sinto sempre ser os dois ao mesmo tempo.
Recentemente assisti Sonhos de Trem e a experiência foi, no mínimo, visceral. É doloroso o quanto consegui me enxergar no protagonista.
Após perder a esposa e a filha em um incêndio, ele escolhe o caminho da negação como mecanismo de sobrevivência.
Em vez de processar o vazio, ele reconstrói a casa, tijolo por tijolo, como se estivesse erguendo um altar à espera de um milagre.
Ele passou a vida inteira habitando uma promessa que ele mesmo inventou. No fim, o filme nos mostra que, por não suportar a crueza da perda, ele cultivou a mais cruel das ilusões: a de que o tempo poderia retroceder.
O grande problema disso tudo é que a verdade sempre bate na porta enquanto ainda estamos numa ilusão.
A verdade tem uma paciência cruel. Ela espera até o momento em que a ilusão já não consegue mais se sustentar. Espera até que todas as desculpas comecem a soar vazias, e quando finalmente entra pela porta, não vem gritando, vem apenas mostrando, em silêncio, tudo aquilo que eu tentei não ver.
Ela vai ficar bem? A realidade olhou pra mim e disse: não. Ela não ficará bem. Ela só tem mais duas semanas.
O relacionamento? O que poderia ter terminado de forma simples drenou um pedaço de mim que eu já não tinha para dar.
A autoimagem? Quando eu digo que sou uma boa pessoa, mas no fundo nem eu mesmo acredito nisso, estou só… mentindo para mim mesmo mais uma vez.
E o pior não é descobrir que eu estava errado. O pior é perceber que, em algum lugar dentro de mim, eu já sabia. Esse é o detalhe mais incômodo de todos, quase sempre existe uma parte de nós que conhece a verdade muito antes de termos coragem de admiti-la.
"Dizem que a esperança é a última coisa que morre, mas o que morre por último não é a esperança, é a ilusão. E é preciso cultivá-la com o rigor de uma verdade, pois é o que nos permite caminhar. É preferível viver uma mentira que nos mantenha de pé do que uma verdade que nos destrua a alma. A esperança não é a convicção de que algo vai dar certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independente do resultado."
— Miguel de Unamuno
Então, para tentar lidar com essas ilusões que eu sempre acabo criando, decidi que pelo menos sejam ilusões de esperança.
Hoje eu me tornei uma pessoa mais otimista. Eu decidi acreditar, e quando digo que tudo vai ficar bem, sei que pode ser apenas mais uma camada de proteção contra o caos. Mas é uma ilusão que escolhi manter.
Porque honestamente, eu prefiro viver assim. Acho que algumas ilusões não existem apenas para esconder a realidade.
Elas existem para nos dar coragem de enfrentá-la.
Se eu escolho acreditar nesse otimismo, é porque ele é o meu ponto de equilíbrio entre a lucidez e a paralisia.
No silêncio da madrugada, quando a realidade insiste em ser crua, essa pequena ficção que eu alimento acaba virando o meu chão. É uma mentira, sim, mas é a minha verdade mais útil.
Então, tudo dará certo, e tudo há de ficar bem.
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